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Carnaval: o museu do amanhã dos afetos presentes

Por Fabiana Mesquita Dias e Rafael Negro Dias


Blocos Comuna que Pariu, Orquestra Voadora e Planta Na Mente. Fotos: Acervo pessoal
Blocos Comuna que Pariu, Orquestra Voadora e Planta Na Mente. Fotos: Acervo pessoal

“A vida não pode ser economizada para amanhã, acontece sempre no presente… Essa capacidade de sentir alegria é a essência da vida.” Rubem Alves


As escolas de samba estavam lá, brilhando como sempre, mas esse ano, os verdadeiros protagonistas foram os blocos de rua. Na contramão dos carnavais anteriores (perdidos entre festas corporativas excludentes e com foco no lucro), a raiz do nosso carnaval popular que havia se perdido, esse ano voltou.


Eram blocos para todes e todas as idades, com seus chamamentos e clamores pelo retorno do belo. O povo voltou às ruas, voltou a cantar, voltou a sorrir, voltou a se abraçar, voltou a se olhar com os corpos vibrantes e brilhantes, após momentos de/o terror que nos separou como humanidade necessitada de contatos e afetos.


Nesses últimos dias, a infância se fez presente na maturidade dos corpos, trazendo todas ou muitas lembranças e sensações vibrantes de quem só quer viver, sorrir e brincar. Os blocos de rua com seus foliões tornaram-se parquinhos brincantes a céu aberto por todas as ruas da cidade. Blocos como Bola Preta, Bloco do Zeca, Orquestra Voadora, Planta na Mente Comuna que Pariu, Que Pena Amor, e muitos outros, fizeram das ruas do Rio de Janeiro, um exemplo de como é possível fazer uma festa democrática com muito afeto a quem tem pouco ou quase nada na vida.


Bloco Gigantes da Lira/Foto: Instagram
Bloco Gigantes da Lira/Foto: Instagram

Muitas ruas, mesmo aquelas que no cotidiano são marcadas por vazio e violência, nos dias de carnaval foram tomadas de crianças pequenas, adultas e idosas, foliões ou trabalhadores, sambando e cantando no chão ou das janelas, aproveitando o momento de êxtase coletivo. Sim, eu vi garis, catadores de recicláveis, vendedores ambulantes, turistas e foliões como um verdadeiro “suco de povo”!


O professor e antropólogo Roberto DaMatta, em seu ensaio sociológico “Carnavais, malandros e heróis”, descreve o nosso carnaval como uma construção cultural e social que reflete através da dramatização, os problemas e dilemas básicos de nossa sociedade, que em períodos cotidianos nos passam despercebidos.


Cortejo do bloco de carnaval Planta na Mente/Foto: Acervo pessoal
Cortejo do bloco de carnaval Planta na Mente/Foto: Acervo pessoal

Daí a importância de entrelaçar o presente com o passado – e o carnaval enquanto festa popular faz isso primordialmente - vai além de questões do saber o que já se sucedeu, pois é o desvelar de respostas que buscamos de muitos porquês do cotidiano. O local como o macro é a totalidade dos micros locais, sendo uma única cidade repleta de histórias, almas e essências capazes de esclarecer indagações através da folia.


O carnaval é sim resgate da cultura de um povo, pois é na festa popular, que trazemos as memórias e os afetos das ludicidades que vivemos na infância. É nas infâncias que vivemos a leveza da liberdade de brincar e trocamos os sorrisos sem pretensões e compromissos da maturidade e responsabilidade da vida adulta! As memórias afetivas foram ativadas... tudo seguiu em paz, vimos e vivemos coisas extasiantes com o prazer dos sorrisos e das companhias.


Na educação popular, compreendemos que os espaços educativos estão presentes também fora da escola, pois o objetivo do educar é romper o tecnicismo e adentrar em uma dinâmica fluida, cujo aspecto mais importante é o desenvolvimento do ser humano para uma sociedade sustentável. Sendo assim, educamos para conhecer o mundo e os outros que convivemos, os processos de aprendizagens nos abraçam para abraçarmos a todos.


E o carnaval de rua com cortejos populares, cumpriram uma missão educativa importantíssima, que é (re)pensar a vida social através dos avessos do mesmo lugar.


Historicamente, o carnaval sempre foi palco de resistência social e política através da ludicidade, da irreverência, da subversão por vezes marginalizadas, empoderando excluídos e criticando a elite opressora. O samba e o cortejo, tão afro, tão povo, sempre se desvelou como a ciência política que denuncia as tramas do poder público vigente, e dá som ao clamor de quem sobe e desce as ladeiras da vida para pintar um país que não está no retrato.


Conhecer os espaços, suas histórias e memórias, são questões libertadoras e o carnaval de rua, proporciona o rememorar, transformando as vidas em museu vivo da história social. Isto é, o tradicional carnaval, para além da diversão, é uma aula histórica com pedagogias sociais. É contar a história de forma crítica e descolonizada, para compreender o presente e educar para o futuro.


Quero trazer à memória aquilo que me dá esperança, o que dá alegrias e o que traz boas lembranças! Agora, com as energias renovadas, feliz ano novo e que o carnaval de 2024 seja tão maravilhoso ou mais do que o de 2023. Sigamos, “sem ter a vergonha de ser feliz”!


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Fabiana de Mesquita Dias é integrante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em História da Educação e Infância (NIPHEI/UERJ), bolsista do Grupo de Pesquisa-Ação Pedagógica COLETIVO INVESTIGADOR, possui Pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior e graduação em Administração (UNIVERSO), graduanda em Pedagogia (FFP/UERJ) e integrante do Coletivo ELA (Educação Liberdade para Aprender) e colaboradora da Coluna "Daki da Educação", publicada às sextas.


Rafael Negro Dias é Analista de Projetos e Cientista de Dados. Superior Complementar em Psicologia do Desenvolvimento Humano (PUCRS), graduando em Ciências Econômicas (UERJ) e Historiador em formação (UCAM), bolsista voluntário do Grupo de Pesquisa-Ação Pedagógica COLETIVO INVESTIGADOR (UERJ), integrante do GAIEP-UERJ (Grupo de Pesquisa Geografia e Educação), e integrante do Coletivo ELA (Educação Liberdade para Aprender) e colaborador da Coluna "Daki da Educação", publicada às sextas.