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O homem que mata e o beijo que perdoa, por Cristiana Souza


Foto: Álvaro Pegoraro

Há algumas semanas foi compartilhado na mídia digital o caso de uma mulher que após sofrer uma tentativa de feminicídio pelo homem que tivera um relacionamento, pediu ao júri para beijá-lo no dia do julgamento. Alguns textos apresentaram uma análise sobre a dependência afetiva de mulheres que apesar de serem vítimas de violência e de relacionamento abusivo continuam envolvidas emocionalmente com seu algoz.


As opiniões condenatórias para essa e outras mulheres que não conseguem se desvencilhar do ciclo de violência perpassam por questões complexas e que são incompreensíveis por uma parcela da sociedade.


No entanto, a culpabilização da vítima pelas situações de violência não é algo que podemos chamar de novo. Na década de 1980, surge no país o combate contra a violência da mulher, pela ação dos movimentos feministas e de mulheres que denunciavam a impunidade dos crimes que terminavam sem condenação e com a justificativa de que eram cometidos "por amor" ou "em defesa da honra".

Na maioria desses casos, era usado o argumento de "legítima defesa da honra"; quando se justificava que o homem agiu apenas para proteger sua honra maculada pelo comportamento inadequado da mulher, finalizando muitos julgamentos na completa culpabilização da vítima pela violência.


Nesse sentido, podemos perceber que ainda hoje, a responsabilização da mulher, vítima de algum tipo de violência é presente em nossa sociedade, seja nos espaços privados ou públicos, gerando um sentimento de desproteção social.

Muitas mulheres deixam de fazer uma denúncia, por medo da exposição, julgamentos de terceiros, falta de apoio familiar, ausência de uma rede de solidariedade e acompanhamento psicológico.


Infelizmente sabemos que uma mulher ao fazer uma denúncia tende a sofrer outro de tipo de violência; quando são questionadas sobre qual tipo de roupa estava usando, onde conheceu o agressor, como é seu comportamento, a hora que estava na rua... E isso se dá em todas as instâncias, da esfera familiar à delegacia, passando pela unidade hospitalar.


Não me canso de repetir que devemos ter um olhar mais humanizado para o outro e especialmente para as mulheres.


E diante tantos casos de violência e feminicídio, não podemos relativizar e adotar um discurso condenatório baseado no senso comum.


Denuncie através do Disque 100 ou 180.

Cristiana Souza é Assistente Social.




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