Prevenir é melhor
- Jornal Daki

- 30 de jul.
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Jorge Rapá é meu amigo de infância. Gostava de pipas, balões, e todo tipo de brincadeiras de uma época sem computador, onde se inventava o que fazer. Fazíamos muita peraltice, como jogar pedras no cajaeiro da casa de d. Helena, pegar verduras na horta de seu Alziro e mais um monte de coisas que de vez em quando a vara de goiabeira cantava em nossas pernas.
Assim fomos crescendo e quando a adolescência chegou Jorge Rapá conseguiu uma vaga de emprego no cartório de um tio. Inteligente e esperto rapidinho começou a ganhar dinheiro. Com isso, usava as melhores roupas e também comprou um carro assim que fez dezoito anos. Jorge Rapá namorava muito. Houve época em que tinha três namoradas ao mesmo tempo.
Quando balzaquiou se casou, mas não sossegou. Tinha várias amantes, chegou a montar casa para duas delas, cada uma com carro e tudo do bom e do melhor. Fez um pequeno patrimônio e tirava a maior onda junto aos amigos nas pescarias de domingo e fazia questão de bancar o churrasco das quartas feiras depois do futebol. Jorge Rapá teve uma vida e tanto. Jamais o vi de mal humor ou demonstrando algum sentimento ruim por alguém.
Minha avó sempre dizia que “o que é do homem o bicho não come”. Não adianta correr porque o que tiver de acontecer com você, vai acontecer.
A filha mais velha de Jorge Rapá fez quinze anos e a festa foi concorridíssima, ele não economizou nas bebidas, desde a mais fina champanhe, o mais caro whisky até às cervejas artesanais servidas em canecas super geladas. Os amigos se esbaldavam no open bar, as mulheres cada uma mais bem vestida que a outra não saiam do espelho do toalete tentando fazer inveja umas para as outras e as crianças se acabavam de dançar na pista de dança. Foi uma noite inesquecível.
Quando os primeiros raios de sol contrastavam com as últimas gotas negras da noite dando um bonito avermelhado no céu e as gaivotas sobrevoavam as embarcações pesqueiras nas beiras de cais do Barreto à Praia da luz, Jorge Rapá foi encontrado a beira da piscina ainda com a roupa da festa, com um sorriso no rosto e olhando para o nada. Nunca mais voltou a realidade, a saúde do corpo era de ferro. O diagnóstico: demência.
Da noite para o dia, sem aviso, sem sintomas, meu amigo Jorge Rapá foi viver num mundo só dele. O que será que ele pensava? Onde estava? Ficou mais de ano assim, até para sempre fechar os olhos sem dizer palavra.
O sucesso vem, mas traz com ele muitas preocupações, muitos problemas. Talvez isso tenha desencadeado um curto circuito na cabeça de Jorge Rapá. Por outro lado ele estava feliz demais. Será que ser feliz demais também faz mal?
É preciso fazer exercício, cuidar do corpo, mas é preciso também cuidar da mente, procurar ajuda terapêutica, mesmo quando a gente acha que está tudo sob controle.
Que o caso de Jorge Rapá sirva de alerta para todos nós e que ele esteja em paz.
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.








































































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