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São Gonçalo como objeto de colecionismo: Bebidas, por Rui A. Fernandes

O colecionismo de bebidas é amplo, abrangendo muitos itens colecionáveis, não se restringindo ao líquido e aos seus recipientes de armazenamento. Todos os itens que vinculem a marca, o logotipo ou que tenha relação com uma fábrica de bebidas entram no âmbito de interesses destes colecionadores. Podem ser tampinhas metálicas, tampinhas plásticas, abridores de garrafas, rótulos, garrafas e latas vazias ou cheias, barris, tampas de barris, torneiras de chope, bolachas, bandejas, copos, taças, canecos, coolers, geladeiras, freezers, mesas, cadeiras, bonés, camisetas, aventais, porta-garrafas, porta latas, guarda-sóis de praia, cartazes, cartazetes, banners, displays, placas luminosas etc. O colecionador pode ser especializado por um tipo de bebida, por um tema, lugar, evento ou período. Dependendo do local que dispõe, pode ter uma coleção mais ou menos diversificada e de itens de maior ou menor volume.


Quando se fala de colecionismo de bebida, imediatamente nos vem à memória a imagem de uma adega ou de um “bar” doméstico. No entanto, devemos lembrar que ele não se restringe às bebidas alcóolicas, incluindo refrigerantes, sucos, água e até o leite.


Não é de hoje que o gonçalense gosta da “mardita”. Na verdade, a relação de São Gonçalo com a purinha vem de longa data, remontando ao início do processo de colonização e o estabelecimento dos primeiros engenhos e fazendas produtoras de açúcar. No século XVII, proprietários de engenhos da então freguesia de São Gonçalo lideraram um motim que entrou para a história como Revolta da Cachaça. Entre novembro de 1660 e abril de 1661, os revoltosos tomaram o governo da cidade do Rio de Janeiro, derrubaram um governador colonial – ninguém menos que Salvador Correia de Sá e Benevides – depois foram presos, e seu líder – Jerônimo Barbalho Bezerra – decapitado. Seus pleitos, no entanto, foram atendidos por El Rey de Portugal, que removeu Salvador Correia de Sá do governo da capitania e reviu seus atos administrativos. Entre suas motivações, estava a proibição, imposta pelo governador, da produção e do consumo da cachaça com vistas à difusão da venda do vinho português. Para os proprietários de engenho da capitania do Rio de Janeiro, a produção da cachaça era fundamental. O açúcar fluminense tinha uma qualidade inferior ao do nordeste brasileiro e a cachaça proporcionava ganhos complementares importante. A proibição da produção e do consumo da cachaça retirava uma fonte de renda e obrigava a gastos inexistentes anteriormente.


A produção de cachaça se manteve como uma constante na história gonçalense. Seguindo pelo século XX, proporcionando aos colecionadores exemplares do apreciado líquido, como a Peru, ou rótulos de marcas como a Velho Colono e a Mercedes, que mantêm a memória destas extintas marcas.


Bebida nacional por sua origem e produção, a cachaça vem sendo reconhecida como patrimônio imaterial brasileiro. O Estado do Rio de Janeiro, através da lei 6291, de 06/07/2012, a reconheceu como patrimônio histórico cultural fluminense. Mais recentemente, um de seus derivados, a caipirinha, foi reconhecido como patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro, através da lei 8576, de 24/10/2019.


No entanto o colecionismo de bebidas alcóolicas não se restringe à cachaça. Duas empresas marcaram a história de São Gonçalo deixando um acervo disputado de itens colecionáveis. A Usina São Gonçalo, ao que tudo indica, foi fundada em 1914 e existiu até o início da década de 1920. Foi uma indústria de bebidas (licores e vinhos) e doces. Em 1915, após ser adquirida pelo comendador Gregório Garcia Seabra, lançou um edital para confecção de cartazes publicitários que marcou época. Os premiados estamparam páginas de periódicos da capital da República, como a Revista da Semana.


Por quase trinta anos a Fábrica Ron Menino compôs o parque industrial local. Criada em 1946, foi considerada, pelo jornal Correio da Manhã, em 1957, uma das maiores e mais modernas destilarias de rum da América do Sul. Encerrou as atividades em 1974 adquirida pela Cinzano, de São Paulo. Ainda são encontrados alguns poucos exemplares do rum vendidos na internet.


O campo cervejeiro também se fez/faz presente na cidade, não estabelecendo aí, polos industriais, mas apenas centros de distribuição. É possível que existam, no entanto, cervejas artesanais comercializadas pelos próprios fabricantes e distribuídas para amigos ou para comércios especializados.


Mas não foi apenas no universo das bebidas alcóolicas que São Gonçalo contou com empreendimentos produtivos. Em artigo anterior, já citamos a Indústria de Bebidas Reflexa, responsável pela produção dos refrigerantes Mineirinho e Flexa. O refrigerante Mineirinho foi criado pelo químico Eugênio Auvray, na década de 1940. Sua primeira fábrica foi instalada em Ubá, Minas Gerais. Em 1946, transferiu a produção para Niterói e, em 1978, fixou seu parque industrial em São Gonçalo. É considerado um símbolo cultural fluminense. No caso dos refrigerantes mineirinhos, existe um amplo conjunto de itens colecionáveis: garrafas, tampas de garrafa, engradados, placas, abridores, copos, chaveiros.


No campo das águas minerais, duas fontes marcaram época e a paisagem local originando, inclusive, um dos bairros locais.


A Água Mineral São Gonçalo começou a ser industrializada e distribuída em Niterói e São Gonçalo, em 09/07/1930. A fonte, localizada no Rocha, já era conhecida no século XIX. Foi adquirida em 1929 por Pedro Rodrigues Pinto que propagandeou suas qualidades levando dirigentes estaduais, associações civis e religiosas e pessoas de destaque ao local. Empreendedor, projetou no local uma Estância hidromineral, tendo sido criada, inclusive uma linha de ônibus ligando o local à capital fluminense. Apesar da grande propaganda, o negócio não prosperou como ele desejava e foi interrompido em 1940. Em 03/09/1940 foi vendida a Adolpho Dourado Lopes e Domingos Oliveira da Silva que, atendendo às novas exigências do governo federal, retomaram a produção em abril de 1942. A partir da década de 1950, começou a sofrer com a concorrência de produtos de outros estados, vendidos a preços mais baixos. Na década de 1960, foi vendida a Jair da Silva Pessoa, o Didico, empresário do setor de transportes coletivos, que não conseguiu salvá-la de sua decadência encerrando a produção.


A fonte de Itaitindiba já era conhecida no século XVII, quando a fazenda do mesmo nome foi construída. Ao longo do século XIX a Fazenda Itaitindiba era propriedade da família Alvarenga. O comendador José Joaquim Ferreira de Alvarenga, que (em 1890) foi o primeiro chefe do executivo do município então criado, recebia amigos e colaboradores para temporadas de descanso especialmente por possuir uma fonte de água considerada milagrosa. Em 1896 vendeu a fazenda para o padre Manoel Joaquim Henriques de Azevedo Farias, que, em 1910, passou a seus filhos como herança por sua morte: Américo, Manoel e Alice. Em 1920 a fazenda passou a Laura Soares de Farias, viúva de Américo. Em julho de 1921, a proprietária anunciou a descoberta da fonte e o local virou cenário de romarias de pessoas em busca da cura de suas doenças. A exploração comercial da água mineral só foi feita após concessão do governo federal, datada de 04/12/1947. Surgia então a indústria Águas de Itaitindiba Limitada e a água Ithay que foi vendida até ao falecimento de Laura Soares, ocorrido no final da década de 1950.


No âmbito ainda das bebidas, cabe ainda menção à produção de leite. Em 1946 foi fundada, no Colubandê a Cooperativa Central de Produtores de Leite (CCPL). Iniciativa que visava incentivar esse ramo industrial no estado do Rio de Janeiro. Foi pioneira na fabricação de leite “longa vida” e iogurtes. No mesmo período foi estabelecida uma fábrica da Cooperativa, em Benfica, no Rio de Janeiro. Na década de 1990 a empresa enfrentava dificuldades encerrando as atividades em 2002. No seu espaço foi instalada a escola estadual NATA. Entre os itens de colecionismo vinculados à CCPL, merecem destaque as garrafas de leite, itens muito procurados para decoração de restaurantes e cozinhas.


Bibliografia:

BOXER, Charles R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola. 1602-1686. São Paulo Companhia Editora Nacional/Edusp, 1973.

CAETANO, Antônio Filipe Pereira. Entre a sombra e o sol. A Revolta da Cachaça e a crise política fluminense. Rio de Janeiro, 1640-1667. Maceió: Q-Gráfica, 2009.

COUTINHO, Carlos Alberto Tavares. Colecionismo cervejeiro no Brasil. 06/06/2019. Fonte: https://guiadacervejabr.com/espaco-aberto-colecionismo-cervejeiro/ Acessado em 25/09/2020

NUNES, Jorge César Pereira. As águas milagrosas. In: _____. Crônicas históricas gonçalenses I. Cabo Frio: Visão Editora, 2015.

ROCHA, Daniella Guedes. Da favela ao conjunto. A trajetória da CCPL entre o abandono, a remoção e a urbanização. Tese de Doutorado apresentada ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC. Rio de Janeiro, 2016.


Fotos:

AGUARDENTE DE CANA PERU. Engarrafada por Indústrias de Bebidas Mara Ltda. S/d. Fonte: https://www.paulaoantiguidades.com.br/peca.asp?ID=3234351 Acessado em 25/09/2020


Rótulo da Aguardente de Cana Velho Colono. Engarrafada por Indústrias Reunidas de Bebidas e Plásticos Wainer Ltda. S/d. Acervo Pessoal


Rótulo da Paratí de Cana Mercedes. Engarrafada por Distribuidora de Águas e Bebidas Ltda. Acervo Pessoal


Cartazete das Usinas São Gonçalo. S/d. Acervo Pessoal


Cartazete das Usinas São Gonçalo. S/d. Acervo Pessoal


Garrafa de Ron Merino. 1946. Fonte: https://www.minibottlelibrary.com/mbl/alpha/zz-other-brazil/index.php Acessado em 25/09/2020


Garrafas de refrigerante Mineirinho. Vários Momentos. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/338051515771710017/ Acessado em 26/09/2020


Engradado de refrigerante Mineirinho. S/d. Fonte: https://mozartleiloeiro.com.br Acessado em 26/09/2020


Abridor de garrafas. Mineirinho. s/d. Fonte: http://souantigoevoce.blogspot.com/2013/10/alguem-lembra-do-refri-mineirinho.html Acessado em 26/09/2020


Rótulos da Água São Gonçalo. S/d. Acervo Pessoal (Cedidos por Jorge Nunes)


Rótulo da Água Mineral ITHAY. S/d. Acervo Pessoal (Cedidos por Jorge Nunes)


Garrafa de leite CCPL. Entre a década de 1970 e 1980. Acervo Pessoal


Garrafa de leite CCPL. Entre a década de 1970 e 1980. Acervo Pessoal


Chaveiro representando uma caixa de leite “longa vida” da CCPL. Década de 1980. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/396105729724116882/ Acesso em 26/09/2020.



Rui Aniceto Fernandes é professor de História do Departamento de Ciências Humanas (DCH) da Faculdade de Formação de Professores (FFP-UERJ).




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