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Sobre fuxicos e os entrelaços narrativos da vovó, por Flavia Abreu


Minha avó, Cecília, mãe da minha mãe, era daquelas mulheres com as quais a gente queria sentar e conversar por horas. Ela contava tantas histórias! Histórias tristes e felizes sempre fizeram parte de nossos encontros.


Vovó era muito engraçada! Sempre respondia "boa noite, vai com Deus!" ao apresentador do Jornal Nacional, ao final do programa. Dizia que eu precisava me casar logo porque já estava "velha" (contava eu uns 22 anos nesta época) a mulher que se casara bem antes de completar 18 anos.

Ela morava no interior do estado e, de vez em quando, vinha à nossa casa. Às vezes, nós íamos à sua casa, e passávamos dias por lá.  Ela tinha uma forma muito peculiar de marcar a veracidade dos fatos que narrava, "é sim, minha filha, é verdade o que vovó está falando!". E lá vinha a história do menino que nascera com uma mancha no rosto, que parecia um cacho de uva porque sua mãe teve um desejo na gravidez, que não fora saciado. 


Se com algumas histórias eu ria _e das quais até duvidava_ com outras eu apenas pensava. E refletia sobre como a vida tinha sido generosa comigo, tendo em vista a da minha avó. "Todo dia, minha filha, eu rachava lenha para pôr no fogão e para o ferro, porque eu ajudava o seu avô passando roupa pra fora. E engomava!!!" _dizia ela enfaticamente _ "Naquele tempo a gente engomava a roupa".



Ao contrário do que muita gente pode pensar, nunca, em momento nenhum tive pena da minha avó pelas dificuldades que enfrentou. Eu a admirava. A mulher que rachava lenha para alimentar os filhos viveu um grande amor, e era muito apaixonada pelo marido, um homem que ela assim descrevia: "emproado, bonito, forte, e de chapéu". Ela era tão autêntica, que, muitas vezes, chegava a me deixar corada, pois não escondia o que sentia, como quando, já bem idosa, via um homem bonito e dizia: "que pão!". 


Acho que nunca fui uma neta muito querida. Talvez por ter sido criada distante dela... talvez por não ser exatamente a mulher que ela admirava, "trabalhadeira, caprichosa" (no sentido de dona de casa). Não casei jovem, não me enchi de filhos, estudei, trabalhei, fui muito mais uma mulher avançada para a geração dela do que ela poderia imaginar. 


Dona Cecília era muito mais forte do que eu. Teve 11, ou 13, ou 16 filhos _não me lembro bem_ , "tudo ali ó!", falava ela referindo-se ao parto normal, "as mulheres de hoje em dia só querem saber de cesariana". Viúva bem jovem sem nunca mais ter se casado, minha avó guardava com carinho o vestido que pretendia usar no caixão, para ir ao encontro do meu avô. Segundo ela, "um vestido que seu avô vai adorar". 

Quando penso em uma casa decorada com personalidade, sempre me vem à cabeça a Dona Cecília. Suas colchas de retalhos, seus tapetinhos de fitas, suas almofadas de fuxico, a cortina que separava a sala do quarto, a máquina de costura, numa casinha simples, sem laje, a única que conheci na minha vida, onde eu olhava para cima e via o telhado. Eu adorava aquilo!!!

De tudo o que ela costurava, o que mais me chamava a atenção eram os fuxicos. Que coisa linda! Quanto trabalho dava fazer aquilo! Que mulher criativa! Costurava, entrelaçava fios e linhas, contava suas histórias, o mundo se modificava dentro e fora dela. E dentro de mim, é claro.


Apendi muito com minha avó. Aprendi que a vida é urgente, que o amor é fundamental, que o trabalho enobrece e que peças artesanais trazem um colorido único para a casa. Eu tenho um lindo tapetinho de fitas que a vovó fez para mim, "aqui, minha filha, é pra sua casinha". Branco, bem feito, bem acabado. Ela me deu pouco antes de morrer; eu estava comprando umas coisas para a minha primeira casa. Isso foi em 98. O tapetinho resiste e eu já tive dois casamentos.


Colchas, tapetes, almofadas, passadeiras, toalhinhas, paninhos... não sei onde as costuras foram parar depois da morte da vovó. Talvez minha mãe saiba. Ficaram, ao menos para mim, as histórias. E a paixão por fuxicos. O vestido amarelo ela finalmente usou para reencontrar o meu avô. Ele certamente sorriu ao vê-la chegando.

Flavia Abreu é professora e blogueira.


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