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Precisamos amar as mulheres, por Flávia Abreu


Tenho observado bastante o universo feminino. Agora, mais do que nunca, talvez eu esteja tão imersa nas demandas das mulheres porque a minha única e constante companhia seja uma mulher: eu.


Nunca as mulheres me chamaram tanto a atenção. A Virgem Maria, Dona Zilda Arns, Eva Braun, Michelle Obama, Dilma Roussef, Santa Teresa de Ávila, Eva Perón, Malala Yousafzai, Anne Frank, Elizabeth II, são tantas, inúmeras personalidades que me chamam a atenção pelo sagrado feminino que carregam. Nunca ouvi tanto as vozes femininas quanto agora, Nina Simone, Amy Winehouse, Billie Holiday, Etta James, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Madonna, Maria Bethânia, Pitty, Marisa Monte, vozes que retumbam e acarinham meus ouvidos e minha alma. E, embora tenha sido a vida inteira leitora apaixonada pela escrita feminina, em tempo algum me debrucei sobre elas como agora, Idea Vilariño, Elizabeth Bishop, Emily Dickinson, Clarice Lispector, Lya Luft, Anna Akhmátova, Isabel Allende, Safo, a palavra escrita, oriunda daquela que gera, nutre e acalenta.


Eu quero ouvir as mulheres, percebê-las, senti-las, estar com elas. Minha advogada é mulher, minha dentista é mulher, minha ginecologista é mulher, a professora de hidroginástica é mulher, a instrutora de pilates é mulher. Dizem por aí que as mulheres cresceram. Eu não penso assim. Sempre fomos grandiosas. As mulheres estão, finalmente, ocupando os seus lugares, eu diria. Lugares antes reservados apenas aos homens. Na Arte, na Literatura, na Política, nas grandes empresas, no trabalho, no trânsito, e, sobretudo no Amor. As mulheres exigem respeito, as mulheres reclamam o orgasmo, a paridade salarial, o direito de ir e vir. É preciso ouvir as mulheres. É urgente ter a sensibilidade de voltar o olhar a quem tem a “intuição feminina”, o chamado “sexto sentido”, a integração dos outros cinco; trata-se do cruzamento de informações entre os dois hemisférios do cérebro, movimento muito estudado e já constatado por cientistas do mundo inteiro ser muito maior e intenso nas mulheres. As mulheres têm bastante a dizer, a contribuir, a empreender.


As mulheres cuidam umas das outras, são empáticas. Basta sair com mulheres, como eu saio com minhas amigas, minha irmã e minha mãe. Frases como “amiga, cuidado!”; “qualquer coisa, me liga”; “manda um oi para eu saber que você chegou bem” são bastante comuns entre nós. Moças mais jovens, então, são como filhas, para as mulheres. É muito comum nos darmos as mãos nas ruas, fazermos cara feia para um homem que olha de forma desrespeitosa para uma mana, principalmente se ela for uma adolescente. Controlamos o que a mana bebe, pagamos a conta na boa se ela está sem grana, ouvimos mil vezes as terríveis histórias de relacionamentos abusivos, que destroem as minas; ouvimos com empatia, com afeto, com vontade de girar o mundo ao contrário, para que aquela companheira não passe por aquele martírio.


Precisamos amar as mulheres. Precisamos desconstruir preconceitos históricos. Precisamos parar de rir de piadas machistas, que debocham da essência feminina. Não somos “maria chuteira”, não somos interesseiras. Nós estudamos, pesquisamos nas universidades, trabalhamos, empreendemos e construímos ideias e valores, pagamos nossas próprias contas, sustentamos nossas casas e nossos filhos. Nós fazemos amor com afeto, com entrega, com desejo. Não temos nada de sexo frágil. Sangramos todo mês, e isso é muito simbólico. Quem é capaz de carregar um filho por nove meses na barriga, indubitavelmente, tem o poder de amar incondicionalmente. Vamos amar as mulheres, libertar-nos dos padrões (culturais, de imagem, de comportamento) engessados da sociedade, apropriar-nos integralmente do nosso corpo, da nossa consciência e da nossa história. Somos Gaia, somos Afrodite. Somos Marielle, somos Joana D’Arc, somos todas, somos uma.

Flavia Abreu é professora e blogueira.



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