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Reinaldo Guimarães: O olhar de um Sambista com rigor acadêmico, por Oswaldo Mendes


Reinaldo Guimarães/Acervo pessoal

Fala com orgulho de suas origens, dos locais onde sempre esteve, amigos, das façanhas da vida e do Buraco do Juca, nas Palmeiras, onde nasceu e se criou, no Fonseca. Viveu também em Tribobó, Trindade, Leite Ribeiro e atualmente Engenhoca. Seu contato com a cultura, além da Palmeira, vem dos laços familiares os quais informa ser descendente direto de escravos.


Cacique das Palmeiras, Cubango, baile Soul, Devaneios e Copa Sete fizeram parte de sua formação. Acompanhava e participava desses bailes. Lembrando, outrossim, que nessa época o GRES Cubango tinha seus ensaios no Clube Fonseca.


Reinaldo da Silva Guimarães, nascido em 13 de agosto de 1959, com três irmãs e um irmão. Seu pai, o saudoso Rosalino Guimarães de Souza, mais conhecido como Senhorzinho, e sua mãe Maria Conceição da Silva, mais conhecida como Miquilina, tiveram profunda atuação não só na sua formação como pessoa - cidadão, mas também no repasse de questões culturais.


No Movimento Black, isto na década de 70, ele se vestia a caráter: cabelo black, calça boquinha, sapatos coloridos e topetão gigantesco, sendo paralelo ao Movimento do Samba no qual participava também do Cacique das Palmeiras.


Um grupo de amigos vendo-o sambar convidou e o levou para conhecer a agremiação Canarinhos da Engenhoca. Esses amigos já participavam da Ala de Passistas do Canarinho e assim ele também passou a integrar a ala. Na Canarinhos, Reinaldo conheceu o Paulo Cesar Portugal, atual presidente da Ala dos Compositores da Viradouro e que na época era presidente do Canarinhos da Engenhoca.


Desfilou como passista no Canarinhos da Engenhoca e Cacique das Palmeiras, mas na agremiação GRES Cubango desfilou em alas, tendo a atividade de também ser um Divulgador da Agremiação. Já participou da Ala de Passos Marcados e da Comunidade da Acadêmicos do Sossego, também como Divulgador, isto com Marçal Branco.


Foi visitar o Ponto dos Compositores, que ficava perto da Cinelândia, no centro do Rio, onde conheceu alguns amigos que o convidaram para participar do Jornal “A voz do Samba”, o qual, tempos depois, veio ser representante do veículo na Associação das Escolas de Samba de Niterói, onde conheceu diversas pessoas, dentre elas o Mário Dias e Jesuíno Dias, nos desfiles de carnaval na Avenida Amaral Peixoto, em Niterói. Também trabalhou na pista e na rádio. Na Rádio Fluminense, em programa de meia noite às duas horas da manhã, durante dois anos.


Reinaldo cita:” Os Mudos são irmãos lá da Palmeira, que sambavam na Canarinhos da Engenhoca, um deles se chamava Paulo César, que me parecia ser marido de alguém da família de Paulo César Portugal, se não me engano; o outro era Armando e tinha mais um que não me lembro o nome, além de mim e de um outro chamado Adilson!!”


Conheceu o saudoso presidente da Viradouro, o Albano, num dia em que visitavam a escola de samba, e dele veio o convite para participar do Grupo no qual Reinaldo passou a conviver. Era o grupo denominado “Os Mudos” para que viessem a frequentar a GRES Viradouro.


No início de 1991 foi trabalhar na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC/Rio, como Auxiliar de Biblioteca e assim ganhou uma bolsa de estudos na Instituição onde se formou em Bacharel em Ciências Sociais. Posteriormente foi estudar na IUPERJ – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro para fazer o Mestrado, isto em 1998 e 2000. Retornando à PUC fez e concluiu o Doutorado e em 2003 em Serviço Social com defesa de Tese em 31 de maio de 2007. Recentemente lançou um livro que saiu dessa Tese denominado Afrocidadanização: Ações Afirmativas e Histórias de Vida na Cidade do Rio de Janeiro, obteve, então, a titulação de Doutor em Serviço Social.


Leia o artigo que escreveu sobre o tema no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte (MG) neste lik: https://www.hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/blogs/opini%C3%A3o-1.363900/a-lei-%C3%A1urea-representou-mesmo-o-fim-da-escravid%C3%A3o-1.673224


Trabalhando e estudando, afastou-se por algum tempo do Mundo do Samba e assim passou quase uma década sabática.

No Brasil há uma grande confusão com a questão da titulação de Doutor, pois uma é a titulação acadêmica, a qual tem reconhecimento em qualquer parte do mundo, e a outra é uma questão de tradição e de até mesmo para separação de classes. Por esse motivo, muitas das vezes, pessoas que tem o título, evitam divulgá-lo para não ser confundido o Doutor com D. Sc – acadêmico - e o outro com Dr.


Quantos sabem o Milton Cunha tem o título de Doutor, por exemplo? Ele não precisa dizer.

Veja matéria sobre Afrocidadanização no link https://www.dropbox.com/s/lus534m6so9yp9p/Eles%20chegaram%20%C3%A0%20Academia.pdf?dl=0

Fragmento da matéria

Participa da Ala dos Compositores da Viradouro desde o final da década de 90, com os compositores Alexandre Delpeque, André Quintanilha, Geraldo Sudário, Maninho, Mocotó e outros.


O Mundo do Samba é gigantesco. Os bastidores envolvem uma série de pessoas a ascenderem socialmente - são trabalhadores de bastidores; processos de inclusão social, ensino de artes e esportes. As escolas de samba estão produzindo, isto na condição de associação comunitária, importantes trabalhos em relação à inclusão como um meio de ascensão e mobilidade social. Nos barracões trabalham muita gente. É emprego de forma direta e indireta. E nas salas de aulas ele cita que trabalha com enredos históricos, discutem-se, além das diversas ações voltadas à Comunidade, a Sociedade que se produz o ano todo. Na conclusão de Reinaldo, o qual também é Professor Universitário, o tempo de marginalização, de coisa de vagabundo já foi superado nas Escolas de Samba.


A tese foi o estudo sobre a trajetória de Universitários provenientes de pré-vestibulares comunitários e populares em redes que foram beneficiados pelas ações da PUC Rio desde 1990 como resultados das ações afirmativas advindas de cotas e outras ações afirmativas, informa Guimarães.


A materialização da AFROCIDADANIZAÇÃO:


“[...] o reconhecimento da identidade racial como positiva e do protagonismo da população negra como fundadora e criadora da sociedade brasileira; o direito à igualdade e à liberdade de seus direitos e deveres; o direito a diferença; o direito de disputar os benefícios sociais em igualdade de oportunidades e de condições. Assim, a afrocidadanização seria a base e a concretude de um processo de construção da verdadeira “democracia racial”, uma equidade social na qual todos os negros sejam plenamente estabelecidos na sociedade brasileira (GUIMARÃES, 2013, p. 34).


A Afrocidadanização representa uma forma de pensar as condições históricas vividas pelos indivíduos da população negra na sociedade brasileira, como alternativa ao que tem sido entendido como a “democracia racial brasileira”. Ou seja, seria a realização efetiva da cidadania plena para os indivíduos da população negra, historicamente subalternizados em nossa sociedade e que abarca o reconhecimento da identidade racial como positiva; o reconhecimento do protagonismo da população negra como fundadora e construtora da sociedade brasileira; o direito a igualdade e a liberdade; o direito a diferença; o direito de conquistar os benefícios sociais em igualdade de oportunidades e de condições justa e igualitária e democrática. (GUIMARÃES, R. S, 2013, 240p.)” cita Reinaldo Guimarães em seu livro.


Depois que o visual tornou-se mais importante que o áudio, como era definido por Joaozinho Trinta - que o carnaval era aquilo que você escuta, você vê, o carnaval passou a ser um espetáculo com grandes pacotes turísticos e, consequentemente, veio a exclusão da Comunidade, porém, sem resultados expressivos na competição, houve, então, a necessidade de financiamento de Alas da Comunidade pela própria Escola para alcançar melhores colocações na disputa. A Comunidade, o canto, a Harmonia foram efetivamente reconhecidos, conclui Reinaldo Guimarães.


O mesmo processo que passou com as alas comunitárias, vem acontecendo atualmente com as alas de compositores em função dos “Escritórios do Samba”. Com o retorno financeiro de trezentos a quatrocentos mil reais para o samba vencedor, chamou a atenção de pessoas que, com seu poder econômico, estrutura por meios digitais, torcidas pagas e influenciam resultados e desanimam compositores. Já é notória a pasteurização de sambas, assim como a redução da quantidade de sambas antológicos que se refletem desde a venda de cd’s até os sambas-enredos tocados nas mídias pós-carnavais. “Excluíram o compositor pobre da competição. O capitalismo nessa disputa cresceu demais”. Afirma Reinaldo.


O domínio hegemônico dos Escritórios do Samba podem ser combatidos com ações que, como fez a Mangueira, proibiu torcidas pagas, camisa que identificassem grupos e gravações de áudio e vídeo só as permitidas pela Agremiação – evitando assim a utilização de robôs para impressionar a população e a Comunidade, por exemplo, informa o Compositor.


A ausência de racismo – a Afrocidadanização – que na visão do Professor Doutor deverá durar mais 150 a 200 anos, isto porque estamos vivendo a primeira geração de transformação social de negros na Sociedade brasileira. Existe a relação de poder, pois o Racismo é uma relação de poder que usa muitos instrumentos para manter-se no poder e transformar o “status quo”, para assumir a hegemonia para transformar a Sociedade que advém do hábito cultural, a qual embasa e estrutura o racismo e da inferioridade racial premente. Quando um Negro age como se não o fosse, não o faz de outra raça, pois os brancos o apoiam pois se tornou instrumento ideológico e efetivo, concreto das ideologias racistas. Quando se nega o racismo no Brasil, na verdade, acontece um processo contra a Afrocidadanização, pois, como resultado dessa negativa, não seria necessária ações positivas como cotas ou cursinhos pré-vestibulares em comunidades, mantendo-se, assim, as condições atuais como perfeitas.


A Afrocidadanização é um processo em curso, a se dar, mas o caminho a percorrer é longo.

Oswaldo Mendes é engenheiro.




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