top of page

Retrato ao Luar... e à Luz do Dia

Por Mira Pimentel

 

Foto: Jornal Daki com IA
Foto: Jornal Daki com IA

Comecei o dia com Cecília Meireles.


Abri Retrato ao Luar e, como acontece com os grandes poetas, não encontrei apenas versos. Encontrei um espelho.


"Meus olhos ficam nesse parque..."


Fechei o livro por alguns instantes e deixei os olhos passearem pelo parque da vida real. Não havia luar. Havia filas, preços, contas e gente fazendo contas para sobreviver.


A poesia permanece. A realidade também.


Talvez por isso Cecília continue tão atual.


Enquanto ela deixa seus olhos nas flores, nós deixamos os nossos nas vitrines, nas prateleiras dos supermercados, no caixa da farmácia, na lanchonete de um hospital, onde um simples café pode custar quinze reais. Nos aeroportos, nas rodoviárias, nos teatros e em tantos outros espaços, os preços parecem crescer sem qualquer pudor, como se fossem fenômenos da natureza e não escolhas humanas que deveriam ser observadas, discutidas e fiscalizadas.


A cada dia, a sensação é de que vivemos num gargalo. O salário perde o fôlego antes do fim do mês. O trabalhador aprende a desistir em silêncio. Desiste da fruta, do cinema, da viagem, do livro, do café. E, quando a desistência se torna rotina, algo da dignidade também vai sendo levado embora.


Não basta trocar nomes na política. O que esperamos é uma forma diferente de governar: uma governança que caminhe ao lado da sociedade, aberta ao acompanhamento, à fiscalização e ao compromisso permanente com quem mais precisa.


Porque os nossos irmãos menos favorecidos não estão morrendo apenas de fome. Muitos morrem lentamente de abandono, de invisibilidade e da ausência de políticas públicas que transformem discursos em presença concreta.


Cecília escreveu que podia deixar "em palavras gravada num tempo constante". Talvez seja esse o papel da crônica: gravar no tempo aquilo que não podemos aceitar como normal.


Que o próximo capítulo da política fluminense seja escrito menos com promessas e mais com responsabilidade. Que governantes e cidadãos façam juntos a leitura do tempo em que vivem. Só assim poderemos iniciar uma governança verdadeiramente assistida, fiscalizada e comprometida com a vida de todos.


Afinal, um país não se mede pelo brilho dos seus palácios, mas pela mesa de quem tem fome, pela dignidade de quem trabalha e pela esperança de quem ainda acredita que a política pode voltar a ser instrumento de justiça.


Nos siga no BlueSky AQUI.

Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.

Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.



Mira Pimentel é cronista.

Comentários


POLÍTICA

KOTIDIANO

CULTURA

TENDÊNCIAS
& DEBATES

telegram cor.png
bottom of page