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Você deu 5 reais de gorjeta pro entregador mas continua sendo um merda, por Mário Lima Jr.


Foto: Ilustração - Blog Mário Lima Jr.

Evaldo tinha atravessado metade da cidade de São Gonçalo pedalando, do Centro ao Vila Três, carregando aquela bolsa pesada nas costas. Aliás, projetaram uma mochila linda, colorida, brilhosa, que desperta no cliente o tesão de enfiar o dedo na superfície macia, só que a bolsa é quadrada, não corresponde ao corpo humano e não traz conforto algum pra quem a leva. E jamais haverá uma mochila mais adequada, que não prejudique a coluna, porque é impossível transformar a exploração criminosa em algo aceitável.


Sustentando o peso empurrando os ombros doloridos pra frente, desesperado, já que o sustento da família depende de cada entrega e se ela não for rápida a punição é certa, Evaldo se aproximava da sua casa. Reclamando da demora, sendo obrigado a acalmar sua esposa, que não tem paciência pra nada, você acompanhava o deslocamento do rapaz pelo capacete de motociclista se deslocando em um mapinha na tela do aplicativo. Capacete que Evaldo nunca usou porque nunca teve moto. Nem bagageiro ou salário digno, que permitisse que Evaldo passasse uma noite de sábado em casa, com a família. Que permitisse pagar a faculdade que Evaldo tanto queria fazer.


O entregador veio com medo, tinha sido assaltado quatro vezes no Vila Três, onde prometeu não pisar de novo na vida. Mas trabalho é trabalho. Além de precisar muito do dinheiro, que não é tanto assim, Evaldo era honesto demais pra rejeitar serviço por medo de ser assaltado ou morto.

No pé do morro, desistiu de pedalar. Nem atleta subia aquilo. Deixou a bicicleta na casa de uma senhora gentil que apareceu no portão bem na hora, por milagre, já era noite, e subiu a pé, Evaldo e a bolsa quadrada. No alto do morro, sem achar o endereço, o entregador te ligou. O GPS sempre indicava o local errado, agora Evaldo tinha que descer o morro sem aliviar o peso do refrigerante de dois litros e da comida. Descer não chega a ser mais fácil que subir, o que mudam são os pontos de tensão nas costas e nos joelhos.


Vendo você no portão, Evaldo desceu praticamente correndo, sorrindo, sempre na esperança de receber uma boa avaliação. Embora a noite estivesse fria, o rosto pingava e o corpo suava embaixo da camisa do Flamengo. Evaldo aparentava quase 50 anos de idade mas podia ser também um jovem cansado, maltratado pela luta diária, você nunca soube. Só agradeceu com um sorriso bem menos empolgado do que o do entregador que tinha acabado de pedalar quilômetros para trazer sua refeição. Sem máscara, você não teve sequer o cuidado de proteger Evaldo e a si mesmo. A temperatura da comida era sua maior preocupação.


Dentro de casa, abrindo o pacote, o aplicativo enviou uma notificação sugerindo incluir um adicional de 2 a 15 reais para Evaldo, integralmente. A ideia tinha passado pela sua cabeça antes de receber a notificação e você se achou especial por isso, um verdadeiro filantropo. Na verdade, se o aviso não tivesse aparecido na tela do celular, você nunca teria feito a doação. Hoje respondemos apenas ao celular e à vontade de cagar e mijar, que cumprimos com o celular na mão.


Você escolheu a opção de cinco reais, um nível acima do mínimo, pra não deixar dúvidas a respeito da sua intenção de ajudar. O equivalente a 15 pães franceses, calculou ainda antes de apertar o botão de confirmar. Se sentindo menos mal, menos culpado, segurou uma costela ao molho barbecue na mão, que tinha custado 90 reais, e começou a comer. Ainda estava quente.

Mário Lima Jr. é escritor.




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