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Um ENEM com a função de excluir, por Oswaldo Mendes


Estudantes se mobilizam para adiar Enem 2020/Foto: Divulgação

Vivemos tempos difíceis. Época onde as pessoas se dizem cristãs, mas agem como hereges. Talvez seja o ciclo do mundo. Frases como: “Amai-vos uns aos outros como vos tenho amado” são facilmente recitadas em qualquer esquina, mas a aplicação real inexiste. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Estamos num ano atípico. Aprendendo muito com as atitudes das pessoas. Uns agem de forma a buscar a morte ou matar, já outros escutam Especialistas no assunto e encontram-se em casa. Não isolados, mas afastados.


Vimos carreatas de ditos empresários, mascarados, solicitando reabertura do comércio. Busco acreditar que estão na melhor das intenções como diversas vezes já aconteceu na história, desde as mais antigas, quando os pais sacrificavam os filhos em nome de uma boa colheita ou bem mais recente, isso há duas décadas, quando milhares de empresas foram mortas pelos seus próprios responsáveis acreditando numa tecnologia: a Reengenharia. Mitos sempre acontecerão e eliminarão um número gigantesco de pessoas ou empresas, as quais estejam ao seu alcance, seja direta ou indiretamente.


Atualmente o acesso às Universidades Públicas são pelo ENEM, daí a importância desse Exame Nacional do Ensino Médio.


A Classe Média desqualifica as escolas públicas de ensino fundamental e médio, através de políticas advindas por políticos eleitos por ela e com esse intuito. A destruição do ensino Público Fundamental e Médio é estruturada para que não se tenha cidadãos críticos e concorrentes dos filhos daqueles que ora estão na Classe Média, ou seja, manter a roda girando bem lentamente.


Dentre a composição de Poder então sobra para os menos favorecidos a Cultura, a Religião e os Esportes.


Uma definição bem interessante é da formação do preço que é a adição de custos (diretos e indiretos) ao lucro, ou seja, quanto menor o custo obter-se-á um maior lucro, mantendo-se o mesmo preço. Porém, o lucro pode ser também dividido como lucro financeiro e lucro social. Essa é a diferença entre a Res Pública e Privada. Para quem vai e como vai o lucro de uma organização.


Numa Sociedade tremendamente injusta, repressiva, que ainda não aceita a dita Abolição da Escravatura, seria demais ver um Negro ou Negra, Ameríndio ou qualquer integrante de minoria em ascensão social pelo conhecimento para concorrer aos melhores cargos com seus filhos e netos. Daí a luta pela dita família, propriedade e terras.


Se buscarmos em Gestão a definição de partes interessadas no negócio para Organizações Públicas e Privadas – Stakeholders – fica ainda mais obtusa esta diferença quando temos o retorno como de bons serviços à Sociedade como um todo e não parcial como sempre aconteceu, de bons serviços, enquanto o retorno para as empresas privadas são direcionadas aos seus acionistas, em forma de lucro financeiro.


O que acontece nas empresas é fruto do que se passa nas ruas, porém, de forma normatizada. O Mundo da Vida e o Mundo dos Sistemas, de Habernans. Assim, para não perder clientes, ou seja, aqueles que efetivamente compram, as empresas buscam melhorar a Imagem da Organização para seu Público Alvo.


Se olharmos para as Universidades, elas têm obrigatoriamente três pilares: o Ensino, a Pesquisa e a Extensão. Aqui é que se diferencia as Universidades Públicas das Privadas, pois o custo das Pesquisas é muito caro financeiramente, mas com altíssimo retorno à Sociedade, cabendo esse papel ao Estado, isso no Brasil.


Poucos sabem o que é ter que fazer publicações anuais em Revistas Técnicas de alto impacto, orientar alunos, planejar e ministrar aulas, corrigir exercícios, testes e provas, pesquisar e ainda ter a chance de ver denominado seu ambiente de trabalho de balbúrdia.


Quando o aluno se torna cliente, o Professor pode se tornar mero vendedor, tendo inclusive que lhe agradar, se assim for “bom pagador”.


Não é desconhecido de ninguém pais que não aparecem em nenhum dia do ano na escola, mas quando sabem que seu filhos foram reprovados vão à direção da escola reclamar, pois, inclusive, sempre pagaram em dia.


As Organizações Privadas de Ensino não direcionam esforços à Pesquisa e a Classe Média sabe que o Mercado exige do Profissional recém formado conhecedor das mais novas técnicas, daí vem a busca pelos ditos curso de primeira linha.


Outra diferenciação é com relação ao lucro. Quando se coloca o salário de Professores como custo, logicamente aqueles que tem maior titulação serão cortados do processo de seleção nas Organizações Privadas, em suma, titulação maior é sinônimo de demissão, acontecendo exatamente o contrário nas Organizações Públicas.


Esses detalhes não são repassados para o Povo, mas é sabido por quem luta para colocar o seu filho numa Universidade Pública num curso de primeira linha. E eles fazem de tudo para se manter no “status quo”.


A falada meritocracia.


Quantos alunos de Escolas Públicas falam inglês ou francês fluentemente, que tiveram chance de estudar línguas em curso particulares, que tiveram chances de viajar ao exterior, de fazer aperfeiçoamentos?


Quantos alunos de Escolas Públicas tiveram cinco refeições por dia em toda a sua vida, que nunca tiveram que trabalhar para ajudar no sustento da casa ou ir de automóvel para estudar, de fazer um intercâmbio no exterior para aperfeiçoar a língua e estudos, que tiveram Professores particulares e Cursinhos Pré-Vestibulares com os Professores que fazem parte de bancas que compõem as provas que lhe serão dadas?


Todos são iguais perante a lei?


A diferença é dolorosa. É horrível saber disso, ver o circo montado e alguns gritando maus intencionados sobre a meritocracia. Ah! Como são felizes os néscios!


Daí vem o ódio dos Neofascistas por cursos de História, Filosofia e Sociologia, pois dão a chance de apresentar ao Povo o que aconteceu no passado.


Quantos alunos de Escolas Públicas que nunca tiveram que ficar trancados em casa em função da violência ou que tiveram que faltar a escola para atuar como babá de crianças em bairros da Zona Sul, inclusive aonde são submetidas a exploração sexual?


Quantos alunos de Escolas Públicas tem em casa internet de boa qualidade, computador adequado, local específico para estudo, quem lhe ajude em momentos de maiores dificuldades para estudar em EAD – Ensino à Distância?


É com esse quadro que buscam fazer um ENEM.


Os cursinhos preparatórios de favelas, subúrbios, Universidades e Comunidades estão parados em função do afastamento social e os alunos não tem estrutura para acompanhar em aulas à distância, assim eles serão muito prejudicados neste ENEM, pois além de todos os problemas já conhecidos e relatados tem ainda esse novo.


É claro que na verdade querem que eles voltem para o tronco, que a Lei Áurea, assinada, seja tornada nula, que a Casa Grande continue a explorar e submetê-los à Senzala, amparados por Capitães do Mato extremamente cruéis.


A maior subversão que pode ter num pobre, num integrante de Comunidade, de Minoria é estudar.


Sistema quer que os pobres e seus eternos descendentes continuem a chamá-los de “Doutor”, quando este tem significado do atual “Sabe com quem está falando?”. Lute contra isso.


Como disse o artista: “O sistema é f....!”


Este ENEM não poderia acontecer. É Excludente!

Oswaldo Mendes é engenheiro.




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