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O gonçalense instruído não sabe o papel de um vereador, por Mário Lima Jr.


Imagem: mariolimajr.com

O gonçalense que frequentou a escola, tem emprego formal, casa própria e ocupa o topo da pirâmide social da cidade comete um erro grave que ajuda a manter São Gonçalo no atraso. Entre o candidato com certa visão de integração das vocações do município e o barbeiro famoso no bairro, aquele que tirou foto ao lado dos funcionários da Prefeitura roçando um terreno baldio, ele vota no barbeiro. Daqui a quatro anos o matagal estará nas alturas de novo e ele vai votar no radialista que trocou uma lâmpada queimada no poste há meses. A lâmpada, os funcionários e as enxadas usadas pra capinar o terreno são pagos com dinheiro público, a manutenção da cidade é obrigação do Executivo. Votar em quem “pelo menos fez alguma coisa” quase sempre é votar em quem cometeu um crime.


Depois de eleito, o vereador e seu contato dentro da Prefeitura, que permitiu que a máquina pública fosse explorada com fins eleitoreiros, são beneficiados pela conquista do cargo, que entre outras vantagens inclui um salário 7,5 vezes maior do que o vencimento médio do trabalhador municipal. A Câmara de São Gonçalo é formada por vinte e sete homens que construíram a fama de terem feito alguma coisa por seu bairro de origem, mentira às vezes disseminada com a ajuda das igrejas. Dois ou três, no máximo, compreenderam a importância da sua função. Ninguém foi eleito por sua inteligência ou capacidade de contribuir para uma transformação profunda do município. Pelo contrário, há quem tenha sido eleito vereador por sua grosseria e capacidade de torturar e matar outros seres humanos.

Antes do voto vem a pesquisa por quem realmente representa os interesses públicos. Um vereador deve criar projetos de lei para melhorar a vida da população e fiscalizar a administração do prefeito. Solicitar a atenção da Prefeitura para problemas estruturais de uma localidade faz parte do trabalho de fiscalização, mas escolher um vereador por sua habilidade de fazer pedidos, ao invés de pensar em soluções definitivas, é deixar que as deficiências existam pra sempre. Em 2020 não é preciso, nem recomendável, ir até uma associação de moradores para debater propostas políticas e encontrar candidatos com conteúdo de verdade. Eles estão online nas redes sociais, tanto quanto os candidatos vazios, que só exibem buracos de rua nas suas postagens.


Há bairros isolados em São Gonçalo, afundados na violência e na pobreza, que sequer lembramos que existem porque raramente são citados na mídia local. No Sacramento ou no pequeno Jardim Amendoeira perdemos gerações de gonçalenses para a informalidade, para a violência e má formação educacional. Com a permissão do nosso voto, a Câmara Municipal fecha os olhos para essas questões quando dela poderia nascer um projeto de ensino profissionalizante voltado a jovens carentes ou um programa de formalização e apoio ao vendedor ambulante, tão importante para os centros comerciais. Fonte de sustento ilícito dos políticos e de seus parentes, a prisão que São Gonçalo vive pode começar a ser destruída em qualquer ano eleitoral.


Mário Lima Jr. é escritor




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