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Tijucamérica: uma viagem no tempo e na imaginação de José Trajano

Por Marcio Albuquerque

José Trajano, jornalista, escritor, comentarista esportivo, tijucano e, não tão por acaso, torcedor ferrenho do seu time de coração, o America Football Club (assim mesmo, no original em inglês e que é o nome oficial da agremiação, independentemente dos preciosismos linguísticos de hoje), adepto das (boas) rememorações, nos brinda com um texto extremamente divertido, e cheio de lembranças de um Rio de Janeiro sobre o qual tenho dúvidas fortes de que possamos reviver um dia.


Em “Tijucamérica: uma chanchada fantasmagórica”, Trajano nos coloca frente a um enredo ousado, fantasioso, que divide a narrativa entre um passeio histórico pelo bairro da Tijuca e adjacências e uma utopia calcada na vontade de reviver as glórias do seu time querido, o América.


As propostas utópicas são aparentes quando Trajano explicita um plano, na presente década (o livro é de 2015 e ele menciona alguns fatos futebolísticos ocorridos de 2006 para a frente, como a derrota para o Botafogo no Maracanã na final da Taça Guanabara) e que contempla a (re)construção de um estádio para o América na Tijuca, independentemente da existência do Estádio Giulite Coutinho, que fica em frente à estação ferroviária de Edson Passos, no município de Mesquita – RJ, bem como a construção de uma nova sede para o clube, ali na Rua Campos Sales 118, na Tijuca, bem próximo à Praça Afonso Pena.

Junto a isso, a fantasia vai por conta do fio motor do divertidíssimo texto de Trajano, ficcional e fantástico (isso, dessa forma mesmo, pois o adjetivo mais correto é esse: “fantástico”; e se isso lembra algo relacionado a “fantasmas”, o caminho da interpretação está mais que correto).


Trajano, como protagonista do próprio texto, se coloca na posição de um indivíduo que quer ver o seu clube e o seu time retornarem à evidência do futebol carioca e nacional, isso após uma série de decepções e frustações havidas por conta das interferências dos “cartolas” na administração do futebol carioca (e, por tabela, do futebol brasileiro e que impuseram a vários times tradicionais e importantes no cenário nacional a conformação com o estereótipo de “time pequeno”).


O enredo gira em torno de uma ânsia “tijucamericana” de ver o time, novamente, disputando um torneio carioca, mas com o que havia de melhor nos elencos que passaram por Campos Sales. Daí, partir para o sobrenatural foi um passo, apenas. O autor reúne alguns amigos e com eles traça um plano: “ressuscitar” (isso mesmo, não foi equívoco de linguagem ou de interpretação) grandes nomes que passaram pelo América, ao menos da década de 1950 para a frente, montando uma equipe que seria, em tese, imbatível no campo contra qualquer outro time do Rio de Janeiro.


Marcam uma reunião supersecreta na Ilha do Sol que fica ao lado da Ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara, casa e reduto da vedete Luz del Fuego, naturalista que recebia seus convidados nua e os obrigava a tirarem as roupas para permanecerem na ilha (assassinada em 1967, mas que aparece aqui, misteriosamente, sem muitas explicações, para participar do plano...) e por ela são recebidos. Trajano envolve nomes como os do médium Joãozinho da Gomeia (falecido em 1971), Pai Jeremias (que tinha um centro no morro do Borel, na Tijuca), Hélio Palavrão (cambono de Pai Jeremias), Thomas Green Morton e padre Quevedo, entre outras personalidades encarnadas, desencarnadas e acessíveis através de recursos mediúnicos. Isso foi um toque de extrema sutileza.


Há muitas surpresas no texto que envolvem os nomes dos personagens “ressuscitados”. Esse nomes iam desde grandes jogadores do América até figuras importantes na memória e na vida tijucana e americana, como o Manduca, que eu conheci quando garoto, ciclista que rodava toda a Zona Norte carioca com a sua bicicleta toda caracterizada com temas, escudos e flâmulas do time (diga-se de passagem, ninguém jamais se atreveu a roubar a bicicleta do Manduca) e que acabou se tornando torcedor-símbolo do time, cargo ocupado hoje pela meiga e doce Tia Ruth (imaginem se houvesse um romance entre os dois?), como Lamartine Babo (compositor do hino do América e considerado, até hoje, o hino mais bonito dos times cariocas – afinal, Lamartine torcia pelo América...), como o maestro Villa Lobos, Giulite Coutinho, Wolney Braune, entre tantos outros nomes. A surpresa, nos parece, nunca atinge a sua plenitude...

Quem entende de História vai encontrar muitas coisas diacrônicas e anacrônicas nesse texto que fala de reviver nomes que tivessem importância tanto para o bairro da Tijuca como para o América, mas não podemos esquecer que estamos lidando com uma ficção tão surreal que, considero, ser digna de um Salvador Dali.


Como diria meu pai, “mudando o tema da prosa de pau pra cavaco”, no que diz respeito à paixão tijucana de Trajano, ele permeia seu devaneio lírico com excelentes lembranças da Tijuca de outrora, resgatando locais, bairros adjacentes, bares (e esses não ficavam necessariamente na Tijuca, mas eram frequentados pelos jogadores do clube e por vários tijucanos, dado à sua proximidade com o bairro), construções e comércios que não mais existem mas que, à época, eram referências na cidade do Rio de Janeiro. Relembrar o restaurante Lamas quando ainda era no Largo do Machado, antes das obras do Metrô do Rio (que começaram em 1979), não tem preço (diga-se de passagem, o Lamas foi cenário de várias reuniões políticas importantes entre ministros, secretários de estado e outros políticos, dado à sua proximidade ao Palácio do Catete, sede do governo federal até a sua transferência para Brasília em 1960). Relembrar o Nova Capela, ali na Mem de Sá, e o carneiro servido lá, bem como o tradicional Bar Brasil, na esquina entre as ruas do Lavradio e a Mem de Sá, considerado como o bar que servia o melhor chopp da cidade, também não tem preço.


O enredo passa pela formação dos times para as disputas individuais com os clubes fluminenses, e pelas reações dos jogadores, da equipe técnica, bem como do grupo responsável pela magia incluída no espetáculo. Estaremos à frente de reações de dirigentes futebolísticos do RJ, da Federação do Estado do Rio de Janeiro, da própria CBF, não sem levar em conta uma certa interferência papal no que dizia respeito à atuação dos “mortos-vivos”. A coisa é hilária, a partir da fértil imaginação de Trajano.


Não vou fazer uma resenha do livro. Prefiro me ater aos impulsos motivacionais desse coirmão americano (SAAAAANGUEEEEE!) que tem uma grande paixão pelo time pelo qual torce e pelo bairro onde viveu uma boa parte da sua vida, desde a infância até a vida adulta.


Eu, particularmente, nasci e fui criado no bairro do Jacaré, na Rua Baronesa do Engenho Novo, próxima ao Largo do Jacaré. O bairro é próximo ao Engenho Novo, ao Méier, ao Andaraí, à Tijuca, ao Grajaú, entre outros (tive muitos amigos de infância e adolescência que moravam nesses bairros). Meu pai, que era torcedor do América e sócio do clube, me fez frequentar muito aquela piscina social (o “banheirão” a que se refere Trajano) na qual nadei e brinquei tanto, e que tinha uma ponte no meio do seu desenho sinuoso e, na parte mais profunda, uma “ilha” com o escudo do clube. Minha paixão pelo América vem desse tempo. Quase fui botafoguense, por força da influência de um amigo da família. Fui atleta infanto-juvenil do Clube de Regatas do Vasco da Gama, mas não consegui me render a outra paixão, pois americano sou de coração (me permitam a licença poética).


Trajano é da minha geração, na qual torcíamos por amor, sem ver empresas e investimentos de marcas num marketing falando mais alto no futebol, interferindo, inclusive, nas contratações de nomes para os elencos, nas escalações dos times, privilégios das cartolagens, em detrimento dos objetivos da vitória em torneios realizados aqui, mas não só no Rio de Janeiro.


Essa “pureza” do futebol acabou. Às vezes ficamos pensando quando veremos um outro Garrincha, um outro Nilton Santos, um outro Pelé, um outro Edu (o irmão do Zico), um outro Flecha... Essa época já passou.


O chamado “futebol arte” já morreu tem tempo. As coisas agora giram em torno de lucros para empresários e de ganhos financeiros para patrocinadores e clubes. E cada vez mais se torna difícil mudar essa mentalidade porque envolve milhões (de Reais, de Dólares, de Euros..., enfim, $$$$$).


É a falência do futebol carioca e, por sequência, a do futebol brasileiro? Neste ano de 2019 o maior investimento realizado no Rio de Janeiro foi no time do Flamengo de Futebol e Regatas que, além de ter contratado nomes expressivos para a formação do seu elenco em campo, resolveu contratar um técnico europeu e que, impondo o estilo que permeia o jogo fora do Brasil, vem conseguindo resultados expressivos, tanto no Campeonato Brasileiro quanto na Copa Libertadores de América. Mas isso tem sido devido a uma guinada drástica ocorrida nos paradigmas que ainda impregnam o futebol brasileiro (e, arrisco dizer, até a própria formação de uma seleção brasileira de futebol).


Voltando à “vaca fria” (olha que expressãozinha mais antiga...), leiam o livro do Trajano. Além de levá-los a uma grande viagem sobre o que foi o futebol carioca, leva a uma outra que é a rememoração da Tijuca e suas adjacências, sem contar com o enredo ficcional do texto que remete a uma trama muito divertida, hilária muitas das vezes (ri muito em alguns trechos durante a leitura do livro, que fiz em uma tarde apenas no Bar do Capixaba, aqui em São Gonçalo – não conseguia parar de ler e, rindo feito um louco, despertei a atenção do proprietário do bar, o Moisés, que ficou intrigado com o que eu estava lendo), a partir das ocorrências traçadas com os “ressuscitados”. Há coisas muito divertidas aí. Aproveitem e deleitem-se.


TRAJANO, José. Tijucamérica: uma chanchada fantasmagórica. Rio de Janeiro: Editora Paralela, 2015.

Marcio Luiz Ramos D’Albuquerque é mestre em História Social pela UFF, professor universitário, carioca e americano fervoroso. Residente em São Gonçalo – RJ, é presidente da Confraria do Botão – SG. Seus times de jogo de botão levam, todos, a chancela do América Footbal Club.


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