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No princípio eram os açorianos em São Gonçalo - por Erick Bernardes


Imagem: Pixabay
Imagem: Pixabay

Não nego a você, caro leitor, que a princípio pareço ter o dom de atrair histórias curiosas e improváveis. Alguns leitores afirmam: “É certo, você deve ter ímã pra atrair casos singulares”. Outros comentam: “Essas coisas te procuram, Erick, necessário reconhecer, só você pra achar essas memórias”.


Consultando então meus botões, será mesmo o acaso o responsável pelos mais estranhos enredos desses textos dominicais? Melhor nem responder, pois domingo passado aconteceu um fato curioso na feira livre do Rocha, em São Gonçalo:


— Tainha e corvina, baratinho tenho cá. Se quiseres, faço promoção!


Ora, nada como uma frase em português lusitano lançada assim no ar para chamar a atenção. Parei: “A tainha tá bonita, hein. O senhor é de que lugar de Portugal?”.


— Açores, mas já moro no bairro há 9 anos.


Bem, desnecessário informar que a conversa durou mais do que o vendedor de peixe queria. É claro, atrapalhei o coitado com as vendas na banca. Impertinência de cronista, reconheço, impossível não admitir. O Tal imigrante afirmou ter ocorrido uma evasão enorme de habitantes dos Açores vindo morar no Brasil desde os começos da colonização. Isso até os livros explicam. “Os Açores em Portugal ficam localizados no nordeste do Oceano Atlântico, a 1.206 km de distância da Ilha da Madeira e a 1.643km de Lisboa (...) As ilhas foram formadas por atividades vulcânicas há mais de 8 milhões de anos (...) Pertencentes à República Portuguesa, a região autônoma também faz parte da União Europeia” (CORRÊA, 2020, s/p).



Recordo também das aulas de História do Brasil no colégio, os primeiros imigrantes provenientes das Ilhas dos Açores, Portugal, chegaram no começo do século XVII, com apoio do governo português, para morarem e cultivarem as terras tupiniquins. Os açorianos aportavam aqui visando condições mais humanas de sobrevivência. Se lá, em sua terra natal, o solo esmaecera em questão de fertilidade para a agricultura, aqui abundava a “terra boa”, conforme os relatos dos primeiros imigrantes chegados de além-mar.


Viu aí? Até aqui tudo bem, e o peixeiro português da feira emendou:


— Meu pai comentava conosco em dias de festa, seus avós e bisavós vieram para cá, inclusive para São Gonçalo. Metade da família ficou lá nas ilhas, a outra parte instalou-se junto às praias ao redor da Baía de Guanabara e nas fazendas que haviam por cá. Nunca ouviu falar das barracas de peixe dos portugueses na Praia de São João? E o mercado Açoriana, a Padaria do António Tino e o Armazém Sumos, todos do Engenho Pequeno? Mas a maioria que foi trabalhar na lavoura perdeu contato com os outros.


Pronto, está formada a conexão. O ímã de histórias referido pelo leitor atrai mais uma narrativa que parece ficção. Explico. Lembremos que, na crônica passada, falamos sobre o comerciante inglês John Lucook, segundo o qual passou por São Gonçalo e registrou romanticamente nossa natureza e nossa gente. Um pequeno trecho aparentemente de pouca relevância – mas eu disse só aparentemente – refere ao nosso futuro município:


“Existem cerca de duzentas casas, das quais a maior parte pertence à gente dos Açores ou a descendentes dele que, embora residindo em seus sítios, para ali vem por ocasião das festas religiosas. São notavelmente civilizados e ordeiros, de tal maneira que fazem do local um dos mais agradáveis do país” (LUCOOK, p. 204).


Como se percebe, os açorianos se espalharam e cultivaram as terras gonçalenses. Juntavam-se em comunidade durante as festas da futura Igreja Matriz de São Gonçalo de Amarante. Uma beleza de descrição do inglês, não é? E encerro a história com as palavras do viajante acerca da nossa gênese fluminense ecoando na mente: “civilizados”, “ordeiros”, “dos mais agradáveis do país”.


Referências:

CORRÊA, Amanda. Eurodicas.com.br https://www.eurodicas.com.br/acores-em-portugal/ Acesso em 23 abril 2020.

LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte, São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1975. (Reprodução facsimilar da edição publicada em 1942 pela Livraria Martins Editora).

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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