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Os vários ângulos de Graciliano Ramos

Por Erick Bernardes

Essa é uma resenha do livro de entrevistas e depoimentos Conversas, de Graciliano Ramos, e que constitui uma coletânea organizada pelos pesquisadores Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Em único volume, os dois organizadores reúnem 25 entrevistas, 20 enquetes e depoimentos, além de 19 “causos” publicados em diferentes periódicos durante a carreira do autor de Vidas secas. Enriquece o trabalho um conjunto de fotos e notas fac-símiles veiculados em jornais, revistas, livros e manuscritos, retratando parte da trajetória do intelectual nordestino.


Ao dar continuidade à série de publicações iniciada com Garranchos (2013) e Cangaços (2014), Conversas atende à demanda não só de estudiosos e pesquisadores do campo literário, mas a todos aqueles que se interessam pela vida e obra do político e crítico Graciliano Ramos. Acrescido de notas bibliográficas ao final de cada pequeno capítulo, suas seções trazem à tona facetas pouco conhecidas do cotidiano do autor de Infância.


Na seção de “Entrevistas”, vemos a figura pública de Ramos manifestar-se sobre assuntos que vão desde opiniões acerca de obras literárias de escritores anteriores e contemporâneos seus até assuntos relativos à Segunda Guerra Mundial. Para aqueles que o entrevistaram, a ressonância da voz analítica do entrevistado evidencia o lado crítico de quem conhece o panorama histórico e literário da sua época, mas também denota o homem Graciliano na intimidade e seu lado psico-afetivo mais latente, alternando momentos de humor, ironia e introspecção.


No espaço destinado às “Enquetes e depoimentos”, a ênfase recai sobre uma variedade de assuntos, como a Copa do Mundo de 1938, a preferência literária por Anatole France e questões políticas, ligadas ao partido PCB. No capítulo que serve aos “Causos”, vemos a comicidade prevalecer, pois seu viés satírico destoa daquela visão taciturna e ensimesmada, sobre a qual tradicionalmente foi pintada a imagem desse artista nordestino. Casos engraçados e anedóticos têm como alvo a situação do escritor no Brasil, a ironia fina concernente à imposição da força do poder e a autocrítica debochada acerca dos seus próprios livros. Enfim, uma miríade de fatos curiosos em situações corriqueiras, nas quais Graciliano Ramos varia a sua fala, alternando ora o discurso de intelectual e figura pública, ora o de homem comum em diálogo simples e despretensioso.


A preocupação dos organizadores de Conversas com o enquadramento social do ilustre filho de Quebrângulo deixa claro a rejeição do escritor aos exageros utópicos modernistas que serviriam de instrumento ao fascismo: “Pode anotar, também, não gosto de fascistas”. Declarações enfáticas de denúncia e protesto de Ramos às atitudes opressoras evidenciaram certos ritos de escrita (MAINGUENAU, 2001). Assim, as “Enquetes e depoimentos” apontam também para opiniões, em que Ramos discordaria das extravagâncias modernistas, pois estas desviavam-se sobremaneira da realidade do povo. A “arte pela arte”, dizia ele, era a enunciação da mediocridade que levava à estagnação da nação. Porém, concordava que a revolução operada pela Semana de Arte Moderna fez pelo menos “um serviço: limpar, preparar o terreno para as gerações vindouras” (RAMOS, 2014, p. 132), caso contrário o próprio José Lins do Rêgo teria o seu espaço restrito no meio literário. Opinião que, em “Cartas ao Brasil”, entrevista concedida ao português Castro Soromenho para o Diário Popular, Ramos por si só já depõe a favor da escrita sem exageros ideológicos, tendo em suas declarações um modo de atuação intelectual contrário à “liberalidades” e extravagâncias assumidas pelos Andrades e cia. Em boa síntese:


Ao adensar ainda mais o viés intimista do homem cultivador de “boa prosa” que foi Graciliano Ramos, Salla e Lebensztayn, na terceira parte do livro em questão, transcendem a dimensão da imagem de escritor reservado. Em “Causos”, as circunstâncias das “conversas” apresentam-se de modo comparável aos cafés e salões dos séculos XVII, XVIII e XIX. A livraria José Olympio era palco, dentre outras coisas, de pré-difusões de obras de um círculo de intelectuais pelo qual transitavam Aurélio Buarque de Holanda, José Lins do Rêgo, Amando Fontes e outros mais. Destaca-se também um fato curioso narrado em “O pouso do morcego”. Quando certa vez na rua, em “frente dum café onde habitualmente” se reunia o grupo de escritores, um incerto morcego decidiu pousar no ombro do ex-prefeito de Palmeira dos Índios, servindo de comparação com o corvo, da obra homônima de Edgard Allan Poe (LEBENSZTAYN; SALLA, 2014, p. 339), sendo portanto, o inusitado do acontecimento merecedor de integrar as páginas de Conversas (2014).


Encontramos aqui, talvez, outros ângulos para falar do artífice da palavra que foi Graciliano Ramos, de “caráter a um tempo literário e político” (LEBENSZTAYN; SALLA, 2014, p. 9), isto é, um panorâmico olhar multiforme do profissional engajado, com fotos e fac-símiles de notas de jornais, revistas e manuscritos que ilustram bem o ambiente literário por qual ele transitou. Dessa maneira, cada entrevista, causo, enquete ou depoimento, “a seu modo, permite iluminar facetas pouco conhecidas, ou, até então, obscuras” (SALLA, 2012, p. 61) do artista, postas em relevo por Salla e Lebenszteyn. A obra interessa tanto a estudiosos do meio jornalístico e literário quanto àqueles que buscam saber um pouco mais sobre a vida e a obra do escritor.


Enfim, fica-se com a imagem, não só do profissional em seus vários estados de espírito, mas, acima de tudo, de homem que tinha sob o crivo da “autoanálise sem complacência [...] no plano dos atos, um traçado límpido e nobre de comportamento” (CANDIDO, 2012, p. 79), sem excessos ou exageros ideológicos que viessem obscurecer seu modo de “ser-estar” no mundo.


Referências

CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. 4 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2012.

MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

RAMOS, Graciliano. Conversas. LEBENSZTAYN, Ieda; SALLA, Tiago Mio (Orgs.). Rio de Janeiro: Record, 2014.

RAMOS, Graciliano. Garranchos. SALLA, Thiago Mio (Orgs.). Rio de Janeiro: Record, 2012.

______. Cangaços. LEBENSZTAYN, Ieda; SALLA, Thiago Mio (Orgs.). Rio de Janeiro: Record, 2014.


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