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Uma grande frustração, Por Fábio Rodrigo


Ron Mueck

Era um cara que gostava de mostrar que tinha conhecimento de tudo e que sabia mais que todo mundo. Os amigos concordavam que o seu pedantismo o tornava uma pessoa não muito querida por todos. Uma Persona non grata. Mas, apesar disto, era figura sempre presente nas conversas com os amigos. Quando comecei a contar sobre minha viagem à Itália, imediatamente me cortou e detalhou a sua por toda a Europa. “Você não conheceu a Catedral de San Giovanni Laterano, em Roma?” –‒ Perguntou-me em tom sarcástico e irônico. Em seguida, se gabava em contar sua experiência em diversos países europeus.


Quando o assunto era música, já exaltava seu vasto conhecimento sobre diferentes estilos musicais como se todos ao seu redor fossem completamente leigos no assunto. Ouvimos atentos as explicações do grande sabichão. Mostrava uma foto ao lado de Raúl Seixas para deixar qualquer um com inveja dele. “Foto igual a essa vocês nunca vão ter” –‒ rebatia em tom provocativo. Quando o assunto era política, demonstrava ser o único a entender do assunto. Ficava horas falando sobre os diferentes fatos políticos que marcaram o Brasil e o mundo. “Duvido que vocês saibam qual era o verdadeiro plano do General Marshal?” –‒ perguntava ele.


Se falávamos sobre comida, prontamente já vangloriava sua habilidade em fazer diferentes iguarias. Se declarava um especialista em vários pratos da cozinha brasileira e de todo o mediterrâneo. Quando contou que participou do primeiro Masterchef, calou a boca de todos. No churrasco, só ele sabia os segredos para deixar uma carne bem suculenta. E quando o assunto é futebol? Sabe de cabeça quais o vencedores de todos os campeonatos brasileiros, de todas as copas do mundo... Como sempre não deixava ninguém falar: foi só alguém começar a dizer a escalação do Brasil contra a Itália na Copa de 82 que imediatamente completou dizendo um por um o nome de cada jogador.


Até quando o assunto é Língua Portuguesa, ele queria dar uma de mais entendido que eu. “Você sabe qual a maior palavra da nossa língua?”- perguntava em tom provocativo como se isso fosse um conhecimento indispensável para qualquer estudioso da língua portuguesa. Até um professor de Física foi seu alvo: “E a história do gato de Schrödinger, como você explica?”. Adorava desafiar a todos, mostrando que ninguém tinha conhecimento superior ao seu. Dizem as más línguas que ele ficou assim depois que ficou impossibilitado de fazer o que mais gostava: cantar. Uma grave lesão nas pregas vocais o impediu de seguir a tão sonhada carreira de cantor. Talvez a fama de pedante seja sua arma para aniquilar uma grande frustração.


Num certo dia, notamos que o nosso amigo sabichão estava sumido das conversas na mesa do bar. Alguns comemoraram a sua ausência, outros perguntavam se teria havido alguma coisa, já que era figura certa nas conversas depois do expediente. No dia seguinte, ficamos sabendo que ele havia se separado da mulher e estava morando em outro bairro. O motivo: descobriu que sua companheira o havia traído com um participante do The voice Brasil.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor mestre em Estudos Linguísticos.


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