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'Reprodução': os vícios da contemporaneidade em Bernardo Carvalho

Por Erick Bernardes

O romance Reprodução (2012), de Bernardo Carvalho, vencedor do 56º Prêmio Jabuti, apresenta-se muitíssimo atual, pois tem, como eixo temático, a falta de criatividade comunicativa de um estudante usuário assíduo de internet. O enredo põe em xeque uma possível superficialidade de leituras de textos publicados pelas mídias digitais, sob a conduta de um protagonista leitor de blogs, websites, exemplo de interlocutor globalizado, ávido por informação proveniente de fontes duvidosas. As explicações da orelha e da quarta capa do livro prenunciam um narrador-protagonista preconceituoso e mau caráter na figura do estudante “reacionário e racista “vive entre a realidade e a paranoia” (CARVALHO, 2013).

Em contrapartida, o leitor atento perceberá, pela voz da agente feminina, uma espécie de “acusação” ou denúncia, revelando que a propaganda paratextual baseada no anunciado “mau-caratismo” do seu protagonista, em nada tem de compatível com a história propriamente dita - o internauta configuraria mais uma vítima do que algoz dos absurdos refletidos no texto. Conforme prenuncia o narrador onisciente em um dos seus poucos momentos no texto: “O estudante não sabe o que dizer” (CARVALHO, 2013, p. 14). Seria essa estratégia de composição textual um artifício linguístico de denúncia com relação da falta de percepções mais críticas acerca da obra, ou, talvez, de leituras consideradas superficiais? Curiosamente, a própria personagem feminina pergunta ao delegado, colega de profissão: “Então? Não foi o que te disseram? Também não li. Também não sei se existe. Me disseram” (CARVALHO, 2013, p. 68). Se a narrativa em um primeiro momento parece simples, subliminarmente a voz da enunciadora engendrará uma provocação metalinguística àquele que busca, nas entrelinhas da obra, índices ideológicos de posicionamento político ou atuação intelectual:

Ademais, Reprodução (2013), de Bernardo Carvalho, problematiza o papel e a importância da internet. O protagonista é um internauta estudante, leitor de websites e criador de um blog: “Eu sempre escrevo pra seção de cartas do leitor. Eu também tenho um blog. Estou no Facebook. Tenho muita opinião. E seguidores. O endereço é fácil. Tenho milhares de amigos e seguidores” (CARVALHO, 2013, p. 33). Há insistência na linguagem verborrágica e na estrutura formal do romance, visto que o livro é composto majoritariamente por um discurso, por vezes, ausente de parágrafos e monológico, marcado por inferências vocabulares de alienação cultural, consequentes aos efeitos excessivos da informação digital. Além de dispor de um sugestivo exagero de exclamações e interrogações aparentemente desconexos, mas que, apesar de dirigir-se ao delegado interrogador, nos proporcionará um viés irônico, como se dialogasse consigo mesmo corrosivamente.


Isso quer dizer que, em plena turbulência de aceleração cultural, supervalorização da imagem e dos bens de consumo, o romance Reprodução (2013) dialoga com os possíveis impactos proporcionados pelas novos serviços de tecnologias de informação: Facebook, websites, whatsApp, dentre outros suportes digitais de comunicação. Esses elementos “realísticos” conferem à narrativa de Carvalho um diálogo com questões acerca transformações que o mundo contemporâneo vem sofrido (entretenimentos eletrônicos, instantaneidade das informações, disponibilidade maior de conhecimento), caindo portanto no gosto do público leitor e dos próprios especialistas em literatura.


Se por um lado, o livro Reprodução se caracteriza pela pormenorização dos sinais de pontuação, pouquíssima incidência de parágrafos, repetição de palavras, dentre outras evidências de artifício discursivo, por outro lado, essa manobra estética, focada na estrutura, reflete no significado do enredo a capacidade que o escritor possui de transitar pelos assuntos característicos do mundo globalizado e seus espaços cibernéticos. Aponta-se, assim, na trama, possíveis problemas de comunicação do estudante internauta, em que avultam as perguntas: a tecnologia de aporte digital condiciona ou emancipa intelectualmente? Qual é o impacto que a rapidez da informação da cibercultura tem causado na sociedade e seus efeitos com relação à produção de conhecimento? São questionamentos os quais nos permitem compreender que Bernardo Carvalho põe em discussão uma possível “superficialidade” acerca da formação intelectual contemporânea, explicitada pela fala do protagonista anti-herói.


Essa falta de domínio da palavra, característica do personagem central, revela-se em peculiar manutenção temática, a saber, o caos causado pelos excessos de dados da era digital. Enfim, alguém que reproduz o discurso da mídia massificante - enquanto dispositivo de controle em meio tecnossocial - e põe o próprio tema da narrativa em discussão, para o bom proveito da crítica literária e dos leitores da obra de Bernardo Carvalho, que buscam o “tal” embasamento real.


Referências: CARVALHO, Bernardo. Reprodução. Rio de Janeiro: Record, 2013

A versão original deste texto está em: https://revistas.pucsp.br/kaliope/article/view/29884


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