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Renan Gêmeo: um grito de alerta de um Compositor, por Oswaldo Mendes


Elem Renan/Foto: Acervo pessoal

“Queria que você acrescentasse nas minhas respostas que na Escola de Samba as palavras ESCOLA E SAMBA têm que voltar a fazer sentido, como fizeram na minha vida e na de tanta gente”, assim iniciamos mais uma entrevista, hoje com Renan Gêmeo, como é conhecido no “Mundo do Samba”


“Depois que o visual virou quesito” mudanças profundas aconteceram nas escolas de samba, dentre elas: a Galeria da Velha Guarda que deixou de apresentar e fazer parte do “Abre-Alas” das agremiações para dar lugar a bailarinos, buscando-se a partir deste um local aonde os idosos não atrapalhassem a evolução da escola - por exemplo, em cima de um carro alegórico.


Alas shows desapareceram; passistas tem uma única função de “tapar o buraco” quando a bateria entra no recuo, sendo odiados por muitos carnavalescos e carnavalescas; o compositor foi retirado do palco – suas vozes muitas vezes esquálidas não podem aparecer num show-ensaio, trocando-se as vozes dos compositores por cantores profissionais; o samba de terreiro desapareceu das quadras.


O ritmo das músicas foram acelerados para incríveis 155 BPM, antes eram em torno de 85 BPM – batidas por minuto; o canto das alas monitorado através de decibelímetros; sambas enredos foram encomendados sendo de forma pública ou “debaixo dos panos” em acordo entre às partes, direcionando como resultado o fim dos sambas enredos antológicos, sambas pasteurizados - inclusive com a mesma linha melódica e, assim, as vendas dos sambas declinaram.


O valor do prêmio pago aos compositores do samba enredo e a crise financeira fez com que diversos segmentos da música viessem se aportar nas agremiações, que se aliaram à academia e ao poder financeiro, formando grupos poderosíssimos denominados “Escritórios do Samba”.


O Morro foi trocado pela Academia; enredos, os quais tinham início, meio e fim, deram lugar a temas, muitos sem correlação com a ordem cronológica, a realidade dos poucos integrantes originais que resistiram ou até mesmo lógica- ficção; os Jurados, muitos deles ligados à Alta Sociedade, analisam e punem mínimos detalhes do desfile, desde rimas pobres à fantasias desabotoadas.


Ganhar o título do carnaval passou a ser o único fim e não um somatório de resultados da agremiação; idosos, obesos, doentes, pessoas com necessidades especiais foram colocados à parte dos desfiles para não ter a possibilidade de causar problemas na evolução.


A história da agremiação, seus fundadores, símbolos foram apagados para não ter vínculos com as tradições. As parcerias de sambas têm em sua composição o poder político, pessoas midiáticas, o poder financeiro e a academia.


É o preço para a transmissão televisiva para mais de cento e cinquenta países, um retorno financeiro de mais de 4 bilhões de reais – conforme declarações do então Governador do Estado do Rio de Janeiro, Witzel e todos os hotéis cheios. O samba sambou! Pouquíssimas agremiações carnavalescas não têm “dono”. O samba sambou? Quem não se readaptou desapareceu.


Os desfiles das Escolas de Samba passaram a ser vendáveis e muito lucrativos financeiramente, mas perderam a essência do culto às tradições, às Comunidades, às raízes.


Renan de Souza Pereira é o nosso lúcido entrevistado.


Nascido na antiga clínica nossa senhora das neves, filho de Dona Tânia e Seu José Carlos. "Aliás, nascemos, eu e meu irmão Gêmeo Rodrigo”, cita o Renan.


Tem mais um irmão mais velho, Igor.


E sempre morou na Rua Rodrigues Alves, uma rua dentro da João Batista

onde metade da Rua é Niterói e a outra metade São Gonçalo. Ali se criou e é da geração em que na rua aconteciam as nossas brincadeiras. Parte dos seus colegas de infância, pelo menos os que continuam "por aqui", hoje são seus amigos e é legal ver cada um formando as suas famílias, seguindo suas vidas.


Se formou, no segundo grau, no Henrique Lage como técnico em edificações e completou seus estudos na UERJ como professor de Geografia.


Participou ativamente do movimento estudantil que, aliado à realidade do lugar onde morava, foi moldando a sua visão de mundo. Aprendendo, assim, a não se conformar com as injustiças.


Hoje é pai de duas crianças lindas, Alice de 5 anos e Lara de 4 anos.


Sempre gostou de música e aprendeu a tocar, mal, violão (risos) na adolescência. Se aventurou como pagodeiro também por aí. Seu pai sempre comprava os discos de samba enredo, aliás era assim, antigamente, em qualquer casa de subúrbio. Nossas músicas de festa e finais de semana eram os sambas enredo.


Mas foi numa participação do grupo Fundo de Quintal ao vivo numa rádio que ouvia que o despertou a paixão pelo samba e o samba é o seguinte: “cada vez que você escuta, aprende e conhece mais, mais você se apaixona. Deve ser por que fala nossa linguagem, fala da nossa realidade, acho que uma questão de identidade sei lá”, cita Renan.


"Quando ainda eu era criança ia na quadra da Viradouro tratar dos dentes e brincar é claro" (risos). Foi aí que começou sua relação com a escola e de lá pra cá virou um caso de amor que divide seu coração com o Vasco.


Convidado por integrantes da Banda Batistão, onde também aprendeu e aprende muito, colocou seu primeiro samba na escola. Sem nenhuma experiência em compor sambas enredo, o samba logo foi cortado – eliminados da competição de concurso público de samba enredos, e é bom lembrar que naquele ano mais de 30 sambas foram cortados logo no início, e dali pra frente virou uma cachaça.


Foi somente no ano de 2006 e no de 2020 que ficaram fora da final. "Depois daquele corte fomos procurando aprender a cada samba", diz Renan.


“Sempre tivemos muita sorte de ter bons parceiros que viraram amigos e professores. PC Portugal, além, é claro, do meu irmão Rodrigo, talvez tenha sido o mais constante em todos esses anos, acabou virando um grande amigo. Além de uma infinidade de outros parceiros, alguns até éramos seus admiradores como compositores e viraram nossos parceiros. Entre eles Heraldo Faria e Flavinho Machado, o Jeferson Lima, outros da mesma geração que a gente: o Diego Moura, Rafael Raçudo, Johara. É muita gente boa”! Lembra Renan.


“E como diria um saudoso professor que eu tive na UERJ o Andrelino Campos: Nós somos a soma das pessoas que passaram pela nossa vida”, reflete.


A sua primeira Vitória numa disputa de samba veio no Teatro Rival para o Bloco das Carmelitas de Santa Tereza e, no GRES Viradouro, a primeira Vitória veio em 2011, e dali em diante foram mais 3 totalizando 4 Vitórias na Viradouro (2011,2012,2017 e 2019), além de vitórias na Porto da Pedra e outras escola de Niterói e do Rio.


Veja o samba de 2012:


Veja o ensaio técnico com o samba de 2017.


Veja o samba de 2019:


Cita que a parceria de samba enredo do ano de 2019 virou uma família e em breve terá outras novas vitórias com todos juntos, profetiza o Renan.


“Nessa caminhada sempre tive o apoio da minha família, meus pais e minha esposa que me acompanham aonde eu for, vestem a camisa mesmo e isso é muito importante para um compositor, já que é uma atividade muito difícil e desprestigiada hoje”, relata Renan.


“Queria, antes que a gente termine, ressaltar a importância de uma escola de samba”, alerta o entrevistado.


Hoje algumas escolas de samba deixaram de ser referência nas suas comunidades, e o samba deixou de ser a música que escuta a juventude. Mas sempre foi um caminho pra vencer uma série de problemas que temos nas periferias.


"Olha, quantos jovens, o samba e as escolas de samba, salvaram de uma morte precoce na violência a qual somos expostos nas comunidades?”. E como cantou Bezerra da Silva “Se não fosse o samba hoje em dia seria do bicho”, em alusão ao demônio, diabo, à marginalidade.


“A Viradouro me fez compositor, sambista. Através das disputas de samba conheci pessoas, aprendi muita coisa e vivo aprendendo, fiz amizades que são pra sempre. Aliás vale lembrar que é nas disputas de samba que aquele senhor da comunidade se sente importante e é. É durante a disputa que ele coloca sua calça branca seu sapato branco e se transforma no artista da sua rua, da sua comunidade, não parece não, mas olha a quanto isso é importante pra alguém que sofre o ano inteiro, nos ônibus lotados, no trabalho precário, na fila dos hospitais”, declara o Renan.


Renan alerta que toda vez que uma escola de samba com uma ala de compositores constituída encomenda um samba ele apaga um pouco sua história e certamente enfraquece o seu futuro. Foram as disputas de samba que mostraram para o mundo tantos compositores, tanta gente boa.


“O compositor precisa ser valorizado, e serem levados em conta os problemas financeiros da maioria deles, essa brincadeira ficou muito cara”, faz outro alerta sobre os andamentos atuais das disputas de sambas enredo, quando elas existem.


Temos visto novos modelos de disputa que talvez seja um caminho, tomara!


Um jovem, preocupado com as questões sócio-políticas que influenciam até mesmo o Mundo do Samba, que se passa desapercebida para muitos e com omissão para outros. Esse é o Renan Gêmeo.

Oswaldo Mendes é engenheiro.





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