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O gonçalense segue a vida comendo salgado e gritando “Aleluia!”, por Mário Lima Jr.


Foto: Divulgação - Internet

Um dia depois da mal explicada reabertura do comércio em São Gonçalo, moradores da cidade se espremiam dentro das lanchonetes pra comer um salgado com refresco. Sentados em volta do balcão, com as costas levemente apoiadas na pessoa detrás, ou de pé, cara a cara com o cliente da frente mastigando. Todos com a boca livre pra beber, comer e, se for o caso, absorver uma carga de coronavírus. Essa multidão de gonçalenses tem preocupações sérias que não incluem os trezentos e vinte e sete mortos pela Covid-19, até agora, no município. Ela precisa viver com o mínimo de prazer pelo tempo que Deus lhe der e para estender esse tempo, ironicamente, se coloca em risco se aglomerando também nas igrejas.


O Brasil contabilizou ontem, dia 19, um número recorde de novos casos de corona: 54.771 doentes. O número mais alto desde o início da pandemia tinha sido 34.918 novos casos, há quatro dias atrás. Claro que há gonçalenses tomando precauções diante deste cenário preocupante, em que a pandemia demonstra uma força cada vez maior. Mas qualquer cidade brasileira de mais de um milhão de habitantes é heterogênea demais. E a massa gonçalense, sujeita à violência policial e do tráfico de drogas diariamente, íntima do perigo, vê o coronavírus como um inimigo que não merece tanta atenção.


Contribuiu para o clima de descrença o fato de que foi ocupada apenas metade dos leitos disponíveis para o tratamento de pacientes infectados, ainda que 11.441 pessoas sejam suspeitas de terem contraído a doença no município. Campinas, Natal e Mossoró, por exemplo, atingiram 100% da sua capacidade de atendimento. Que após a reabertura do comércio a despreocupação popular em São Gonçalo não vire tempestade. São Gonçalo não é invencível, pelo contrário, sofre bastante.


O grande movimento de pessoas e carros nas ruas é ainda resultado de uma confusão prevista pelo Governo Nanci, que fez postagens no Facebook por uns três dias defendendo que o fim do isolamento não significava o enfraquecimento da pandemia, como significou no mundo inteiro (só os donos de shopping centers entendem a lógica local). Mas postagens em redes sociais por um curto período não podem ser tomadas como campanha de conscientização popular. Fariam um trabalho mais eficiente os incômodos auto-falantes espalhados pela cidade – coisa de município do interior, uma das práticas que mantêm a alma gonçalense ingênua.


Alma que, aliás, em nenhum momento deixou de ser explorada pelas igrejas evangélicas de pequeno e médio porte instaladas dentro das comunidades abandonadas pelo Estado. Protegidas pela pistola nervosa da Hello Kitty, que impede a fiscalização pública, elas não respeitaram os decretos municipais de isolamento. Levaram em consideração somente os estabelecimentos que podem ser facilmente multados e não houve colaboração séria entre população e poder público. Dentro das igrejas, pelo menos no Raul Veiga, Vila Três e Amendoeira, os fiéis não usam máscara, como se fossem imunes ao coronavírus e a Organização Municipal de Saúde ignorasse.


A oração e a curtição em grupo na periferia nunca são interrompidas. Afinal o povo ficaria em casa assistindo SBT? São Gonçalo vive o novo normal. A doença existe e é agressiva. Assim mesmo a balada noturna da classe média já voltou com toda força, transbordando dos bares para o asfalto. A juventude negra continua vendendo balas nos sinais de trânsito, alguns rapazes com máscara no rosto. Adolescentes negros ainda são mortos pela polícia. E nenhum membro desse governo que “cuida dos gonçalenses” jamais citou esses problemas anteriores ao coronavírus, sequer numa conversa de bar.

Mário Lima Jr. é escritor.




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