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Só conhecemos São Gonçalo pedalando, por Mário Lima Jr.


Moro em São Gonçalo há trinta anos, mas isso não significa nada. O que importa é quantos quilômetros pedalei pela cidade. Quanto arrisquei da minha vida para conhecê-la, o quanto me entreguei. Não o suficiente ainda.


Conheço gonçalenses adultos que nasceram na cidade e nunca se sentaram na praça Zé Garoto. Por preguiça, por medo. Reclamam que a praça está tomada de mendigos e fingem que não veem os anúncios de grandes eventos, como o festival gastronômico, que acontecem lá. Continuam vivendo suas vidas dentro da segurança de casa, até quando for possível, sem conhecer o próprio município. Nunca possuíram São Gonçalo, na verdade, e jamais pertenceram a ela. São propriedade do sofá da sala.

Escolho, de vez em quando, o maior dos riscos e através dele consigo o máximo do prazer de ser gonçalense. São Gonçalo é uma droga viciante de várias cores e sabores. Quando pedalo rápido, com o vento batendo no meu rosto, cruzando no meio dos carros em direção ao canto da rua, minha vida não me pertence mais. Pertence ao motorista do ônibus atrás de mim que acordou de madrugada, no Jockey, e antes de ir trabalhar pediu licença ao traficante parado no portão dele, com um fuzil nas costas. Ao motorista por aplicativo que conduz seu carro ao meu lado e depois entra com medo nas comunidades tomadas por barricadas para construir renda suficiente para sustentar os filhos. Eles sabem que, se não respeitarmos uns aos outros, estamos perdidos. Por isso a maioria reduz a velocidade e me respeita.


Do mesmo jeito que minha existência depende de cada gonçalense que me ultrapassa com seu veículo, tomo posse das pessoas, paisagens e sensações que surgem no caminho e ficam para trás. Pedalando do Vila Três, onde moro, até o Rodo, aproveitando o embalo da descida do Morro da Caixa d’Água que me poupa do esforço inicial, em primeiro lugar guardo o sorriso e o cumprimento da vendedora de picolés da esquina da Agostinho Félix com a rua Júpiter.


Começo a pedalar, supero o caos que se tornou a Estrada Raul Veiga, sempre engarrafada perto da Praça Chico Mendes, e alcanço a Avenida Maricá (é criminoso qualquer outro nome atribuído à praça ou a essa avenida). À minha frente, a senhora que caminha na calçada e tira a calcinha que entrou demais. A jovem magra que tenta empurrar a porta de aço para cima para abrir a loja comercial e começar o expediente. A mulher que carrega duas crianças na garupa da motocicleta velha, fumegante, sem medo e sem capacete. Apenas três gonçalenses, três mulheres, e por um breve instante, quando passo pedalando por elas, seus pensamentos se cruzam com os meus, suas histórias se misturam com a minha e nós formamos uma coisa só, São Gonçalo. Livre, caótica, suja, ousada e ingênua.


Na Praça do Rodo, compro o Jornal Daki e começo a folhear de pé, em frente a banca mesmo (qualquer outro nome atribuído a essa praça que cite uma marca comercial também é criminoso, além de ser uma estupidez). Procuro uma sombra para continuar lendo, não é fácil achar. Nada é fácil em uma cidade que não planta árvores. Pedalando, no entanto, vemos muitas injustiças e lutas ao mesmo tempo, em um piscar de olhos, e acabamos encontrando São Gonçalo inteira.

Mário Lima Jr. é escritor.


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