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Senti o ódio bolsonarista quando era moleque, mas cresci, por Mário Lima Jr.


Foto: Reprodução

Entendo seu ódio, Daniel, e a vontade de espancar na rua, em público, os onze ministros do Supremo Tribunal Federal. No fim da adolescência eu sentia essa raiva, que vinha do desespero de um país que não avança, compartilhada por cada conservador individualista e medíocre sem interesse na manutenção das instituições que garantem a liberdade individual. Entendo Jair Bolsonaro também, que queria exterminar 30 mil brasileiros e conseguiu promover e assistir, de uma posição privilegiada, a morte de 245 mil até agora. Antes de aprender alguma coisa sobre o país em que nasci e vivo, antes de desenvolver respeito pela democracia e amor pela vida humana – compromissos legais internacionalmente assumidos pelo Brasil – eu acreditava na “reconstrução da dignidade nacional” através do extermínio dos bandidos que eu concebia. Como se da violência algo bom nascesse. Se já não houvesse sangue demais derramado em solo brasileiro desde 1500.


Um adolescente ignorante, preguiçoso e que pensa ser o próximo anticristo não sabe. Homens que desprezam a vida e espalham o ódio não se sentem atraídos pela ideia. Mas diante de graves crises históricas no mundo inteiro, sejam econômicas, sanitárias ou militares, a união da sociedade foi o único movimento que trouxe superação. A proposta de matar o inimigo é fácil, rápida e cativante, por isso fascistas em busca de votos apresentam aos seus semelhantes o crime como solução. Desenvolver um país requer tempo, inteligência e dá trabalho.


“Se o Brasil já está em chamas, que ele queime todo de uma vez”, diz à mesa, durante o almoço de domingo com a família, o cidadão honesto roendo o osso de uma costela suína. Ele acha que não estará entre as vítimas, pensa no tal do bem maior, que não passa do fim das ideologias políticas contrárias a sua. O combate à pobreza, a preservação da natureza e dos povos originários e a salvação de jovens negros vítimas da violência são pautas menosprezadas. O Brasil, conforme explicado por séculos de ciência social, não por fofoqueiros no WhatsApp, jamais é contemplado.


Pela falsa ordem, homens e mulheres foram assassinados ou traumatizados para sempre durante a última ditadura civil-militar. Seres humanos torturados durante a gestação, junto com a mãe, carregam sequelas ao ponto de cometerem suicídio na fase adulta. A possibilidade de ver o adversário político sofrer desta forma, seviciado nas alturas do pau-de-arara, é o que torna o regime ditatorial sedutor. A chance de ser o próprio torturador e ouvir gritos de misericórdia da “escória”, da “nata da bosta”, como o deputado Daniel se referiu aos membros do Supremo, inspira reuniões em gabinetes e palácios em Brasília.


O crime iminente é o motor do Executivo brasileiro e ontem encontrou sustento em 130 deputados federais que votaram a favor de quem afirmou, em vídeo para o país, que a Constituição atual, chamada de Constituição cidadã e criada ainda sob a dor da perda do direito à vida, é um documento de merda que serve apenas para colocar vagabundos no poder. Bolsonaro foi eleito Presidente da República não por ser um merda ou vagabundo, mas porque somos um país livre, valor guardado pela Constituição que o deputado, soldado bolsonarista de visão e espírito prejudicados, atacou.


Para o eleitor brasileiro vale a pena conhecer seu país. Nada de repetir aquela história de que todo político é corrupto. Ter intimidade com o Brasil significa descobrir que somos um povo de maternidade indígena que fala e gesticula como um africano ao mesmo tempo que pratica a influência europeia com orgulho em algumas regiões. Quando um discurso político no plenário da Câmara dos Deputados ou em uma live nas redes sociais ignora os elementos que fazem do brasileiro um povo único, é provável que esteja cheio de ódio ou, no mínimo, seja estúpido.

Mário Lima Jr. é escritor.




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