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O final nunca é feliz - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Ilustração: Matrix sem Máscaras
Ilustração: Matrix sem Máscaras

O sol já mordia a nuca daquela manhã de domingo empurrando-a dia adentro. Da quadra do GRES Unidos do Porto da Pedra, os amantes do bom samba e componentes da escola despediam-se de mais uma final de sambas de enredo. Os campeões saíram cantando seu samba, as parcerias que não alcançaram a vitória bebiam suas mágoas pelos bares ao redor.


No meio do povo um olhar me chamou atenção. Eram os de Catarine. Conheci adolescente, passista da escola, responsável pelos mais belos sonhos e banhos demorados dos meninos da bateria. Ela e seus lindos olhos grandes e negros, um corpo falso magro, de cintura esguia e um sorriso de fazer monge perder a concentração e muito intérprete errar a letra do samba e o caminho de casa. Com sua inseparável amiga Nataly infernizavam a vida das outras meninas que morriam de ciúme dos namorados quando estavam perto delas.


A administração do sucesso requer muita habilidade e aquele sucesso todo e aquela bajulação acabou levando as duas lindas meninas aos programas e às casas de massagem. Uma vida de lucros grandes, mas de trabalho e sacrifício demais para o corpo e para mente.


Um gringo se encantou com Nataly e não sossegou enquanto não a carregou para o exterior. À princípio para um casamento dos sonhos e uma vida de princesa. Porém, o que aconteceu foi que Nataly foi obrigada a se prostituir e a satisfazer os caprichos mais imundos daquele submundo.


Da última vez, num dos mais lindos e altos edifícios do mundo, numa cobertura luxuosa, aquela que pensou morar com seu príncipe encantado que se transformou num sapo horrendo logo após chegarem ao exterior, foi forçada a participar de uma noite de orgia sexual e drogas. Lá pelas tantas da madrugada, drogada, usada e descartada como uma lata de bebida jogou-se pela janela para dormir e sonhar ser feliz. Para sempre dormir, para sempre sonhar.



Catarine teve outro rumo. Casou-se com o dono da terma e passou a dar as ordens. Ao invés de ser solidária com as antigas companheiras se tornou o maior pesadelo para elas. Exigia porcentagens cada vez mais altas e cobrava até o uso das toalhas de banho fazendo-as eternas devedoras, portanto, presas para sempre às suas vontades.


Ocorre que todo bônus vem com um ônus e para ela não foi diferente. Acostumou-se ao dinheiro fácil, às joias, festas e viagens. Por cada vez querer mais foi tendo crises de ansiedade e isso a levou das bebidas finas aos cigarrinhos de maconha para relaxar, quando esses se tornaram ineficazes passou a dar um “teco no pó” para dar um up nas emoções. Daí para o uso do crack foi um pulo e a dependência se instalou no organismo, ultimamente só consegue usar a droga e dormir.


Com isso o casamento acabou, o lindo corpo hoje é um arremedo de ser humano que passa anônimo pelas pessoas que ontem a desejavam e hoje não conseguem reconhece-la.


Ela ia caminhando na minha frente rumo a parada de ônibus. Eu, atrás dela bebia sua história e pensava em quantas pessoas, de diferentes classes sociais, de diferentes correntes culturais tem o destino modificado pela ambição de ter muito pelo caminho mais fácil e pelo uso infeliz e em grande quantidade de substâncias que são como os falsos amores, prometem o mundo a seus pés, mas levam até o último suspiro de vida que você tiver.


Aquela que muitas vezes viu alguém abrir a porta de trás do carro para que ela, a madame mais perfumada, a mulher mais desejada entrasse e olhasse para o lado oposto dos olhares que imploravam um retorno, agora pega um ônibus de linha municipal empoeirado e barulhento com destino a uma rua cheia de poeira quando faz sol e lama quando chove.


O sol já estava alto e já iluminava todo o morro da torre, o vento da manhã me soprava a face secando uma gota de lágrima que deixei rolar de propósito em homenagem a ela.


Definitivamente, por este caminho o final nunca é feliz.


Obs: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com o real é mera coincidência.

 

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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.