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São Gonçalo e o preço do progresso, por Oswaldo Mendes


Praia das Pedrinhas, idos de 1970/Foto: Internet

Vi na data de ontem uma postagem que muito me fez relembrar e comparar com os dias atuais. Era a foto da Praia das Pedrinhas, acho que nos idos de 1970. Três fotos muito bonitas, trazendo ao fundo a Praia de São João com o casarão que os moradores daquela localidade contam sobre Tommaso Buscetta e o seu famoso jipe.


Na Praia das Pedrinhas tínhamos outra figura famosa: o Tenente Hélio. Também não existia a Estrada Niterói-Manilha. Da Praia das Pedrinhas até a Curva da Morte era manguezal, manguezal este que iniciava a uns setenta metros da casa do ex-prefeito Hairson Monteiro. Tinha ali também um campo de futebol e a desembocadura do Rio Imboassu – a grande cobra d’água.


A Rua Abílio José de Matos era calçada com paralelepípedos, assim como as poucas ruas de São Gonçalo que eram premiadas com calçamento. Lembremo-nos que à época que fizeram o calçamento, acho que foi o Prefeito Lavoura, pois ele concentrou a maioria das suas obras nesta parte de São Gonçalo – Porto Velho, Porto Novo, Neves e região. Uma boa fonte para conhecimento do que aconteceu na cidade seria a leitura, dentre outros, do artigo que ora segue identificado no link: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/cdf/article/viewFile/11532/9081

Desse artigo acima referenciado, a qual contem como fonte dados do CIDE/ IBGE temos a seguinte tabela, às fls. 77.

São Gonçalo: População residente e taxa de crescimento

Ano - População( nº habitantes) - Taxa de crescimento(%)

1940 - 85.521

1950 - 127.276 (48,82%)

1960 - 247.754 (94,66%)

1970 - 430.271 (73,67%)

1980 - 615.652 (43,01%)

1991 - 779.832 (26,73%)

2000 - 891.120 (14,27%)


A partir de 1960 a cidade de São Gonçalo perde o título de “Manchester Fluminense” e ganha outro: Cidade Dormitório.


Em 1974, o advento da Ponte Rio-Niterói ajuda a mobilidade dos Gonçalenses, mas continua a movimentação de massa em direção à cidade, sem que estruturas fossem implementadas.


Notem que a maioria da rede de esgoto foi instalada em idos de 1960/1970, mostrando acima a população da época e atualmente temos mais de um milhão de habitantes, conforme nos relata o IBGE.


Fomos presenteados com o primeiro dique inverso que é a Niterói-Manilha, a qual os projetistas não colocaram saídas para São Gonçalo, e se não fosse a forte intervenção do então ex-deputado federal Osmar Leitão Rosa, nem isso teríamos.


Anteriormente já tínhamos sido presenteados com a final e retirada dos bondes e trem, ficando operando precariamente até sua morte. Relembre a viagem no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=_qUq8mzZ9Ik

Perdemos diversas indústrias. Promessas eleitoreiras nos acompanham há quarenta anos sempre em época eleitoral: Barcas e Linha 3.


Em Neves tínhamos diversos campos de futebol que foram trocados por Conjuntos Habitacionais, à beira do que foi o Rio Bomba, atualmente, com galhardia retilizado, poluído e suas margens impermeabilizadas, para não sujar os pés de lama.


Assim por toda a cidade.


As cidades temem presídios, lixões e cemitérios. Recebemos os três, sendo que o dito Aterro de Anaia, repulsado pela população, teve até quem em Audiência Pública dissesse que se poderia trabalhar lá de terno branco. Não há perdão, pois não era um néscio e sim um interessado no negócio, como o tempo provou.


A UERJ é um parenteses: trabalho árduo de Professores, Sociedade e saudoso Josias Ávila.


Leiam uma dessas promessas e sua fonte, que segue:


“É de longe a mais importante intervenção urbana do Brasil sob a ótica das pessoas. A estação Carioca tem mais um andar abaixo do atual já pronta e que custou muito caro. Temos engenharia nacional banal para construção do túnel submarino, que teria três quilômetros. O passageiro levaria 29 minutos do Centro do Rio a Alcântara (em São Gonçalo)”, diz Ronaldo Cezar Coelho que liderou os estudos de viabilidade técnico-econômica do projeto no fim dos anos 90. https://viatrolebus.com.br/2013/04/os-projetos-do-rio-que-nunca-sairam-do-pape/


Pobreza somada a baixa instrução é uma receita pronta para ataque ao Meio Ambiente; Desmatamentos, construções irregulares, uso indevido das margens de rios e córregos, assoreamento de rios e córregos, baixíssimo índice de rede de esgoto.


Esgoto jogado “in natura”em rios e córregos, valas negras, uso irregular de Áreas Naturais de Alagamento de Proteção Ambiental, populismo, favelização, baixo índice de cobertura vegetal se entrelaçaram e caminham (caminharam) por São Gonçalo. Lembremo-nos que o Ser Humano é parte integrante do Meio Ambiente, mas ele não se considera – O homem é imagem e semelhança de Deus e os animais e demais seres? Para servi-los?


Lembrei-me ontem do Arraiá da Curva Fria, da turma de balões e diversos campos de futebol que haviam naquela localidade onde se tem o Cristo, no Porto da Pedra, que em vídeo recebido ontem estava mais uma vez alagado. Ali era os antigos ensaios da então Bloco Carnavalesco Porto da Pedra, que nasceu no Beco do Urubu, com o saudoso Lelego, Bráulio Valentim e nosso amigo Jurair, atual Presidente do Tamoio, dentre outros.


Poderia falar do Mutuá – lembrem-se do mutum – e até dos antigos imóveis financiados, com desconto em folha salarial a trabalhadores pela CAPFESP – Caixa de Aposentadoria e Pensões Ferroviários e Empregados em Serviços Públicos. Mesmo modelo – paralelepípedos.


Temos, em São Gonçalo sete bacias hidrográficas e em torno de 140 rios e córregos. A rede de água pluvial (chuva), quando existente, na maioria das vezes não tem interligação com nada e coisa nenhuma – Viva PDBG – Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, a qual também treinou milhares de Professores em Educação Ambiental e Gestão Ambiental e curso de pós-graduação pela UERJ, em idos de 2000.


A Educação Ambiental é uma disciplina transversal e assim deveria ser aplicada aos alunos, mas se tem que dar meios. Isso era o papel dos Gestores.


Vi pessoas assumindo cargos na área de Meio Ambiente sem a mínima condição, pois na verdade eles não sabiam e não sabem a diferença entre o Meio Ambiente e o Ambiente Inteiro. Seria pedir demais que Gestores Ambientais soubessem o que o Ciclo de Deming, 5S, Diagrama de Ishikawa ou 5W2H.


Meio Ambiente não é levado a sério não só pela população, mas pelos seus espelhos: Políticos.


Deram outro presente para a cidade de São Gonçalo que aceitou de braços abertos: a Estrada do COMPERJ. O segundo dique inverso. Criminoso. Cada dia fico com pena da população sofrida de Palmeiras, Salgueiro, Catarina, Conjunto da PM e outras.


Para piorar a população pediu e os populistas atenderam: asfaltaram e concretaram tudo sem dar caminho às águas, sem rede pluvial, sem saneamento, mas ninguém pisa mais na lama ou entorse o pé no paralelepípedo.


Os rios subterrâneos da cidade devem secar e as árvores morrerão, Ilha de Calor. Ambiente estéril.


As águas pluviais agora não mais empoçam e sim tem enxurradas, não só de água, mas somadas com lama e esgoto.


Adicionem-se a isto a violência, desemprego e fome reinantes na cidade.


Dar soluções fáceis para São Gonçalo não é nem mais populismo.


São Gonçalo se vê cercado por Maricá e Niterói, as quais contratam cérebros para pensar o futuro, isso com dinheiro dos royalties. Nossa cidade se encontra atônita com seu presente, em função de erros do passado. Não existem milagreiros que se resolva nossos problemas com mágica ou discursos bonitos.


Temos que aprender a aprender. Temos que não jogar lixo nas ruas, não cortar árvores em motivação e respeitar mais não só quem está ao nosso lado, mas o todo, que é o Meio Ambiente.


Escrevo esta com muita tristeza n’alma. Esperemos, inertes, a próxima chuva!

Oswaldo Mendes é engenheiro.



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