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Fazenda Nossa Senhora do Rosário: precursora do Engenho Pequeno - por Erick Bernardes


Fonte da foto: Redescobrindo São Gonçalo
Fonte da foto: Redescobrindo São Gonçalo

O melhor lugar de reunião e fofocas era a sala de jantar, que, através do portal alongado, permitia a visão da enorme cozinha da propriedade do Brigadeiro Miguel Frias. Exatamente, cozinha de fazenda é assim, extensa e arejada para bom proveito de todos. Pelo fato de conversarem em alto tom, mesmo estando separados em cômodos diferentes, eles se entendiam. Fosse sentado sobre os montes de lenhas ajuntados ao pé do fogão, fosse sobre a roda do moinho de farinha, ou em cima dos bancos de pau-ferro que circundavam a mesa, o grupo escutava atento o parolar do peão mais velho da fazenda; um caboclo desinibido e conversador.


Era meado do século dezenove, época de fartura no casarão e acordos entre a família imperial e o Brigadeiro Frias. Sim, verdade, aquela propriedade que viria a formar o bairro Engenho Pequeno recebeu mesmo como hóspedes o Imperador Dom Pedro II e seu séquito, e que escutavam com atenção a narrativa do peão palrador:


— Pois é, senhoras, senhores e Vossa Majestade, foi aqui mesmo, tempos antes, por volta de 1700, que o Sr. João de Araújo Caldeira deu ordem para a construção de uma capela em honra à Nossa Senhora do Rosário. Minha avó mesma, que era mucama desta casa, foi quem me contou.


— Mas ele se apegou a esta região cheia de mato? (Perguntou o Imperador)


— Sim, claro. O coração batia forte por essas plantações, se alguém falasse mal desse chão, causava a ele sério desgosto. O Brigadeiro Araújo Caldeira era apaixonado por aquelas terras onde descia a belíssima Cachoeira da Tenda. Formava-se um curso d'água de respeito, impossível não se encantar com o véu de espumas que escorria pelas rochas lambuzadas de limo. Coisa linda de se ver.



Bem, a história perpetuada pelo velho peão de confiança de fato condizia um pouco com a verdade. Mas a vida real nem sempre é tão romântica assim. Explico: é que antes da família Frias de Vasconcelos adquirir a doravante fazenda Engenho Pequeno, suas terras se chamavam Nossa Senhora do Rosário, por causa da capela de igual nome. Porém, tão logo seu primeiro proprietário faleceu, a esposa vendeu urgentemente a propriedade. Seria a lembrança do marido a lhe trazer nostalgia a causa da venda das terras de lá? Não sei, melhor nem especular, nada de fofoca histórica.


De acordo com Maria Nelma C. Braga (2006, p. 118), essa região contava com “uma área de 7.7800.000 m²". Seus primeiros proprietários foram o Sr. João de Araújo Caldeira e sua esposa Maria Pereira que, antes de 1700, mandaram “construir a capela de N. S. do Rosário. Lá pelos idos de 1722, Dona Maria já viúva do seu amado vendeu as terras para os Frias de Vasconcelos.


O certo é que a nova família proprietária da fazenda trocou o santo de devoção. Se antes era Nossa Senhora do Rosário o orago da capela que lá havia, daí por diante a capela passou a se chamar Nossa Senhora da Conceição. Dito e feito, aliás, é até hoje o nome da igreja existente no bairro Engenho Pequeno.


Fonte da citação: BRAGA, Maria Nelma Carvalho. O município de São Gonçalo e sua história. Niterói, RJ: Nitpress, 2006.

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.





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