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Pombos musculosos não salvarão São Gonçalo, por Mário Lima Jr.


Foto: Divulgação Internet

Famílias inteiras, com bebês de colo, passam o dia nos sinais de trânsito vendendo balas e panos de chão. Andam quilômetros no sol, espremidas entre os veículos e aspirando a poluição dos canos de descarga. Há mais pessoas em situações de miséria e fome montando barracas e vivendo nas praças do que crianças no balanço ou usando o escorrego. Jovens desempregados deixam a casa dos pais, abandonando sonhos, assim que são recrutados por traficantes de drogas. Esses são alguns dos inúmeros problemas que afetam a cidade de São Gonçalo. Nenhum deles será resolvido exibindo bíceps bem modelados ou lançando um olhar de raiva sobre adversários políticos. No esgoto a céu aberto, na rua sem asfalto e nos muros vandalizados, estupidez São Gonçalo tem de sobra, o que falta é inteligência.


Um grupo de pombinhos musculosos e cheios de raiva ocupa um espaço importante na política do Estado do Rio de Janeiro, seja em cargos eletivos ou no gosto do eleitor, pronto para elegê-los. Em São Gonçalo, dois deles querem exibir o peito estufado sentando na cadeira de prefeito e ocupando um gabinete na Câmara de Vereadores. Se consideram pombos bem intencionados e de bom coração, mas um já foi preso por pertencer a quadrilha de agiotas (O Globo) e o outro foi formalmente acusado de agredir mulheres (O Dia).


Não há dúvidas de que o mundo pode ser injusto com pessoas boas, pelo visto também com as aves. Os honestos, independentemente da espécie, não podem desistir de continuar sendo honestos, o que exclui a prática de emprestar dinheiro cobrando juros abusivos e de agredir fisicamente outros seres.


Os pombos sobrevoando São Gonçalo declararam ainda nas suas redes sociais a pronta intenção de pegar em armas para derrubar o Supremo Tribunal Federal (STF), caso a instituição tome decisões que os desagradem e provoquem a ira dos seus músculos e bicos. Sem o STF, guardião da Constituição, o povo brasileiro estaria indefeso contra aves autoritárias. Cada vez parece menos que esses animais sejam bonzinhos.


Se fossem inteligentes, teriam propostas públicas que iriam além de exigir a extinção dos partidos políticos da esquerda. Teriam projetos de governo e de lei baseados em estudos científicos e estatísticas. Se respeitassem o município de São Gonçalo, os pombos não teriam invadido, ameaçando agir com violência e portando armas, as obras atrasadas do Hospital de Campanha, construído dentro do Clube Mauá. Fazer Justiça não significa usar a força. E quando a força é necessária, em nome do Estado, existem instituições criadas e controladas para isso. Pombo só faz sujeira quando passa por onde não deveria estar, cagando, espalhando penas e disseminando doenças.


Esperteza, não podemos negar, não falta a eles. Depois que aprendem onde encontrar comida, não se esquecem jamais. Visitam o lugar onde comeram pelo menos uma vez durante meses, até anos, mesmo que a comida já tenha acabado. Os pombos do Estado do Rio têm boa memória e vão continuar se alimentando da política fluminense por um bom tempo. São Gonçalo não é nada além do seu território de exploração, da sua área de domínio a ser expandida.

Mário Lima Jr. é escritor.




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