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São Gonçalo como objeto de colecionismo: Cartofilia, por Rui A. Fernandes


Cartões postais com temas gonçalenses/Imagem: arquivo Rui Aniceto Fernandes

O cartão-postal também é chamado de bilhete postal ou postal. É uma simplificação da carta. Trata-se de um pequeno retângulo de papelão fino feito para circular pelo Correio sem envelope. Uma de suas faces é destinada ao endereço do destinatário, afixação de selo e mensagem do remetente. Na outra face, consta uma imagem que pode representar os temas mais diversos. O postal surge como uma opção mais barata do que a carta, além de tornar a correspondência mais fácil e ágil.


Existem algumas versões que explicam o seu surgimento. Há registros que, em 18/12/1862, H. L Lipman e J. P Charlton patentearam, nos EUA, o “Lipman’s Postal Card”. Apesar da patente, só existem exemplares deste cartão-postal no início da década seguinte. Uma outra narrativa credita a Heinrich Von Stephan a iniciativa. O então diretor dos Correios da Confederação da Alemanha do Norte teria apresentado a proposta dos postais na Conferência Postal Germano-austríaca, em 1865. A terceira versão informa que Emmanuel Hermann, professor de Economia Política da Academia Militar Wiener Neustadt, no Império Austro-Húngaro, propôs a adoção dos cartões-postais como estratégia de baratear o custo da correspondência com a supressão do envelope. Essa proposição teria sido publicada no Die Neue Freie Presse, em 29/01/1869. O diretor da administração dos Correios austríacos aceitou a ideia e, oito meses depois, 01/10/1869, lançou o Korrespondenz Karte, um cartão, de 8,5 cm por 12 cm, creme com escritos em preto, que já tinha impresso um selo de dois neukreuzer. Esse modelo barateava o custo do envio em cerca de cinquenta por cento do valor da correspondência convencional. Este modelo do cartão austro-húngaro – um cartão com texto e selo – ficou conhecido como inteiro postal e é considerado o primeiro cartão-postal da história. A produção e comercialização desses primeiros postais eram monopólio estatal.


O Brasil não demorou a adotar o sistema de postais. Em 28/04/1880 o decreto nº 7695 instituiu seu uso no país. A proposta partiu do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. O ministro, conselheiro Manuel Buarque de Macedo, defendia que o imperador realizasse algumas alterações no sistema postal brasileiro “a primeira de tais alterações é a que estabelece o uso dos bilhetes-postais geralmente admitidos nos outros Estados e ainda em França, onde aliás houve durante algum tempo certa repugnância ou hesitação em os receber; os bilhetes-postais são de intuitiva utilidade para a correspondência particular, e, longe de restringir o número de cartas, como poderá parecer, verifica-se, ao contrário que um dos seus efeitos é aumentá-lo”.


Os primeiros bilhetes postais brasileiros traziam as armas imperiais na parte superior direita e as cores da impressão serviam para categorizá-lo: vermelho para correspondência urbana com resposta já paga, azul para o interior das províncias e laranja para correspondência internacional para os países da União Postal Universal. O sucesso foi imediato. Quatro anos depois da implantação, em 1884, circularam 212.662 bilhetes postais e 282.248 cartas.

Seguindo uma tendência internacional, em 1889, uma das últimas leis sancionadas por Dom Pedro II, foi autorizada a produção de postais por empresas privadas. A produção e comercialização só poderia ser feita depois de selados no valor do porte fixado pelo governo. Nesse período, apesar da autorização para a produção nacional, o que se destacou foi a importação de itens europeus.

As imagens foram integradas ao postal a partir de 1891, quando foram lançados alguns alusivos à Exposição Universal de Paris. Nesses exemplares as imagens ainda não cobriam toda a face do cartão. As ilustrações eram feitas e aplicadas praticamente de forma artesanal, com o dispêndio de grande tempo na produção e pequenas tiragens, tornando-os mais caros.

A inserção das imagens rapidamente tornou esse item em um objeto colecionável em toda a parte, surgindo a cartofilia. No Brasil, em princípios do século XX, lojas da capital federal vendiam caixas e álbuns para acondicioná-los e os ofertavam como brindes. Em um momento que a fotografia ainda era restrita e as revistas ilustradas não tinham coloração, os cartões postais possibilitava a circulação ágil de um universo imagético diverso. Boris Kossoy afirma que “um mundo portátil, fartamente ilustrado, passível de ser colecionado, constituído de uma sucessão infindável de temas vem finalmente saciar o imaginário popular”. Em 1904, no Rio de Janeiro foi fundada a Sociedade Cartophilia Internacional Emmanuel Hermann que passou a editar a revista mensal A Cartophilia,visando criar uma comunidade colecionadora facilitando trocas de itens e de informações sobre os cartões.


Os primeiros cartões postais brasileiros que representaram paisagens foram produzidos na Alemanha, com fotografias de Albert Aust, e registraram capitais com Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Curitiba e Belém do Pará, em 1897. Ainda hoje os colecionadores nacionais têm maior interesse em cartões de paisagens, diferente dos colecionadores de outros países. Isso ocorre pela inconstância arquitetônica no Brasil. Em nome da modernidade as reformas urbanas e a adoção de novos estilos arquitetônicos levaram a modificações em casas, prédios, logradouros em geral. Os cartões postais tornam-se importantes registros de paisagens em constante transformação.


Os mais antigos postais a registrarem aspectos ligados a São Gonçalo estão relacionados à Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores. O primeiro é um desenho representando um barco, tendo hasteada a bandeira da Imigração, ancorado ao lado do cais de recepção dos imigrantes, sem referência à data. O segundo trata-se de uma fotografia que registra o prédio administrativo da Hospedaria ainda sem o segundo pavimento. O segundo pavimento foi construído no final da década de 1940, assim o postal deve ser de finais da década de 1930 ou da primeira metade da década seguinte.


Os espaços centrais, prédios públicos e construções históricas começaram a ser registradas em postais nos anos 1960. Desse período localizamos um cartão-postal impresso nas oficinas da revista “A Gaivota”, que veicula a imagem do Fórum. De 1968 é um outro exemplar, registrando o complexo hospitalar da cidade, produzido pela Prefeitura para distribuição durante o Concurso de Miss estado do Rio de Janeiro.


Dos anos 1970 é o conjunto de postais mais conhecido. Produzido pela Gráfica Piccoli S. A., de São Paulo, com comercialização exclusiva da Papelaria e Livraria São Gonçalo. São imagens da Praça dos Ex-combatentes da II Guerra Mundial, do Fórum Municipal, do Complexo Hospitalar, da Prefeitura Municipal, da Praça Carlos Gianelli, da Praça Luiz Palmier e da Praça Estephânia de Carvalho.


Na década seguinte, editados pela Ambrosiana Cia Gráfica e Editorial, de São Paulo, localizamos um postal registrando a Fazenda Colubandê e uma vista noturna da Praça Carlos Gianelli.


No final do segundo milênio foi lançado um conjunto de seis postais pela empresa de SMS Porciúncula Projetos Gráficos. Consta que esse conjunto teve o apoio da Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Educação e Cultura. Em cinco desses postais consta que as fotografias eram de Cid Reis. O interessante é que nesse conjunto passam a ser inseridas elementos da paisagem natural e da cultura imaterial local. São registrados: pedras da enseada de Itaoca, o manguezal, o Fórum, a Fazenda Colubandê, a Capela de Nossa senhora da Luz. Neste consta o slogan “São Gonçalo Cidade novamente”. O último postal veicula o carro abre alas do GRES Unidos do Porto da Pedra. Este último conta com o slogan “São Gonçalo 107 anos. Arte e Cidadania”.


Dos anos 2000 ou 2010, temos um cartão que registra a Igreja Matriz de São Gonçalo e que foi produzido por Rodolpho Machado Produções Fotográficas.


O último conjunto de cartões postais identificados teve circulação restrita e trata-se da série “Memórias em Postais”. É um conjunto de seis postais que estampam os cartazes de divulgação de seis edições do seminário “Vozes da Educação” (2001-2016) realizados pelo Grupo de Pesquisa Vozes da Educação do Departamento de Educação da Faculdade de Formação de Professores, campus da UERJ em São Gonçalo. Foi lançado para celebração dos 20 anos de atividades do referido Grupo de Pesquisa, em 2016.


É possível que existam outros. Continuemos as buscas!


Imagens:

Cartão 01: Cais de desembarque na Hospedaria da Ilha das Flores. S/d. Coleção Marilene Martins de Almeida. Acervo CMIIF/UERJ


Cartão 02: Vista do Fórum. A Gaivota. S/d. Acervo Pessoal.


Cartão 03: Conjunto Municipal de Saúde. Sandra. 1968. Acervo Pessoal.


Cartão 04: Fonte Sonora e Luminosa. Praça Estephânia de Carvalho. Gráfica Piccoli S. A. Papelaria e Livraria São Gonçalo. Acervo Pessoal.


Cartão 05: Pedras da Enseada de Itaoca. Cid Reis. S/d. Acervo Pessoal.


Cartão 06: Memórias em postais. Vozes da Educação 20 anos. I Seminário Vozes da Educação. 04/05 de julho de 2001. Acervo Pessoal.


Bibliografia:

BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Introdução. In: BERGER, Paulo. O Rio de ontem no cartão postal. 1900-1930. Rio de Janerio: Rio Arte, 1986.

GOMES, Clarissa Ramos. Postais para ver. Cartofilia no Brasil na primeira metade do século XX na Coleção Estella Bustamente. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense, 2018.

KOSSOY, Boris. Realidade e ficções na trama fotográfica. São Paulo: Plínio Martins Filhos, 2002.


Rui Aniceto Fernandes é professor de História do Departamento de Ciências Humanas (DCH) da Faculdade de Formação de Professores (FFP-UERJ).




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