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Odiar São Gonçalo não resolve nada, por Mário Lima Jr.


São Gonçalo anda tão insegura e violenta de um lado, abandonada, suja e desorganizada do outro que parece ter levado os gonçalenses à loucura. E ao ódio. Há alguns dias, li uma notícia no site do Jornal Extra de que alguém tinha sido baleado durante um assalto na cidade (crime que infelizmente se repete). Os comentários abaixo do texto da matéria tinham declarações quase tão tristes quanto o próprio crime.


Um dos leitores desabafou com raiva: “São Gonçalo é terra de ninguém, odeio esse lugar!”. Outro disse algo como “Não aguento mais, preciso me mudar o mais rápido possível”. O pior comentário afirmava literalmente: “Tem que jogar uma bomba atômica em São Gonçalo e começar tudo de novo”. Impossível não lembrar de Hiroshima e Nagasaki, cidades japonesas onde 214 mil pessoas foram mortas pelas bombas americanas e 92% dos prédios foram destruídos. Mais de um milhão de pessoas vivem em São Gonçalo. Uma explosão nuclear não deveria ser considerada de forma alguma, a não ser que se queira mais mortes e destruição.

Não podemos fingir que São Gonçalo não tem problemas. Há uma deficiência para cada habitante. Milhares de pessoas moram em regiões completamente dominadas pelo tráfico de drogas, gente que perdeu o controle da laje da própria casa desde que ela virou ponto de vigilância de bandidos. É impossível para esse morador alcançar qualquer satisfação ou qualidade de vida. Cabe ao restante da população, principalmente quem ainda conta com o direito de livre expressão, exigir investimentos em desenvolvimento social e segurança pública. Exigir e contribuir, para o próprio bem e o benefício de todos.


Se o gonçalense que consegue sair de casa, trabalhar, ir à feira, estudar e encontrar os amigos desistir do lugar onde mora, em breve descobriremos que “nada é tão ruim que não possa piorar”. Apesar dos atentados que sofremos, como o assassinato de amigos que confraternizavam no Porto Velho, uma quantidade importante de pessoas é capaz de se esforçar para realizar seus sonhos aqui. A gente não está falando de uma cidade pequena, isolada, nem perdida, mas da segunda maior população do estado do Rio de Janeiro.


Nem de brincadeira podemos admitir que alguém diga que São Gonçalo deve ser destruída. Significa abandonar 440 anos de história, história mais rica do que a maioria sabe, e jogar o município e o povo no lixo, quando queremos evolução. Como gonçalense adotado, que veio morar no Vila Três em 1989 por causa da violência no Rio de Janeiro, posso dizer que continua valendo a pena, apesar do crescimento da criminalidade. Se o tiroteio começa, a gente corre pra dentro de casa. Quando a situação acalma, o som das crianças brincando e dos vizinhos conversando volta a ser ouvido na rua. Claro que isso não é felicidade, mas insistimos, ao invés de ceder ao ódio e ao rancor.


Famílias são formadas a cada fim de semana nas igrejas, nos cartórios ou através de um compromisso mútuo pelo olhar. Bebês nascem todos os dias. O que eles esperam da sociedade gonçalense é amadurecimento. Amaldiçoar o município nas redes sociais não deixará as ruas organizadas, depois de trazer um emprego estável para o vendedor ambulate. A violência não será vencida através de um xingamento.

Mário Lima Jr. é escritor.



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