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RJ-104: quando o trânsito para, a cidade sangra

Por Mira Pimentel


Arte Jornal Daki a partir de foto de  Fabiano Rocha / Agência O Globo
Arte Jornal Daki a partir de foto de Fabiano Rocha / Agência O Globo

A RJ-104 não é apenas uma rodovia.


Ela é o pulso diário de São Gonçalo.


Por ela passam trabalhadores, estudantes, mães, idosos, sonhos apressados e cansaços antigos.


E é justamente quando esse pulso falha quando o trânsito trava que a cidade adoece.


Na bifurcação de Manilha, o cenário se repete como um ritual conhecido: paradas constantes, congestionamentos longos, carros imóveis.


E onde o fluxo para, a violência encontra espaço.


Assaltos, arrastões, medo.


Às vezes, morte.


Não é coincidência.


É gestão ou a falta dela.


O Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Rio de Janeiro (DER-RJ) existe para planejar, operar, fiscalizar e manter as rodovias estaduais.


Cabe a ele monitorar o tráfego, identificar pontos críticos, organizar intervenções, distribuir equipes, gerenciar seus funcionários e agir com a autoridade técnica que só a ele cabe.


Rodovia não se governa por reação tardia.


Rodovia se governa com monitoramento diário, presença constante e decisões preventivas.


A pergunta que ecoa entre quem vive a RJ-104 todos os dias é simples e incômoda: quem está olhando para os focos permanentes de congestionamento?


Quem está gerenciando, de fato, o caos previsível da bifurcação de Manilha?


E outra pergunta se impõe, quase em voz alta: guardas de trânsito servem para quê?


Apenas para multar?


Ou para orientar, organizar, intervir e prevenir?


Porque quando o trânsito flui, o crime perde terreno.


Quando os carros andam, o medo recua.


Quando há presença do Estado, há inibição da violência.


E quando não há ninguém, sobra oportunidade para quem vive do risco imposto aos outros.


São Gonçalo não pede milagres.


Pede atenção.


Pede planejamento.


Pede respeito.


E a população começa a entender que o silêncio também congestiona.


Por isso, moradores, trabalhadores e usuários da RJ-104 começam a se organizar, a conversar, a se articular.


Não contra alguém , mas a favor da vida.


A RJ-104 precisa voltar a ser estrada.


Não pode continuar sendo armadilha.


Porque toda vez que o trânsito para, alguém sangra.


E isso não é destino.


É escolha administrativa.


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Mira Pimentel é escritora e cronista.

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