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Respeite a nossa história: igualdade racial não é favor, acesso à educação não é esmola!

Por Rafael do Patrocínio Dias e Fabiana de Mesquita do P. Dias


Foto: Divulgação internet
Foto: Divulgação internet

Cresci em uma família cristã, cujos princípios fizeram-me acreditar na fantasia de que somos todos iguais. E foi em uma escola - por ironia - pública, que entendi, aos 10 anos de idade, que a igualdade humana não passava de uma falácia, uma utopia religiosa. “Você, para um pretinho até que é inteligente, é limpo, cheirosinho. Ah! Mas ele nem é tão escurinho, mulatinho bonitinho.” Esse foi o diálogo entre duas professoras, que me levaram à primeira crise existencial, que me roubaram da infância a inocência. É a primeira lição da criança preta: não somos todos iguais.


Anos mais tarde, durante uma “crise” dos 30 anos, buscando novos ares, decido retornar a academia por prazer, com a esperança de contribuir para mudanças estruturais na sociedade, a partir da Educação. Entre encontros e palestras, ouvindo professores(as) utilizando estudos de Paulo Freire, Krenak e Boaventura dos Santos, falando sobre a importância de uma educação libertadora e decolonial, tenho um “déjà-vu”: não somos todos iguais...


“ – Professora, eu tenho realizado algumas leituras e pesquisas, você poderia me orientar na escrita de um artigo? (...)”


“– Não, Rafael! Eu não preciso de você para escrever, já tenho gente para isso. Eu preciso de você para cuidar das coisas de informática. É para isso que eu te pago. Vamos continuar assim, de vez em quando você me dá algumas aulas, e vai nos dando suporte nas coisas de google.”


Esse ano comemoramos 12 anos da Lei 12.288/10 (Estatuto da Igualdade Racial) que foi destinada a garantir às populações negras e aos povos originários, igualdade de acessos e de oportunidades, inclusive na Educação. Desde a promulgação da lei (no governo Lula) com a instituição das cotas raciais, os avanços são notórios, hoje, mais de 50% das matrículas, nas universidades públicas, são de pessoas negras ou indígenas. Vale lembrar que neste país, um dia houve lei que impedia o acesso de pessoas negras nas salas de aula de escolas públicas.


Sim, o primeiro sistema de cotas, garantia 100% das vagas as pessoas brancas (lei 1 de 14 de janeiro de 1837).


Entretanto, na Universidade (academia), que é um lugar de poder e de produção de sentidos da vida material, onde se formam as elites da sociedade (desde o período colonial), percebo que a representatividade horizontal não basta. Onde estão os professores(as) e diretores(as) negros ou indígenas nas universidades? Precisamos que os povos historicamente excluídos, estejam nos cargos de decisão. E se a reitora da universidade fosse uma mulher negra ou indígena?


Após o déjà-vu, me encontro em trocas de mensagens com minhas amigas e irmãs de cor e classe, Edir e Alba; mulheres pesquisadoras e profissionais da educação, com histórias potentes - daquelas que lubrificam os olhos da alma e forjam o corpo para a resistência e luta. Edir diz que “Ser mulher negra na educação é reconhecer que só escolarização não garante a ocupação deste espaço”, que durante o processo seletivo precisou “debruçar-se nas referências "25 horas" por dia! Isso, para compensar a diferença socioeconômica histórica que restringe o acesso aos bens, inclusive a uma educação de qualidade.”. Alba começa externalizando sua dor “...ainda dói lembrar todos os boicotes e perseguições que sofri enquanto diretora. Que, segundo os parceiros, eram ‘coisas’ que só eu enxergava”. Silêncio, interstício, e Alba me via sua percepção sobre ser mulher negra na educação, em forma de poesia:




“Nascer mulher neste país já é um desafio.

Nascer preta, uma resistência

Nascer pobre, sobrevivência

Escolher ser professora, determinação.

Ter um desempenho satisfatório, inveja

Assumir cargo de chefia, teimosia!

Ser empoderada, metidez!

Ter seu patrimônio, desonestidade!

Assumir um filho sozinha, promiscuidade.

Vida de mulher preta, pobre, professora… É luta cotidiana.

Sempre tendo que estar à frente, debruçada nos estudos,

tentando mostrar as habilidades e capacidades!

A resiliência nos mantém de pé em busca de um empoderamento coletivo.”


Não há concessão da elite privilegiada, eles nos aceitam nos espaços de educação, mas não nos querem nas posições de decisão e de produção. Somos e estamos, porque resistimos e lutamos, na educação e na política. Foi assim no passado com Lima Barreto, Dandara, Zumbi, Luther King, Marielle Franco, Nelson Mandela, José do Patrocínio... Também tem sido no presente com Benedita da Silva, Raquel Barreto, Sônia Guajajara, Gleice Ferreira, Edir Tereza dos Reis, Alba Nascimento, Ronilson Pacheco, Mariza de Paula, Andressa Carmo, Yamim Lobo Ivanir dos Santos, André Tinoco, e muitas outras pessoas pretas e indígenas, que através da educação e cultura lutam por transformação.


Dias atrás, dentro de uma universidade pública pioneira na utilização de cotas como reparação histórica de acesso às populações excluídas, uma estudante negra foi assediada por uma outra estudante branca com palavras em tons de insulto: “já foi buscar sua bolsa cotista?”. Assim é a vida diária das pessoas negras e indígenas que estudam neste país. E não basta sermos os melhores, estamos sempre tendo que provar que somos humanos, e mesmo quando nos destacamos em determinada disciplina ou função: ainda assim, não é bom suficiente.


Esse ethos do “privilégio branco”, excludente e opressor, é o racismo estrutural e institucional, que busca inviabilizar e invisibilizar estudantes e professores negros e negras que estão produzindo na academia.


Do chão da escola, ao auditório da universidade, o racismo e as desigualdades são implícitos e explícitos, e não deixam dúvidas sobre a falta de igualdade. Nós, homens e mulheres de cor, não temos das pessoas brancas racistas ou da elite deste país, qualquer benevolência, somos e existimos – ainda – por atos e ações de resistência, nossos e de nossos ancestrais. E se estamos nos ambientes de Educação, seja como estudantes, professores, coordenadores ou pesquisadores, não foi por qualquer favor ou esmola: é luta!

 

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Fabiana de Mesquita do P. Dias, é bolsista do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em História da Educação e Infância (NIPHEI/UERJ), possui Pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior e graduação em Administração (UNIVERSO), graduanda em Pedagogia (FFP/UERJ) e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender


Rafael do Patrocínio Dias, é Analista de Projetos e Cientista de Dados. Superior Complementar em Psicologia do Desenvolvimento Humano (PUCRS), graduando em Ciências Econômicas (UERJ) e História (UCAM), membro do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender e colaborador da Coluna "Daki da Educação", publicada às sextas.