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O Presidente é pior que o vírus, por Flavia Abreu


Depois de publicar uma MP que autoriza as empresas a suspenderem o pagamento dos salários de seus funcionários por 4 meses, durante a pandemia (inacreditavelmente, seus eleitores defenderam o presidente), Bolsonaro, que teve de alterar a MP, após a chuva de críticas da oposição, voltou a se referir ao Covid-19 como uma “gripezinha”, demonstrando total falta de empatia com os infectados, desrespeito pela memória dos falecidos, irresponsabilidade com a saúde do povo brasileiro e despreparo para lidar com a pandemia. Ele falou, num pronunciamento em rede nacional, que as crianças devem voltar para a escola e que as pessoas devem voltar a trabalhar, contrariando as recomendações do seu ministro da saúde.


Francamente, é uma triste constatação, mas o Bolsonaro representa bem alguns de seus eleitores; e digo mais: representa uma boa parte da população brasileira: falsos moralistas, preocupados demais com pautas de costume; misóginos; racistas; homofóbicos e ignorantes; uma população que se pauta por correntes de WhatsApp e pregações de líderes religiosos interessados no poder ideológico. Esses líderes trazem suas "ovelhas" amarradas pelo laço, morrendo de medo do inferno e, para fugirem dos “garfinhos” do demônio, estão dispostas a pagar quanto for aos cofres "de Deus". Líderes que pouco ou nada estudaram; não conhecem História, Filosofia, Literatura, muito menos Arte. É muita sandice e ignorância.


Hoje, o presidente editou um decreto que livra as igrejas da quarentena, incluindo-as como "serviços essenciais ". Ora, duas coisas estão escancaradas aqui: a força do lobby dos pastores na República brasileira e a total irresponsabilidade dos mesmos com o seu rebanho, uma vez que não há culto ou Missa sem aglomeração, a forma principal de contágio do coronavírus.

Nas redes sociais, muitos de seus seguidores, cegos por não aceitar o erro que cometeram, tentam justificar as palavras e atitudes do “mito” deles, justificando o injustificável: a falta de humanidade do Bolsonaro. A repercussão do pronunciamento foi a pior possível, de causar vergonha alheia internacional. No mundo todo, a imprensa classificou-o como despreparado, desumano, vergonhoso e até imbecil. As redes, infelizmente, deram voz e espaço ao obscurantismo, elevou ao grau de formador de opinião qualquer apedeuta. Cabe aos letrados a caridade de não discutir com eles. Como falsos moralistas, sua única preocupação é com pautas de foro íntimo, até porque a maioria nada entende de Economia, Legislação, Educação ou Política.

Apavora-me ver como alguns “bolsominions” defendem a ditadura militar. Parece um fetiche com o falo simbólico presente nas armas, nas fardas, na "autoridade" do "capitão", do "general". Revela uma sexualidade mal resolvida, em vários aspectos; talvez até uma infância carente de referências, ou mesmo uma falta de valores éticos tão grande, que só pode ser resolvida através de um "mito", um "líder salvador", a quem devem seguir.


A fala do Bolsonaro suscitou a discussão “Economia X Saúde”. Economistas, médicos, jornalistas e os “especialistas de Facebook” prontamente opinaram sobre o que seria mais importante, como se fossem antagônicos os dois tópicos, como se não pudessem coexistir uma economia que não matasse as pessoas, e um isolamento social que mantivesse a liquidez da moeda, como se a vida estivesse no mesmo patamar que o dinheiro, como se a saúde estivesse à venda.


O governo tem de subsidiar os trabalhadores autônomos, durante a pandemia. E quem votou num candidato que defende o estado mínimo vai ter de rever seus princípios. O estado mínimo não suporta uma epidemia. Quem votou no Bolsonaro precisa repensar um governo que tirou milhões de reais do SUS, com a PEC do teto dos gastos, cancelou verba das universidades públicas, impedindo o avanço das pesquisas científicas. Não estou culpando o governo Bolsonaro pela epidemia, eu não seria leviana, entretanto, numa situação crítica como a que estamos vivendo agora, três das coisas que este governo mais atacou são as que podem agora nos salvar: a Ciência, a pesquisa científica, os laboratórios das universidades públicas e instituições sérias; o SUS, um dos melhores sistemas de saúde do mundo, em termos operacionais; e um estado de bem-estar social, de garantia de direitos humanos básicos, em que a Saúde não pode ser uma moeda do mercado e programas sociais como o Bolsa Família devem ser ampliados, porque salvam a vida dos menos favorecidos.


Cumprir a quarentena não está sendo fácil para ninguém. O isolamento social causa muita ansiedade, principalmente em crianças e idosos. É preciso muito equilíbrio para lidar com isso. Além de enfrentar os desafios do isolamento social, o brasileiro ainda tem de conviver com a inépcia do seu presidente. Não sei o que mais pode nos matar do que um gestor público que mais parece um adolescente vaidoso, com inveja dos governadores que se destacam no enfrentamento e no combate da pandemia, criando, com eles, dissensões desnecessárias num momento em que a solidariedade grita aos nossos ouvidos, nos quatro cantos do mundo. O presidente brasileiro consegue ser pior que o vírus.


Flavia Abreu é professora e blogueira.



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