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Pipa, tiro, sangue e futebol, por Mário Lima Jr.


Foto: Romario Regis

A comunidade ouviu um tiro no meio da tarde da última terça-feira. Um daqueles tiros que assustam mais do que rajada ou confronto porque um só disparo carrega uma violência enorme, crua e definitiva, geralmente associada à execução de alguém desarmado. Os moradores sentiram que um tiro à luz do dia, único, seco, podia resultar em desespero grande. Quatrocentos e vinte e dois tiroteios ou disparos foram registrados em São Gonçalo, no primeiro semestre desse ano, pelo laboratório de dados Fogo Cruzado. O segundo maior índice no estado do Rio de Janeiro, ficando atrás só da capital.


Logo começaram os gritos de socorro. A molecada, ainda de férias da escola, enrolou a linha rápido, tirou a pipa do alto e correu até a frente do quintal pra tentar entender. A dona de casa parou de varrer. Cada pessoa apareceu no seu portão e perguntou ao vizinho do lado, também sem saber de nada, o que tinha acontecido. Um garoto subiu o morro chorando. De susto, não tinha sido atingido, mas viu o que aconteceu. Outro vizinho, adulto, andava de um lado para o outro, meio perdido, chorando mais do que a criança. A uma quadra de distância, bandidos tinham roubado o carro de um senhor e atirado nele de maneira covarde, como sempre. Morador antigo da região, conhecido por todos.

Invasões de facções inimigas obrigam as pessoas a se esconder. Disparo isolado, sem grito e sem vítima, faz o povo colocar a cabeça na janela de casa, com cuidado, pra descobrir de onde saiu o tiro. Quando há sangue no chão, a curiosidade fica mais forte que o medo, seja pra ver, experimentar a tragédia ou tentar ajudar.


A esquina ficou lotada. Não faltou cor, gênero, nem idade. Cachorros de estimação acompanharam os donos (animais vadios chegaram antes ao local). Cada um lamentava do seu jeito – preocupados com o estado de saúde da vítima, dizendo que vão se mudar de São Gonçalo o quanto antes ou amaldiçoando o município pelos altos níveis de violência, ao invés de culpar o fracasso da gestão pública.


Um grupo resolveu ficar na rua discutindo teorias sobre o crime até obter uma informação concreta. O socorro público demorou e um parente teve que levar a vítima para o hospital. Ela felizmente sobreviveu.


A dona de casa retomou o trabalho. A rua esvaziou aos poucos, os murmúrios terminaram, quase se ouvia um silêncio, não fosse pelas crianças de férias. Como estava perto de anoitecer, ao invés de soltar pipa elas organizaram uma partida de futebol. Berrando e discordando mais do que concordando, dividiram um time para cada lado. A menos de duzentos metros de distância da tentativa de assassinato que tinha acabado de acontecer.


Pensando bem, São Gonçalo não tem outra escolha. Sobreviver é uma obrigação humana. Além da dor, do medo e da injustiça, que haja curiosidade, inocência e o mínimo de prazer no esforço.

Mário Lima Jr. é escritor.


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