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O começo de SG sob olhar de John Luccock - por Erick Bernardes


Foto de capa do livro: Reprodução autor
Foto de capa do livro: Reprodução autor

O inglês John Luccok aportou no Brasil com vistas a enriquecer, assim como faziam inúmeros viajantes nas colônias mundo afora. Comerciante experimentado, embrenhou-se pelos arredores — inclusive pelo Rio de Janeiro — e, pasmem, por São Gonçalo também, já vão lá quase três séculos de história.


A descrição romântica da natureza local encontrada nos escritos do referido inglês se explica pelo contexto em que o diário do comerciante foi elaborado. Claro, época mesma de romantismos no modo de narrar. Por exemplo, a forma característica de como descreve o dia em que ele e seu amigo caçaram um passarinho: “Atiramos (em) um pássaro vermelho chamado sabiá, cujas notas são cheias de melodia. Conquanto, malferido, entoou um canto, prolongando-o quase até o seu momento supremo” (LUCCOK, 1975, p. 204). E o diário virou livro, vindo assim a cair em nossas mãos. Que maravilha! A semelhança com as descrições dos maracujás nativos e colibris coloridos de José de Alencar não configura resultado do acaso. É traço de estilo, isso sim. Perdoem-me a comparação:


A tarde ia morrendo.

O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que iluminava com os seus últimos raios.

A luz frouxa e suave do ocaso, deslizando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de púrpura sobre a folhagem das árvores.

Os espinheiros silvestres desatavam as flores alvas e delicadas; e o ouricuri abria as suas palmas mais novas, para receber no seu cálice o orvalho da noite. Os animais retardados procuravam a pousada; enquanto a juriti, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.

Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol, e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda, e ceder à doce influência da tarde (ALENCAR, 1996, p. 28).


Foi um narrador também exemplar aqui nos trópicos o tal inglês viajante. Em vez de Guaranis e Iracemas, o comerciante relatou aventuras de si próprio nas terras de papa-goiabas. Mas sem antes deixar de descrever os caminhos tropicais por onde precisou atravessar, no intuito de pernoitar em território gonçalense.


Esse filho da Inglaterra saindo de Praia Grande (futura Niterói) envereda por "uma outra estrada, que sai bordejando o mar e em seguida se mete pela terra adentro, (que) leva a São Gonçalo. Esse caminho é bem cultivado e agradavelmente ponteado de pequeninas fazendas" (LUCCOCK, 1975, p. 204).



É importante ressaltar o olhar apurado que o narrador estrangeiro tinha para a nossa cidade "bem localizada, em terreno montante, perto da extremidade norte das montanhas de Caaraí", atual Icaraí (Ibidem). Vai pelos detalhes da contação da história, talvez nem ele soubesse da importância de registrar sobretudo a fundação daquela que é hoje a Igreja Matriz São Gonçalo de Amarante: "Uma igreja velha e miserável que se ergue no meio da rua dentro em pouco será sobrepujada por outra nova, já bastante adiantada por seu arquiteto" (Ibidem).


Incrível o poder da observação de alguém vindo de fora, não é? A análise da imagem da primeira construção eclesiástica indica a percepção futura da atual igreja central municipal.


Contudo, talvez o mais interessante seja o registro de um dos primeiros povoamentos gonçalenses composto por centenas de descendentes das Ilhas dos Açores cujos comportamentos se revelaram muitíssimo educados e simpáticos. Isso sim é digno de investigação. Qual estudioso do assunto se fixou na ideia de açorianos na base da formação do município gonçalense? Pois é, veremos mais sobre isso.


Nota: Agradeço ao Biólogo Fernando Neves Pinto pela sugestão de tema, quando já pela noite, via internet, enviou áudios e fotos do livro acerca do referido viajante inglês.


Referência:

ALENCAR, José de. O guarani. 20ª ed., São Paulo: Ática, 1996.


LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte, São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1975. (Reprodução facsimilar da edição publicada em 1942 pela Livraria Martins Editora).

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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