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Shakespeare Gonçalense

Por Paulinho Freitas


SÃO GONÇALO DE AFETOS



Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Criança não tem maldade com as coisas. Vê o que acontece a sua volta, mas não percebe a maldade humana, pra ela tudo vai sempre ficar bem.


Hoje, ao passar pelo bairro Paraíso, encontro com um conhecido de longa data: Jorge Pereira. Brigão toda vida, calado, grande, forte e mal humorado. Tinha um inimigo mortal, um tal de Paulo Alves que morava na Rua Fontes. Aliás, as famílias se odiavam, uma disputa de herança de um, que o outro roubou, nunca entendi direito. Agora, depois de passado uns anos, está melhor de conviver, me deu até um abraço. Perguntei o que ele fazia ali, olhando perdidamente para o banco Itaú. Ele começa a me contar...


_ Aqui, há muitos anos atrás era o Banco Predial. Aqui, papai depositou cada tostão que ganhou durante sua vida. Chegou a ter dinheiro para comprar o bairro todo naquela época.



O problema foi que se apaixonou por Hilda Helena, ex-namorada de Paulo Alves. Este, além de não aceitar o fim do relacionamento, também não aceitava o fato de ela ter um relacionamento com um inimigo seu. Ainda mais um inimigo de morte. Paulo Alves também tinha muito dinheiro e podia competir financeiramente com papai. O problema era que meu pai era poeta, boêmio, sabia lidar e agradar as mulheres, enquanto Paulo Alves era só no poder do vil metal. Quando Hilda Helena estava com papai, um abraço dele a fazia desfalecer, o velho era poderoso no amor. Mas Hilda Helena não queria só metade do mundo, ela queria o mundo inteiro e sabia que papai era cidadão do mundo e mais cedo ou mais tarde iria procurar outro ninho.


Sendo assim, ela se bandeou pro lado de Paulo Alves e os dois armaram um plano para abocanhar o dinheiro de papai. Hilda Helena falou pro meu pai que conseguira uma procuração de Paulo Alves para tomar conta de todas as suas propriedades e as venderia barato para ele.  Papai estava realmente apaixonado por Hilda Helena, disposto a largar a viola e os versos para viver de decifrar em poesia aquele belo corpo, tocar os acordes da tablatura daquela alma que tanto amava e que só ele sabia ler.


Pegou todo o seu dinheiro e entregou a Hilda Helena para comprar todo patrimônio de seu desafeto e assim nunca mais ter que topar com ele perambulando pelo bairro. Ocorre que Hilda Helena fez a mesma proposta para Paulo Alves e abocanhou também toda a conta bancária e todo o patrimônio dele.

 

Uma noite antes de desaparecer para sempre, chamou meu pai para uma conversa e confessou tudo para ele, disse que o amava tanto que por ele morreria e disse a meu pai que se o amor dele por ela fosse verdadeiro, por ela morreria também. Ela estava com dois copos nas mãos, cheios de uma poderosa substância, um, ela entregou a meu pai e o outro sorveu de uma só vez. Não demorou muito tempo, seu corpo caiu sem vida ao solo. Papai, no desespero, bebeu todo o líquido do outro copo e logo seu corpo estava ao lado do dela. No copo de Hilda Helena só havia água e assim que meu pai caiu, ela se levantou e correu para os braços de Paulo Alves lhe fazendo a mesma proposta e ele teve a mesma atitude que meu pai. Coisas de homem apaixonado.


Só que no copo deles havia um poderoso sonífero e quando os dois acordaram, cada um em sua casa, ela já estava bem longe, lá em Arraial do Cabo, nos braços de um pescador vizinho nosso, que não vou citar o nome, pronta para mais um golpe.


Papai e Paulo Alves não esqueceram as rixas, mas bebiam juntos todos os dias, choravam as mágoas e a saudade de Hilda Helena. Durante o tempo em que esteve com Hilda Helena, papai, todos os dias pela manhã, abria a janela e gritava: _HILDA HELENA! EU TE AMO! E depois do acontecido, até o dia de sua morte, repetiu o mesmo gesto. Abria a janela, punha a mão no coração, olhava para o céu e gritava: PIRANHAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!

 

Oh meu São Gonçalo! Como te amo! 


Obs: Qualquer semelhança com nomes e fatos é mera coincidência.


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.

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