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E não é que pode ser melhor?

Por Hélida Gmeiner


Foto: Bruno Eduardo Alves/Divulgação
Foto: Bruno Eduardo Alves/Divulgação

As redes sociais de escolas públicas, e mesmo de secretarias e fundações de educação, durante esse mês mostram colônias de férias incrivelmente divertidas e educativas.


Niterói foi um dos municípios que investiu nessa atividade como forma de aproximar os estudantes e garantir a alimentação escolar. Iniciativa importante há que se reconhecer. "Tô de férias na escola" é o nome do programa. Esse título expõe, mesmo que não se tenha pretendido isso, uma distinção entre esses cerca de 20 dias que as crianças estão vivendo, e os 200 dias letivos que estão para começar para os estudantes, logo ali, em 06 de fevereiro.


As imagens, mais do que me encantarem pela lindeza dos sorrisos e olhares curiosos, me inquietaram muito. Me coloquei no lugar deles. Deve ser estranho demais passar esses dias em ricas experiências, repletas de recursos quase ilimitados no mesmo espaço onde passa o ano letivo.



Material diverso, visitas à maravilhosas atrações. Música, jogos, aprendizagens múltiplas e consistentes. E olha que nem procurei saber sobre a alimentação oferecida…


É, mas dia 06 está chegando… e com ele a escola vai voltar a ser: escola! Já pensou na imensa frustração? Esse modelo de escola enfadonha, produtivista, distante do mundo contemporâneo, que nega sua própria origem (a saber: escola etimologicamente é lugar de ócio).


A escola era lugar de descoberta, de dedicar tempo a encontrar o saber, de viver a socialização. Pois então, a escola era bem parecida com essa, dos projetos das colônias de férias…


Mas agora, ainda carregando as amarras do iluminismo remoto, ela mais parece um lugar de aceitar os limites, acomodar inquietações, ajustar! E isso não se aplica apenas aos discentes, não.



Muitas e muitos colegas estão trabalhando no programa, também como forma de aumentar a renda. Sinal que a desvalorização é real. O trabalhador abrindo mão das férias, certamente não vai ter a qualidade do descanso.


Mas imagina só, o ano todo sem conseguir fazer aulas assim, com mais dinâmica, aulas-passeio, construção coletiva, arte, muita arte, muita atividade física… tanto as crianças, como professoras e professores, devem ter experimentado um paradoxo muito agudo. Que currículo terão adquirido? Será que perceberam?


Pensando outra vez no título do projeto, agora como currículo, incidental ou não, penso que dali se aprendeu que a escola real não é o lugar das férias. Mas nela é possível fazer coisas agradáveis e educativas, como nas férias. E que com recurso, projeto e incentivo, estudar poderia ser até melhor que as férias.


Mas o ano letivo vai começar … vai ter falta de professora, de material, de tecnologia. Nada de ônibus e de visitas aos espaços culturais… sem (ou quase sem), música e sem tinta. O tempo de brincar e correr será reduzido a cerca de 20 minutos, quando muito. E a gente vai ficar esperando as férias…

 

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Hélida Gmeiner Matta é professora da Educação Básica da rede pública. Pedagoga, Especialista em alfabetização dos alunos das classes populares, Mestre em Educação em Processos Formativos e Desigualdades Sociais e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender.




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