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Diálogos possíveis, conversas nem tanto - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Arte Jornal Daki
Arte Jornal Daki

Encontrei Diógenes e Cecília, sua esposa, fazendo compras num mercado atacadista de nossa cidade. Já estranhei por aí. Ele só fazia compras nos supermercados da Barra da Tijuca. Depois de um abraço e muitos palavrões exclamados pela saudade que ambos sentíamos um do outro e enquanto nossas esposas nos olhavam como mães vigiando crianças levadas prestes a saírem fazendo algazarra mercado adentro, Diógenes começou a falar:


_ Irmão eu quebrei! Foram dezesseis anos “d’aquele governo” enganando a gente. Tinha dinheiro, eu mesmo tive quatro carros, viajava em férias todos os anos, quarenta funcionários bem remunerados, matéria prima importada e paga à vista, meus filhos se formaram e os filhos dos meus funcionários também, todo mundo estava feliz, mas ninguém sabia da corrupção que estava acontecendo por debaixo dos panos, foi preciso o Brasil acordar para uma nova realidade, quando a parcela inteligente da sociedade viu correu atrás, foi à luta, foi pra rua, lutou por liberdade, por justiça e os tiramos de lá. Agora sim o Brasil está em mãos honestas e andando pra frente. Tudo está melhorando, não acha?


Cocei a cabeça, Olhei em volta, os carrinhos de compras à meia bomba e o mercado vazio em plena entre véspera de dia das mães e perguntei pra ele:


_ O que está melhor irmão? Onde estão as mãos honestas e este Brasil que você está falando:


Diógenes me olhou com olhos enfurecidos, ficou vermelho feito um tomate maduro e começou a gritar, vociferar:


_ Você está maluco? Não viu o que eles fizeram com este país? Era um ninho de corrupção, uma pouca vergonha, o moral e os bons costumes indo para a vala! Uma Sodoma e Gomorra contemporânea! Você se virou pro lado deles? Me responde, você também é comunista?

Entre espantado e com medo de levar um jab de esquerda respondi:


_ Irmão, eu tenho as duas mãos, não sou direita e nem esquerda. Sou povo. Só queria que você me dissesse uma coisa, só uma coisa boa que este país está recebendo. Não vamos falar de passado porque passado não realiza, o que realiza é o agora, o presente.


Diógenes só faltou subir no carrinho de comprar para vociferar:


Acabou a corrupção no país! Já viu os índices? Ninguém do governo está sendo investigado! As coisas começam a acontecer! Nosso país é respeitado lá fora e se não for a gente mete bala! Acabou a farra com o dinheiro público! Agora, o povo tem que dar sua parcela de contribuição. Aumento de salário agora não dá, os preços vão demorar a cair, o dólar tende a aumentar, os ricos vão ficar mais ricos e os pobres mais pobres, mas é uma situação momentânea, o empresário precisa crescer para depois dar emprego e um salário melhor, o povo precisa saber esperar a vez dele pô! Quer comer carne todo dia? Trabalha mais! A mulher quer o mesmo direito que os homens têm, mas sabem que não podem, elas engravidam, menstruam todos os meses, é TPM, cólicas terríveis e essas coisas que atrapalham a produção. Não dá né!



Eu fiquei espantado com o comportamento do meu amigo, sua esposa sumiu por entre os corredores, talvez procurando um remédio para baixar a pressão dele, uma vez que ele vociferava e ficava vermelho e com os olhos esbugalhados na intenção de me convencer de que tudo está bem e vai melhorar. Bati suavemente no rosto dele em sinal de que entendi o que ele queria dizer e fui terminar minhas pequenas e necessárias compras. Ele continuou falando como se estivesse num púlpito sendo reverenciado por milhares de pessoas. Ainda o vi na hora de pagar suas compras gritando e conclamando o povo para a guerra que ele diz estar por vir:


_ Vejam só, um quilo de cenoura R$ 15,00 isso é coisa daquele governo corrupto que deixou essa herança maldita, o custo de vida não vai baixar enquanto não nos livrarmos dele, vamos todos para as ruas pedir intervenção militar e liberdade de expressão!(?) Vamos vestir verde e amarelo! Chega de roubo! Chega de canalhice! Chega de corrupção!


As pessoas do mercado olhavam sem entender o que estava acontecendo. Na saída do supermercado havia uma blitz e Diógenes foi parado, quando o policial pediu os documentos do carro e a habilitação, verificou que os documentos estavam fora da validade e a carteira de motorista vencida há mais de um ano. Diógenes rapidamente tirou cinquenta reais do bolso, colocou dentro da carteira onde estavam os documentos atrasados do carro e cochichou com o policial:


_Aí irmão, um café para esquentar este vento frio desta tarde de outono, “sou da casa!”.


O policial todo molhado de chuva e já estressado pelo cansaço do trabalho pesado e mal remunerado olhou calmamente para o Diógenes, chamou seu companheiro de patamo e falou:


_Ô Silveira! O cidadão aqui está nos oferecendo gentilmente cinquenta reais para tomarmos um café, ele disse que é “da casa”, pega ele e os cinquenta reais, vamos levá-los lá para a 74ª DP e entregar ao delegado, que deve ser o dono da casa dele.


Diógenes ainda tentou se explicar, mas não deu. Quando ele se exaltou a coisa ficou pior ainda, foi posto na caçamba e levado para ser enquadrado por corrupção ativa enquanto sua esposa, a Cecília transferia as compras para um carro de aplicativo e depois o carro de Diógenes foi rebocado para o depósito público.


Por chegar à delegacia alterado dizendo que o “guarda” que o prendeu era um bosta, que a delegacia era um chiqueiro e que o delegado era pelego comunista, Diógenes foi recolhido ao xadrez e aguarda audiência de custódia.


Comigo o diálogo foi possível, já a “conversa” com os policiais, nem tanto...


Não importa se você é de direita, de esquerda, de centro, de cima ou debaixo. Seja sincero, seja honesto, deseje o bem ao seu semelhante, faça o bem sem olhar a quem, não julgue a ninguém. Não acuse sem conhecimento de causa e não defenda o que não tem defesa.


Se não puder fazer tudo, faça o pouco que pode da melhor maneira possível. Faça pelo mundo o que o mundo não pode fazer por você. Respeite para ser respeitado, seja melhor do que parece e será maior do que merece.

 

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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.