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São Gonçalo como objeto de colecionismo, por Rui A. Fernandes


Ernani do Amaral Peixoto com a mulher, Alzira Vargas. Quando interventor federal, assinou documento de nomeação de Nelson Corrêa Monteiro como prefeito de São Gonçalo/Retrato sob a guarda do Arquivo Nacional (Brasil)

Colecionar, o verbo remete ao ato de organizar uma coleção. Quantos de nós, em algum momento da vida não fez uma? Ato saudável que nos faz conhecer um pouco mais sobre o objeto colecionado ou sobre os seus locais de origem, as imagens representadas etc. Montar uma coleção depende exclusivamente da paixão daquele que decide organizá-la. Do gosto pessoal, o hobby pode tornar-se um objeto de estudo sério utilizando-se os critérios estabelecidos pelos campos do colecionismo. E o que isso tem a ver com São Gonçalo? Será que é possível tornar São Gonçalo, município do Rio de Janeiro, objeto de colecionismo? O objetivo dessa coluna é mostrar que isso é possível. Todas as experiencias sociais vivenciadas em um lugar produz marcas que são expressas das mais variadas formas. Os itens colecionáveis são algumas dessas marcas. No entanto, não são apenas objetos materializados de um tempo. São vestígios para compreendermos os modos de sentir e viver de uma comunidade ao longo de seu tempo. Façamos um passeio pelos campos do colecionismo que nos permitem construir tantas histórias dessa São Gonçalo de hoje e de ontem.


Autografomania

Há nem muito tempo, era comum, entre jovens e adolescentes, o costume de preparar um caderno especial para coleta de assinaturas/autógrafos de seus ídolos, especialmente cantores ou jogadores de futebol. Hoje, o mais comum é tirar uma “self”. No entanto a caça de autógrafos não acabou. Causa certo orgulho, a muitos, que autor de um livro autografe o seu exemplar.


O autógrafo é, em sentido mais amplo, qualquer documento manuscrito/autoral e não exclusivamente a assinatura. Instituições de acervo e de pesquisa assim como particulares buscam esse tipo de documento, em especial, relacionados a personalidades nos mais diversos campos de atuação social, por interesses diversos. No mais das vezes uma assinatura indica que aquele item foi manuseado pelo personagem e como tal seria um fragmento fiel do passado. Para tantos outros, os manuscritos podem subsidiar novos dados para pesquisas que lancem novas interpretações sobre fatos ou personagens consagrados ou informações sobre anônimos.


Os primeiros registros sobre a autografomania, ou seja, o colecionismo de autógrafos, data do século XIX. Em 1822, na França, ocorreu a primeira venda de documentos manuscritos com o oferecimento de 550 peças reunidas por Villenave (1762-1846). Entre os famosos colecionadores franceses podemos citar Alexandre Dumas e a família Bonaparte.

Alain Pagès nos chama a atenção que o acesso à documentação manuscrita não é um mero fetiche. A publicação de transcrições deixa de lado uma série de elementos importantes para análise das intencionalidades do seu autor. Como exemplo cita as cartas de Émili Zola, as quais analisa. “No caso de uma correspondência, essa questão é de suma importância, pois uma carta comunica sua mensagem não somente pelo texto que propõe, mas também pela multiplicidade dos signos que acompanham o texto: a forma da escrita, a ocupação do espaço da página, o número de folhas, os acréscimos colocados nas margens, a assinatura etc”.


Hoje, com o avanço dos meios eletrônicos de registro, os documentos manuscritos estão ficando mais escassos. No entanto, é comum vermos muitos desses itens aparecerem em leilões e serem disputados a bom preço.


A documentação manuscrita, relativa a São Gonçalo, encontra-se dispersa em instituições locais e outras sediadas em Niterói e no Rio de Janeiro, de atuação regional e nacional como o Arquivo da Câmara Municipal de Niterói, Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional e o Arquivo Nacional. Há, no entanto, um importante conjunto que está em coleções privadas. As famílias mais antigas guardam correspondências, bilhetes, textos, documentos públicos entre outros, de seus ancestrais por questões afetivas. Como não há um arquivo municipal instituído, muitas vezes, esses documentos são descartados quando do falecimento do seu guardião. E assim perde-se elementos importantes para a história local.


Exemplos:


Documento 1: Ato de nomeação de Nelson Corrêa Monteiro como prefeito de São Gonçalo. Niterói, 28/02/1940. Assinado pelo interventor federal do estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral Peixoto. Acervo Pessoal.


Documento 2: Rascunho de carta escrita por Gentil Achilles Vivas, Secretário da Municipalidade de São Gonçalo, em agradecimento à visita pastoral de D. João da Matta Andrade e Amaral. São Gonçalo, 02/101/1948. Acervo Pessoal



Documento 3: Dedicatória escrita por Luiz Palmier, no exemplar de seu livro, para Paulo Antunes de Oliveira. O livro foi ofertado em solenidade de despedida do então promotor de justiça da comarca gonçalense que fora transferido para a comarca da capital do estado. Segue as assinaturas de todos os que participaram da solenidade. Acervo Pessoal




Documento 4: Prospecto de divulgação de shows do Carequinha autografado para Alexandra, s/d. Acervo Pessoal



Bibliografia:

GONÇALVES, Marcia de Almeida; REZNIK, Luís (Orgs.). Guia de fontes para a história de São Gonçalo. São Gonçalo: UERJ/FFP/DCH/Laboratório de Pesquisa Histórica, 1999.


LAGO, Pedro Correa do. Documentos autógrafos na coleção Pedro Correa do Lago. São Paulo: Capivara, 1997.


Pagès, Alain. A materialidade epistolar. O que nos dizem os manuscritos autógrafos. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, n. 67, maio/agosto de 2017. p. 106-123.


Rui Aniceto Fernandes é professor de História do Departamento de Ciências Humanas (DCH) da Faculdade de Formação de Professores (FFP-UERJ).




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