Buscar

São Gonçalo como objeto de colecionismo: Louça, por Rui A. Fernandes


Caneca do 2º Festival Gonçalense de Refrigerante. 1974. Acervo de Isabel Clara

Algo tão corriqueiro no nosso cotidiano, a louça também é um objeto de colecionismo.

Segundo um conceituado dicionário, louça significa produtos e/ou objetos feitos em cerâmica, barro ou porcelana utilizado para servir refeições. Rafael Bluteau, no século XVIII, consagrava o termo associado a “vasos da adega, vasos da cozinha, frasca, vasos do serviço da mesa, e se diz dos de barro grosseiro, ou da china”. Sobre esse amplo espectro, englobam-se vários utensílios: pratos rasos, de sopa, de sobremesa, pires, travessas, terrinas, sopeiras, saladeiras, cubas, copos, cálices, taças, xícaras, canecas etc. Cerâmica, barro e porcelana não são os materiais exclusivos utilizados na produção desses objetos. Cristais, vidro, metais e plásticos também são usuais, estes últimos, especialmente nos nossos dias.

Os objetos destinados a servir alimentos existem desde a Antiguidade. No entanto, ao longo do tempo, foram usados como elementos de distinção social. Os primeiros pratos, por exemplo, fabricados em estanho, prata ou ouro eram destinados aos nobres e reis. Ao povo cabia utilizar as rústicas caçarolas de cerâmica ou barro para comer. As utilizações da faiança e da porcelana sofisticaram esses utensílios sendo difundidos, na França, no reinado de Luís XV.


Um dos ramos de colecionismo ligados à louça é ao da louça brasonada. Carlos Wehrs, a quem tributo a inspiração para essa série sobre colecionismo, dedicou-se a levantar a louça brasonada da nobreza niteroiense do século XIX, buscando o registro de paisagens da cidade nos anagramas da fidalguia. Não obteve sucesso, mas relacionou os titulares da nobiliarquia, que residiam no município e que compuseram serviços de refeição com seus brasões ou monogramas. Entre estes, afirma existir, em coleções privadas, peças dos conjuntos do Visconde de Beuarepaire-Rohan, do Barão de São Gonçalo e do Visconde de Sepetiba, nobres que residiram nas freguesias que foram desmembradas de Niterói para constituir o município de São Gonçalo, em 1890. Em 28/03/2014, foi apregoada por uma famosa casa leiloeira do Rio de Janeiro, um cálice em cristal, que teria sido parte do acervo de Belarmino Ricardo de Siqueira, o Barão de São Gonçalo. Sua descrição afirmava ter sido produzido no ateliê dos Irmãos Sieber. Teria “corpo facetado e floristado, interrompido com monograma "SG" sob coroa de 7 pontas”.


Muitas casas de pastos, como eram chamados os restaurantes no século XIX e ainda no princípio do XX, passaram a gravar também o nome do seu estabelecimento nos seus serviços de refeição.


Além do prosaico uso de servir os alimentos, muitos desses utensílios passaram a estampar marcas publicitárias de empresas locais, registrar eventos ou instituições locais.


Nos dois primeiros casos, localizamos dois objetos que veicularam a marca do refrigerante Mineirinho. O primeiro, trata-se de um copo, da década de 1960, de 9,3 cm de altura X 7 cm de diâmetro, que possui a gravação Beba Mineirinho, na tradicional elipse da marca. Copo promocional, provavelmente, era distribuído pela empresa em bares como estratégia de divulgação da marca. O segundo, trata-se de uma caneca do 2º Festival Gonçalense de Refrigerantes ocorrido em 1974. Essas canecas nos são familiares, mas associadas a eventos de cerveja! Além da marca do refrigerante presente em sua alça, há ainda o registro de mais um patrocinador do evento: Associação de Poupança e Empréstimo Flumen. O refrigerante Mineirinho foi criado pelo químico Eugênio Auvray, na década de 1940. Sua primeira fábrica foi instalada em Ubá, Minas Gerais. Em 1946, transferiu a produção para Niterói e, em 1978, fixou seu parque industrial em São Gonçalo. É considerado um símbolo cultural fluminense.


No caso do registro das instituições locais existe um prato que traz a fachada do 3º Regimento de Infantaria. Tratava-se de uma unidade do exército brasileiro que atuou na II Guerra Mundial e ficava sediada em Venda da Cruz. Posteriormente teve sua denominação alterada para 3º Batalhão de Infantaria e, em 2007, foi transferido para a cidade de Barcelos, no Amazonas. Este prato foi produzido pela Companhia Brasileira de Vidros Porcelana Barão do Rio Branco, empresa especializada na produção de objetos de porcelana que existiu, entre 1947 e 1967, na cidade do Rio de Janeiro. Não conseguimos informações, se esse prato compunha um aparelho/serviço de jantar ou de café ou se foi confeccionado como elemento comemorativo e decorativo.


Objetos de distinção social, veículos de propaganda comercial, celebrativos ou decorativos, a louça não serve/serviu apenas de utensílio de apoio a uma de nossas principais necessidades: a alimentação. A história dos objetos nos permite pensar então nas apropriações e ressignificações das sociedades e seus produtos, ao longo do tempo.


Bibliografia:

BLUTEU, Rafael. Dicionário da língua portuguesa composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e acrescentado por Antonio de Moraes Silva natural do Rio de Janeiro. Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1789. Vol. 2. p. 33

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss de língua portuguesa. Rio de Janeiro: Instituto Houaiss/Objetiva, 2009.

Nossa história. In: http://www.mineirinho.net/nossa-historia Acessado em 18/09/2020.

RIO Branco. Porcelana Brasil. In: http://www.porcelanabrasil.com.br/m-rio-branco.htm Acessado em 18/09/2020

WHERS, Carlos. Niterói, tema para colecionadores. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda., 1987.


Imagens:

Cálice do Barão de São Gonçalo. Fonte: https://www.centurysarteeleiloes.com.br/peca.asp?ID=42439 Acessado em 17/09/2020

Copo do refrigerante Mineirinho. Década de 1960. Fonte: http://www.compracompras.com/br/produto/1331982041/tck-copo-antigo-do-refrigerante-mineirinho-em-vidro-anos-60 Acessado em 17/09/2020


Caneca do 2º Festival Gonçalense de Refrigerante. 1974. Acervo de Isabel Clara. Imagem disponibilizada no Grupo Memória de São Gonçalo




Prato do 3º Regimento de Infantaria. Entre 1947 e 1967. Acervo pessoal.



Rui Aniceto Fernandes é professor de História do Departamento de Ciências Humanas (DCH) da Faculdade de Formação de Professores (FFP-UERJ).




MV1.2.jpg
MALUGA_2.jpg

© 2020 POR APOLOGIA BRASIL

  • w-facebook
  • Instagram
  • White Twitter Icon