top of page

A história do descaso contada pela lama - por Erick Bernardes


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Se recordo bem, já ofereci aos meus leitores crônicas sobre história, geografia, geologia, sociologia e até um meio termo entre ficção de horror e realidade. Faltava-me, entretanto, dar um texto sobre ecologia misturada a assuntos de química orgânica e inorgânica, e por esse motivo desejo hoje efetuar o desafio.



Concordo que uma crônica por si só já é um texto híbrido, isto é, misturado, emaranhado de assuntos, capaz de conter estilos diversificados. Mas... e se eu disser que quero agora falar de novo da Ilha de Itaoca, referir ao seu chão contaminado — onde já abrigou um lixão — e revelar que cada camada de lama depositada no fundo do seu canal pode ser vista como uma dos muitos testemunhos onde os metais pesados despejados no passado e carregados pelo chorume transmitem atualmente informações importantes, se forem lidas como um enorme livro de história? Pois é, um “grande livro” criado por Deus chamado Itaoca, uma das ilhas pertencentes ao espaço do que se convencionou nomear de Recôncavo na Guanabara, bem aqui em São Gonçalo. Basta ao estudioso abri-lo (o livro metafórico chamado Itaoca) e traduzir suas evidências, transformando cada camada do sedimento retirado do canal imboaçu em um substancial laboratório de estudos científicos. Uma pesquisa bem feita correlaciona datas de intervenções humanas bastante nocivas à natureza. São "páginas e mais páginas" extraídas das camadas do sedimento do Rio (ou canal) Imboaçu cuja análise dos metais pesados contidos nas amostras da lama oferecem evidências acerca dos períodos da história de SG contados através das suas muitas camadas, as quais, grosso modo, podemos apelidar de capítulos.



De acordo com informações da palestra cujo link você encontra no rodapé dessa crônica, antes de Itaoca comportar o lixão outrora famoso, na década de cinquenta, mais ou menos, a atividade das olarias das proximidades contaminava a região com hidrocarbonetos resultantes da queima de paus-de-mangue usados no cozimento de telhas e manilhas nos fornos de cerâmicas industriais. Esse começo de degradação do ecossistema não poderia ser “lido” como uma grande introdução nessa narrativa figurativa contada pelos contaminantes? Daí por diante, novos capítulos seriam registrados na história da ilha gonçalense. Contudo, dessas variadas informações interpretadas pelas análises dos poluentes, dois níveis sedimentares (camadas de lama do fundo do canal) combinam com datas específicas de quando duas grandes enchentes aconteceram em São Gonçalo: uma ocorrida em 1966, época cuja ponte do Rio Alcântara fora arrancada e sua correnteza obviamente levou dejetos para os canais mais próximos, até fechou fábricas importantes para a economia local, e outra enchente na década de oitenta, acarretando também prejuízos ao município.



No entanto, de modo geral, pode-se afirmar que, durante décadas de sua história, o lixão — depois transformado em aterro controlado — foi o verdadeiro responsável por lançar no ecossistema inúmeros metais pesados como mercúrio, não raramente oriundo das lâmpadas tubulares que no passado tanto sucesso faziam. O chumbo, o cádmio, o cobre, dentre tantos outros poluentes também foram bastante presentes por causa do descarte de lixo. A essas evidências materiais a ciência denomina testemunho sedimentar.


Em suma, notou que esse “grande livro” chamado natureza por hora não tem conclusão? Ainda não há, cada linha do passado só afirma a incapacidade humana de lidar inteligentemente com seus rejeitos no presente. E sabe por que essa história ainda não fechou? É porque nós mesmos somos os atuais responsáveis por escrevê-la, ainda que relutemos.


Assista ao vídeo sobre o assunto: https://youtu.be/7u_cqdnXmwM



Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



POLÍTICA