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São Gonçalo afundaria sem as redes de ajuda, por Mário Lima Jr.


Cestas montadas pelo Fórum SG para distribuição/Foto: Aloma Dias

São Gonçalo tem mais riqueza humana, cultural e até política do que pode imaginar o próprio gonçalense. Mas infelizmente ainda faltam políticas públicas para livrar centenas de milhares de crianças, jovens e adultos de uma vida de sofrimento causado pela pobreza e pela violência. Agora imagine uma cidade assim, onde parlamentares que deveriam legislar em benefício desse povo sofrido reclamam que estão recebendo pouca propina, o “leitinho”, e socam companheiros de trabalho no local onde as leis deveriam ser discutidas, enfrentando uma pandemia mortal que por enquanto só pode ser combatida com isolamento social e consequente redução da atividade econômica, já deficiente. É um passo rumo ao desespero que só pode ser interrompido pelo próprio povo gonçalense.


Com crise ou sem crise, e parece que o mundo vive uma crise que nunca acaba, só muda de nome, não há bairro que explique melhor São Gonçalo do que Alcântara. Alcântara tem gente, abandono político, sujeira, má iluminação, buraco e esgoto. Para conhecer a situação da cidade diante da pandemia do novo coronavírus, tanto do ponto de vista governamental quanto popular, não saia de casa, não vá ao Alcântara, continue lendo o artigo.


O coronavírus é transmitido por gotículas respiratórias e pelo contato entre pessoas. É natural que medidas de isolamento social sejam adotadas, é a única forma de não pegar essa doença que pode matar, independentemente da sua idade e de doenças preexistentes. Seguindo a razão, com o intuito de evitar aglomerações, o governo municipal suspendeu o comércio de rua, um dos pilares da economia municipal, e o funcionamento de diversos tipos de estabelecimentos. O que não é racional é o chefe de família, mulher ou homem, vendedor ambulante, não poder garantir o pão para os seus filhos enquanto grupos bilionários como Carrefour e Pão de Açúcar continuam lucrando.


Pequenos comerciantes legalizados também foram afetados. Aquelas bonitas barracas padronizadas ao lado do hipermercado Extra estão fechadas e isoladas pelo poder público. Elas costumam exibir frutas, legumes e verduras mais frescos e baratos do que aqueles vendidos dentro do mercado. No momento mostram um vazio triste envolto em faixas de isolamento, de listras amarelas e pretas. O comerciante deixa de vender e o gonçalense deixou de comprar um bom produto. Nenhum apoio foi oferecido a quem perdeu sua forma de sustento.


Há camelôs que se arriscam numa ilegalidade maior do que a de costume. Improvisam bancadas rápidas de serem recolhidas em caso de fiscalização e vendem para muitos gonçalenses que não estão respeitando a orientação de ficar em casa. Uma parte usa máscara, luvas inclusive. A verdade é que o morador da cidade não sabe ao certo o que pensar e fazer sobre a crise. Só desejam sobreviver, embora expostos ao vírus e, no caso dos camelôs embaixo do viaduto de Alcântara, vendendo máscaras extremamente finas, fora do padrão estabelecido pelo Ministério da Saúde.


Com a velocidade que a crise merece, pessoas comuns, de diversos bairros de São Gonçalo, iniciaram campanhas de arrecadação de cestas básicas para famílias em dificuldades financeiras. Primeiro arrecadando entre vizinhos, depois nas redes sociais. Indivíduos sem qualquer ligação com instituições sociais ou movimentos políticos, gente que nunca tinha ajudado ninguém percebeu que precisava agir e isso tem feito a diferença no município.


Coletivos sociais e grupos mais organizados também se juntaram à causa, cuja missão básica é levar comida a quem não tem. Dependendo do bairro onde você more, caso precise de ajuda urgente, entre em contato com a associação de moradores, ação comunitária ou instituição religiosa mais próxima. Alguns exemplos são o grupo Por Gentileza, em Itaoca, a Comunidade Viva, de Neves, e a organização comunitária Nós por Nós, do Jardim Catarina. É suficiente? Os grupos dizem que não. A dinâmica da crise é bastante complexa, inclusive os casos de violência doméstica têm aumentado. Mas o povo gonçalense dá diversas provas de que está à altura de combater mais essa dificuldade.


Mário Lima Jr. é escritor.

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