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Sensação no ônibus ABC - por Erick Bernardes


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Se o ônibus 408 da viação ABC era lugar para a cena que presenciei? Não sei, confesso que não sei. Nem me cabe aqui tomar partido. Julgue você se quiser.


O certo é que ficaram num grude só. Dizem, acerca dessa nova geração, que puseram fora as melhores expressões de sentimentos. Não saberiam mais os jovens demonstrar carinhos, suprimiram a sensibilidade. Entretanto, não é bem assim, a juventude de hoje tem afetos próprios, e pude sim observar que no mundo ainda existe apego. Mãos para cá e para lá, uma animação danada. Soma-se a isso certa indiferença com relação aos passageiros que entravam e saíam do veículo quase cheio. Eu podia perceber claramente, ali ao lado, o prazer sem medida para todo mundo ver e ouvir.

Foi na altura do Patronato onde o caso aconteceu, mas poderia ser em qualquer lugar. “A culpa é dos pais, que não sabem impor limites!”, dizia o motorista do coletivo com punho em riste por causa de toda aquela afetação. Risos, risinhos, gargalhadinhas aos montes. A menina sorridente se mostrava toda amorosa com ele, dava para notar de longe que foram feitos um para o outro, havia brilho nos seus olhos manhosos. Palavras sussurradas com esmero permitiam que os lábios, ainda com vestígios do batom lilás, tocassem-no levemente, enquanto os dedinhos sapecas roçavam-lhe os flancos lisos.

Levantei-me de súbito, estava tarde, necessário chegar logo em casa. Mas, antes de descer, por um instante de curiosidade, olhei bem de pertinho, sem pudor mesmo, a intimidade assim revelada tão antes da hora. Então... qual não foi a minha surpresa, quando me certifiquei de que a encantada adolescente talvez não tivesse nem bem chegado aos seus treze anos de idade, ostentava camisa do grupo musical BTS e lembrava uma bonequinha ostentando naturalmente certos ares pueris.


Contudo, assombro maior talvez terá você leitor. Surpreso mesmo ficará. Pois o alvo dos cuidados apaixonados, o chamego despretensioso a quem a mocinha se dedicava tão zelosamente, era o último modelo de um cobiçadíssimo telefone celular.

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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