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Desafios da formação de educadoras e educadores

Por Hélida Gmeiner Matta

Escola indígena em Nova Olinda do Norte, no Amazonas (Foto: Divulgação)
Escola indígena em Nova Olinda do Norte, no Amazonas (Foto: Divulgação)

A docência me acompanha pela vida inteira. Filha de professora, de escola pública da periferia gonçalense. Ainda menina, me aventurava em diversas experiências docentes, fosse em companhia da mãe, fosse por convite da escola em que estudava, que às vezes me chamava como "monitora".


Estar tão imersa nesse universo não embaçou a minha visão o suficiente, para impedir que eu pudesse me inquietar com a formação da/do professora/professor.


E essa inquietação dialoga muito com o que hoje representa um desafio à Educação brasileira. Formar educadoras/professoras (vou optar pelo feminino, respeitando a esmagadora maioria das mulheres, trabalhadoras na educação).


Em um país, cuja trajetória sociocultural se estabelece em profundas desigualdades, a formação da professora da escola básica desafia a si mesma, num looping infindável em torno dos dois projetos de sociedade que se confrontam cotidianamente. A emancipação X a manutenção do status quo.


Esse desafio foi intensamente abordado pelo mestre Paulo Freire. É tema mais que usual na academia, nas faculdades de pedagogia e nas licenciaturas. No entanto, ainda hoje, se vê o desespero de quem se compromete com a educação emancipadora, diante de posturas inconcebíveis de um número significativo de professoras na educação básica.



Quero aqui fazer uma pequena contribuição no sentido de apontar alguns dos meios usados pelo sistema para se manter, a despeito do empenho da universidade na formação docente.


Penso em três causas, na verdade, já identificadas anteriormente por várias pesquisas. A falsa elitização da carreira, as políticas públicas massificadoras e a falta de autonomia docente das escolas, em especial, a pública.


Há uma canto da sereia que nos engana, enquanto intelectuais, a nos imaginar elite. Ainda que conscientes de nossa pouca valorização profissional, há para muitos de nós, um distanciamento dos nossos estudantes, especialmente os pobres. Assim, para esses iludidos, o assistencialismo e a precarização não parecem incomodar. Falta-lhes empatia.


Já os limites impostos por manuais, métodos, BNCCs etc. amarram e acomodam o fazer docente, destruindo seu protagonismo, desconsiderando suas habilidades. Nesse caso, os que menos se ajustam, desistem e se afastam.


Assim também, o controle externo das gestões, seja dos governos, na educação pública, seja nos grandes sistemas privados, que aboliram a autonomia e a identidade das escolas. Os PPPs ajustados, feitos fora dos limites e sem o conhecimento da realidade de cada unidade escolar transformaram as professoras em fazedores. Soldados rasos na batalha. Quem tem o brilho para criar e gerir, acaba pleiteando outros postos, longe do front.


Explica, mas não justifica. Nós, professoras e professores do chão das escolas, precisamos tomar de volta a escola, e fazer dela outra vez, A Escola de Paulo Freire.


Revisão e Colaboração: Alba Nascimento.

 

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Hélida Gmeiner Matta é professora da Educação Básica da rede pública. Pedagoga, Especialista em alfabetização dos alunos das classes populares, Mestre em Educação em Processos Formativos e Desigualdades Sociais e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender.