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Salseiro no cemitério São Miguel - por Sammis Reachers


Foto: Reprodução Internet
Foto: Reprodução Internet

Foi no cemitério São Miguel, central em São Gonçalo, lar derradeiro de muitos de nossos amigos e parentes, quiçá um dia o seu, amigo leitor.


O ano era o dois mil e alguma coisinha. O da vez – não o defunto, mas o, digamos, “animador de velório” – um tal Banzé, antigo vendedor de roupas e miudezas, o conhecido e ainda não anacrônico mascate. Com o tempo fizera também as vezes de agiota, atividade margeadora da lei, mas muito bem quista pelos apertados da vez. Chegou para a despedida final de Totonho, mestre da sanfona e estimado dono de birosca, fulminado dia antes pela dengue hemorrágica.


Um abraço na viúva, aquel’olhadela regulamentar nas fuças do defunto, um aperto de mão neste e naqueloutro conhecido... Foi quando Banzé ouviu, em certa rodinha formada entre os enlutados, um cidadão que falava em tom sorrateiro:


– E a dívida é essa, minha gente. Nosso amigo – meu melhor amigo!!! –partiu e nem pras despesas do enterro deixou migalha. Era alma santa, sempre ajudando a todos, tocando seu forrozeiro, sua sanfonagem, de graça, vendendo pinga no fiado... Por isso eu peço a cada um de vocês essa pequenina contribuição para custear a despedida de nosso amigo, do nosso eterno Totonho.


Banzé apertou os olhos e mordeu os lábios, balançando a cabeça para ver se a cansada maquinaria espoucava. Será? O coração pulsou mais forte, mais ruim, Banzé nem chegou na rodinha e já foi chamando:


– Doutor Gilson??? Doutor Gilson??!!


Mas vamos a uma paradinha, amigo leitor, para dar vez ao clássico recurso narrativo dito flashback:


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O rolo teve parto lá no antigamente, nas bordas da hoje Favela da Linha, no bairro gonçalense de Rio do Ouro: Banzé, egresso de última leva do sertão nordestino, havia iniciado há pouco na atividade de mascate, e puxava seu burinho-sem-rabo lotado de roupas, panelas e redes.


A década era magra, quase perdida, e as vendas iam de mal a mais mal ainda. Aparando o sol com um boné surrado de campanha política (Moreira Franco Governador ‘86), mastigando poeira com as canelas finas por rua deserta, de poucas e incipientes construções, um berro do portão de um sobrado fez o mascate estacar. Era um possível cliente, chamando o vendedor. A área era ainda mais posse do mato do que de gente, e aquela casa, cuja construção aparentava ainda não estar finalizada, pareceu aos olhos do sertanejo um pequeno palácio de subúrbio. Mascate Banzé encontrou ali a realização, pois o dono do casarão, homem de seus quarenta anos, que se dizia engenheiro da Petrobrás de nome “Doutor Gilson”, comprou de cada item uns três exemplares, que eram para ele, para a casa de sua mãe, e também para certa teúda que o tal, “homem casado e respeitador”, sussurrou manter lá pros lados do Meia Noite, em profundezas de Santa Isabel.


O sistema desses mascates, amigo leitor, deve ser seu conhecido, pois ainda hoje seguem o mesmo modus operandi: A mercadoria ficava no fiado, e uma caderneta humilde ia recebendo as marcações a cada pagamento, que podia ser semanal, quinzenal ou por mês.

Foi com a carrocinha – da qual fazia as vezes de cavalo ou burro –

esvaziada que Banzé chegou na base, sorrindo de orelhão a orelhão. Na central de distribuição foi grande a surpresa do chefe, Paulete, que agenciava mais de trinta vendedores e logo celebrou Banzé como exemplo e funcionário do mês.



E veio o fim do mês. Banzé chama no portão do casarão. Era tempo de recolher a primeira parcela. Chama que chama e eis que uma bela senhora ou senhorita assoma ao portão.

– Pois não?


Era o vendedor, que vinha cobrar do senhor marido da senhorinha, “o Doutor Gilson”, a parcela das vendas.


Marido ela não tinha, nem Gilson algum conhecia. E homem na casa era só seu pai, setenta e tantos anos na cangalha. E o homem que comprara as mercadorias? Bem, realmente não havia ninguém com aquelas características no palacete. Confusão armada, Banzé esperneando até que o velhote deu as caras. Ouvida a história, o ancião alisou a careca pra cá, alisou a careca pra lá e bateu o martelo:


– Olha rapaz... Eu sinto muito em lhe dizer o que vou lhe dizer... Pelo jeito, esse cidadão que lhe comprou as mercadorias foi um tal de Sebastião, que estava trabalhando aqui como pintor. Digo Sebastião pois foi o nome que ele me apresentou. O sacana, depois de pegar a primeira parcela do pagamento, sumiu. E aqui da casa, que estava ainda vazia, ele levou os materiais de pintura que eu havia comprado, além de ferramentas e uma bomba d’água.


Meu sobrinho que é policial soube dele, pela descrição e modo de proceder, em outra freguesia, lá pelos lados do Saco de São Francisco, em Niterói; mas lá ele dizia chamar-se “Senhor Atílio, fiscal de posturas da prefeitura”. E tem mais: O mesmo elemento parece ter aplicado golpe em alguns políticos, se dizendo jornalista do Jornal O Fluminense e prometendo escrever matérias favoráveis, mediante módico pagamento. Nesta aventura o nome que ele utilizava era Abel alguma coisa. Assim, lamento lhe informar que o tal Sebastião ou Atílio ou Abel ou o diabo que o parta, o mesmo que me sacaneou, infelizmente sacaneou também o senhor, e utilizando a minha casa...


História triste desembalada, era Banzé comer o pedaço que conseguisse digerir e rumar de volta pra central, onde o chapéu de otário, feito de couro nobre da terrinha, além da dívida cabulosa, o aguardavam.


Foram meses trabalhando “de graça”, remoendo poeira e ódio, passando fome como na terrinha da qual se surrupiara.


*******


– Doutor Gilson!, continuou a gritar Banzé, recuperando um nome de duas décadas atrás. O ouvinte, fosse Gilson ou não, ou não ouviu ou se fez de rogado.


– Senhor Atílio, o fiscal da prefeitura de Niterói, é o senhor??? – berrou mais forte Banzé, mudando a nomenclatura e já abrindo caminho por dentre a pequena turba que sacava pingados e requenguelos para a inteira do enterro.


– Está falando comigo, cidadão?


– Oxi! Pois tô!, ô se tô!!! Não se lembra de mim, “doutor”?


– Não, não me lembro, e nem sou doutor, nem fiscal. Por acaso, meu nome é Hélio, e sou líder comunitário lá no Salgueiro. Conhece o Salgueirão?? – disse o arrecadador de inteira pra enterro, agora com o semblante algo acuado ao ouvir um segundo nome, e tentando já assustar o inoportuno pregoeiro.


– Pois me deixe lhe avivar a memória, Abel. Tenho uma boa notícia pro senhor.


A primeira tapanca estrondou nas fuças do envelhecido engenheiro da Petrobrás, logo seguida de um cortejo doutras bordoadas, curtidas por duas décadas de atraso e sol quente. A sessão de descarrego teve o inusitado de, a cada pancada desferida, o vingador Banzé endereçá-la verbalmente a uma das personas ou almas que habitavam aquela carcaça tinhosa: Um soco de esquerda pegando pela lateral desguarnecida do queixo foi nomeada dum “segura, Abel”, enquanto outro murro, um potente e estranho direito desferido de cima para baixo escorreu magoando a cara dum “toma essa, Hélio”, que cambaleou e foi ungido com um chute acima do umbigo, desta vez encomenda para um certo “Gilson, seu filho-da-#&$@”. O engenheiro ou fiscal de posturas ou jornalista ou líder comunitário mal teve tempo de acessar aquela de suas personas que fosse a mais valente, pois o conjunto dos tantos-em-um se esborrachou no chão, sendo amaciado a chutes e pontapés.


– 171, safado, filho duma quenga! Passei muita fome por tua causa, desgraça! – gritava o transtornado nêmesis exorcista, vermelho feito pimenta.


E choviam sopapos nomeados, uma tempestade deles, enquanto convivas se evadiam num desespero tal que até o pobre defunto – sacrilégio! – foi derrubado de seu ataúde, enquanto mulheres e crianças expandiam um berreiro de acordar alma penada, num fuzuê que o campo santo jamais vira.


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Na delegacia, levantou-se a planta daninha do pilantra. Nascido em Goiás, onde iniciara a carreira roubando gado, lá curtira breve cadeia, donde fugira justamente para o leste fluminense. Terra de pretensa malandragem, mas onde ele, cujo nome verdadeiro (?) era Cassiodoro Lopes Caiado, encontrara sempre desprevenida & farta manada de otários. Quem diria que, em terras fluminenses, seria um cearense da mulesta quem iria dar freio naquela carreira artística...

 

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Nascido em 1978 em Niterói, mas desde sempre morador de São Gonçalo, ambos municípios fluminenses, Sammis Reachers é poeta, escritor e editor, autor de dez livros de poesia e três de contos/crônicas, organizador de mais de quarenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa. Você pode ler textos, livros e conhecer outras obras e iniciativas do autor em: https://linktr.ee/sreachers