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'Sem nome e vítima do quarto da empregada': SP elege 1ª doméstica na Alesp

O número de votos que recebeu é seis vezes maior do que o tamanho da população de Floresta, no sertão de Pernambuco, onde nasceu


Foto: MTST/Divulgação
Foto: MTST/Divulgação

UOL - No caminho entre a terra natal e São Paulo, ela perdeu o próprio nome: deixou de ser Ediane Maria para ser apenas aquela que trabalha na casa de alguém. Com muito trabalho e poucos direitos, perdeu também a liberdade: chegou a ser esquecida presa em casa pelos patrões e foi, por duas vezes, "vítima do quarto da empregada", como costuma dizer.


Em janeiro, Ediane Maria, 38, passará a ocupar uma nova casa: eleita com 175 mil votos pelo PSOL, será a primeira empregada doméstica na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O número de votos que recebeu é seis vezes maior do que o tamanho da população de Floresta, no sertão de Pernambuco, onde nasceu.



Aos 18 anos, Ediane cumpriu o destino: tomou um ônibus em Pernambuco — com um pouco de frango e farinha na bagagem — para cuidar dos filhos de uma mulher que já havia sido patroa da mãe dela. Jovens migrantes como Ediane desembarcaram suas esperanças na rodoviária do Tietê, na zona norte, e nunca mais se viram.


"Cheguei em São Paulo em 2002, com apenas uma mochila", lembra. Na época, achava que seria professora, mas a conclusão dos estudos, por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), só veio 15 anos depois.


"Encontrei um quarto da empregada. Minhas amizades se restringiam às meninas que trabalhavam no prédio, ao porteiro, ao motorista de ônibus", conta. O primeiro registro em carteira foi em 2015.


"A primeira coisa que perdi foi a minha identidade: em Pernambuco, eu era filha de Raimunda, filha de canoeiro, eu era filha de alguém, eu era alguém, tinha nome e todo mundo me chamava pelo nome", diz ela. "Em São Paulo, você é a que trabalha na casa de alguém. A referência é o patrão, não é mais você.


" Em um dos empregos que teve, Ediane lembra que, certa vez, os patrões saíram para fazer compras e não voltaram mais.




"Fiquei desesperada. Ninguém me ligou, ninguém falou nada. Mandaram os bombeiros para me resgatar", lembra a deputada. "Fui vítima do quarto da empregada." Agora na Alesp, quer colocar em pauta direitos das empregadas domésticas.


"Todo mundo teve ou conhece alguém que é diarista. Mas as pessoas não enxergam como classe trabalhadora", afirma.


Coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) — que conheceu em 2017 na fila do leite —, a deputada também pretende apoiar na Alesp pautas ligadas à moradia e combate à fome, como as cozinhas solidárias.


Preta e moradora da periferia de Santo André, no ABC paulista, ela diz que no início as pessoas até tinham "certa cisma" com com a sua candidatura, mas as resistências se dissipam logo, acredita.


"A gente vai quebrando tabus. É um corpo negro, imigrante do sertão do pernambucano, em espaços da política que não são ocupados por pessoas como nós", diz. "Minha candidatura abre espaço para que mais mulheres negras ousem chegar nesse lugar."


Além de Ediane, o MTST elegeu Guilherme Boulos (PSOL) como deputado federal: foi o candidato mais votado por São Paulo, com mais de 1 milhão de votos. Já entre os 15 candidatos lançados oficialmente pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), seis conseguiram a eleição — dois deles no legislativo federal.


As candidaturas pretendem ser oposição em casas legislativas com alto número de parlamentares eleitos ligados ao PL, partido do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro. Na Câmara dos Deputados, o PL conseguiu a maior bancada: de 99 parlamentares.

 

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