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'Que a gente nunca mais precise importar o coração do colonizador'


Por Hélida Gmeiner Matta



Uma das frases mais impactantes do primeiro final de semana do Rock in Rio foi dita por um dos mais brilhantes artistas brasileiros contemporâneos. Leandro Roque de Oliveira, ou simplesmente Emicida, é sempre incisivo e implacável quando se trata de esbofetear a desigualdade e o racismo estrutural brasileiros.


O "coração do colonizador" a que se refere, é símbolo da falta de Diasconsciência, reforçada nos últimos dias pelo (des)governo brasileiro, que decidiu "comemorar" a nossa independência de forma mórbida, importando o coração conservado (sabe-se lá porque loucura) de Dom Pedro I, O colonizador que lutou pela "nossa independência", Independência administrativa, que mantinha a dependência do ethos colonizador.


Esses dois episódios associados me fizeram lembrar da BNCC e da Reforma do Ensino Médio.

Emicida levanta uma questão fundamental no currículo de História, contemplado inclusive na BNCC, a importância de descolonização da História, retomando a perspectiva do colonizado, escravizado e exterminado.


Para combater a estrutura formativa de sociedades como a nossa, fruto da colonização e, portanto, do colonialismo, gravame europeu, o descolonialismo se vincula à decolonização de uma sociedade que arrasta consigo as estruturas fundamentais de mantença da classe dominante, as quais, ainda hoje nos atravessa: a exclusão étinca social, disfarçada de cultura e transvestida de história fundante. O racismo - fruto do pensamento e política colonial - assim como o machismo, a cultura escravagista, são elementos dessa (boçal)colonialidade.


Ocorre que, diante da demanda crescente dos movimentos sociais pela decolonialidade, ao mesmo tempo mergulhados nas sinistras inferências do negacionismo, escola sem partido, anti cultura e etc., aprovou-se a Reforma do Ensino Médio que desobriga o ensino de História.


"Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la" já alertava Edmund Burke (1757). Portanto temos por desafio e imposição imediatas, lutar por rever a reforma como foi feita e, enquanto isso, fazer brotar a busca por esse saber no cotidiano do Ensino Médio. Provocar o interesse. Quem sabe incluir o estudo da obra de Emicida nas disciplinas que compõem o currículo obrigatório? Afinal, "tudo que nóis tem é nóis" (Emicida, 2019).


Colaboração: Raphael Negro


 

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Hélida Gmeiner Matta é professora da Educação Básica da rede pública. Pedagoga, Especialista em alfabetização dos alunos das classes populares, Mestre em Educação em Processos Formativos e Desigualdades Sociais e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender.





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