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Tia Mary: Uma vida em forma de poesia, por Oswaldo Mendes



Mary, foto de acervo pessoal

Estávamos dispostos a iniciar este texto com uma cacofonia, escrevendo sobre uma super mulher, mas a Mulher tem como sinônimos a superação, a força, o dom de criar, de educar, de múltiplas ações concomitantemente, trabalha fora e em casa – isto com salários menores comparados aos dos homens, e muitas vezes sem reconhecimento, assim a Super Mulher de nada se diferencia da Mulher.


Note que a conclusão acima não se inclui em licença poética. É a pura realidade.


“Eu adoro meu avô. Pessoa maravilhosa. Anjo que se encontra no carnaval” – relatou com voz embargada de paixão a carioca, de Bonsucesso, que logo aos três anos veio para São Gonçalo, Mary. Notamos que ali se encontrava mais uma pessoa muito especial.


Os avós eram de Silva Jardim, porém adotaram Rio Bonito como local para viver e lá viviam e trabalhavam. Ele, Belino Claudino Menezes, tinha uma sapataria e dali tirava seu sustento, mas também adorava o carnaval e tinha uma agremiação de Rancho denominado Rancho da Folia. Falecido em 1975 ainda é lembrado de forma carinhosa pelos Riobonitenses. Quem complementava as forças do seu avô era a carnavalesca Nazareth da Paixão, sua avó.


Seus avós tiveram quinze filhos, dez mulheres e cinco homens, todos com dotes para as questões ligadas à Cultura. Cultura no DNA. No sangue.


A mãe de Mary, Elasir Menezes de Rocha, a qual ainda é outra amiga que sempre a acompanha, sempre trabalhou como costureira e para diversas escolas de samba de Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro, também ligada ao carnaval, logicamente, à Cultura.


Mary Catarina Rocha Melo, a qual tem mais três irmãos – todos ritmistas, de família de mineiros, que de Bonsucesso vai para Costa Barros, onde muitos outros familiares do pai lá moravam e se muda ainda muito criança para São Gonçalo. A distância não diminui o carinho por todos. Uma família de Artistas.


Em 1974 conhece aquele com quem se casaria e por acaso o mesmo era também amante do carnaval. União perfeita. José Luiz de Melo, um nome de extremo reconhecimento pelos atos e fatos dentro da cultura, especificamente, no carnaval.


Casou-se em 1976, em Rio Bonito, tendo a festa de casamento na Escola de Samba Canarinhos de Ouro, da localidade. Seu esposo já estava empossado como o Presidente da Boêmios da Madama, em São Gonçalo. Muito versátil, o José Luiz, além de presidente fazia enredo, carnaval e ainda buscava integrantes diferenciados para a Escola de Samba – e neste momento ela cita que, numa dessas buscas, vieram então a conhecer o Mocotó, dentre outros.


Mary nos relatou, com muita tristeza, que em função das enchentes que acontecem no bairro do Vila Lage, os documentos, fotos e registros da Boêmios da Madama foram perdidos da casa dela. Deixa a esperança de que seu compadre, o último presidente da Boêmios, tenha algum registro.


Na Boêmios da Madama é conclamada como Rainha Mirim, sua filha, Ketula Melo, posteriormente Rainha de Bateria do GRES Porto da Pedra, Musa do carnaval, em 2003, em concurso na Rede Globo com Luciano Hulk e atualmente Musa do GRES Imperatriz Leopoldinense. Veja uma matéria:



Carreira de pleno sucesso.


A Boêmios da Madama não acabou. Como dizem os Maçons, está dormindo. E assim lá foi o casal para a Cubango.


Na Cubango criaram a Ala de Mestre Sala e Porta Bandeira, juntamente com Edson e Therezinha. Um trabalho lindo, reconhecido e com frutos, como por exemplo o Toninho, que passou por diversas escolas do Rio e inclusive a Porto da Pedra.


Ela, Mary, na Cubango e sua Tia Lisa, como Harmonia, no GRES Porto da Pedra. Depois para a Ala das Baianas do Porto da Pedra veio a sua mãe, isto com o enredo Campo/Cidade em busca da felicidade, em 1995.


José Luiz escreveu enredos para a Cubango, Bafo do Tigre e outras. Um grande Carnavalesco que colocou seu nome na história.


Na Viradouro fundou a Ala do Rebu, no tempo de Albano. Algum tempo depois repassou a Ala para Jorginho Mestre Sala, indo assim o casal, Mary e Jorge Luiz, para a Cubango.


“Em época de carnaval minha casa virava um barracão de escola de samba”, relembra a Tia Mary e complementa que “gravava os desfiles das escolas de samba e passava o ano inteiro vendo e revendo todos os desfiles”.


Tia Mary parou dois anos, mas seu marido foi para Maricá, na União Imperial e Ketula era a Rainha de Bateria. Depois desse período vem para a Porto da Pedra para desfilar em ala.


Seu marido retorna ao Cubango para ajudar, em função das condições da época e, posteriormente, vem para o Porto da Pedra também. Em 1999, Jorginho Harmonia a alça para ajudar no Apoio de Ala e seu marido já estava como Harmonia da Escola. Ketula virou passista do Porto da Pedra e depois, em concurso, passou a ser a Rainha da Bateria da GRES Porto da Pedra.


Tia Mary foi levada para coordenar a Ala de Passistas da Porto da Pedra e depois para a Harmonia onde até hoje permanece.


José Luiz de Melo deixou de exemplo diversas obras e trabalhos comunitários e váios amigos. O Mundo do Samba o reconhece e, para um sambista, a melhor lembrança ou homenagem que se possa realizar é dar continuidade ao samba. A Tia Mary e juntamente com Ketula assim o decidiram fazer e homenageá-lo. Isto em 2002.


Em 2017, acompanha sua filha Ketula, convidada para ser Musa da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, onde foi muito bem recebida. Único ano fora da Porto da Pedra. O Giliard Pinheiro, Passista, “exigiu” sua volta pra casa.


Tia Mary cita ainda seus sobrinhos que fazem parte de um Grupo de Pagode em Rio Bonito denominado “Qual vai ser” e sua sobrinha que é vocal do Grupo Arruda, Maria Menezes. Família de Artistas.


Tia Mary se diz muito triste com as condições atuais em função da pandemia. Muita gente vive da indústria do carnaval: costureiras, eletricistas, soldadores, vigias, cozinheiras, etc. Além do fato de distribuir alegria, luz e magia. Mas vai passar e continuaremos no carnaval...


Uma bela história de vida em prol da cultura. Em prol do carnaval. Ao defender as bandeiras que balizam suas raízes, Tia Mary – nome e sobrenome, corpo e alma, um lindo poema vivo que também é sinônimo de Resistência - homenageia todos seus antepassados, e dá a vertente, os passos, a diretriz que deve-se seguir.

Oswaldo Mendes é engenheiro.




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