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Vô Hélio - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Foto: Reprodução Internet
Foto: Reprodução Internet

Ali pelos lados do bairro Boa Vista, numa das subidas do Morro do Abacatão, mora meu amigo Hélio. Parceiro de algumas farras das madrugadas nos idos anos oitenta. Ele e seu avô, o Vô Hélio, não se desgrudavam. Aos domingos, pela manhã, pegavam o ônibus cedinho com destino à feira de Neves onde compravam caranguejos para passarem o domingo contando e ouvindo histórias que Vô Hélio se dizia protagonista.


Era mais herói do que Simbá, aquele marujo que enfrentou todos os monstros marinhos e ainda se amarrou no mastro da embarcação para ouvir as sereias cantarem e não ser enfeitiçado pelos lindos cânticos e vozes. Vô Hélio além de ouvi-las cantar ainda engravidou uma delas, jurava ter um filho tritão.


Vô Hélio também era exímio empinador de pipas e ninguém no mundo fazia pipas mais bonitas e de todos os tamanhos e formas. Vô Hélio construía carrinhos de rolimã, armadilhas de pegar passarinho e inventava muitas brincadeiras.


Vô Hélio era tão gente boa que no dia de seu velório ninguém conseguia chorar. As lembranças eram todas de gargalhar, não existiu nem um dia nascido de uma lágrima de Vô Hélio, não existe ninguém no mundo que pode afirmar já ter visto Vô Hélio de mau humor ou triste.


As gargalhadas eram ouvidas pelos passantes pela porta da capela do Cemitério Central de São Gonçalo que sem entenderem o motivo das gargalhadas entravam para ver o que estava acontecendo e ao ouvirem as histórias iam ficando e comendo um bolinho de chuva e tomando um café.



Os mais chegados provavam uma “purinha” que tio Chico sempre trazia de Cachoeiras de Macacu e tiravam o gosto da malvada com um torresminho feito por tia China.


Vô Hélio era confidente dos adolescentes e dava conselhos quando o coração de alguém fazia os olhos de outro alguém lacrimejar, foi padrinho de muitos casamentos e batizou também boa parte da gurizada vizinha.


Encontrei meu amigo Hélio depois de muitos anos, ele estava sentado num banco em frente ao Hospital das Clínicas com uma marionete nas mãos, aproximei-me festivamente e depois de um forte abraço de saudade vi que meu amigo tinha um ar de felicidade estampado no rosto e antes que eu perguntasse o motivo ele foi logo falando:


_ Meu Vô era Hélio. Meu pai era Hélio. Eu sou Hélio. Meu filho é Hélio e acaba de nascer meu neto, mais um Hélio. Esse marionete meu Vô Hélio me ensinou a fazer e me ensinou a fazer um montão de coisas e me ensinou a contar um montão de histórias. Eu vivi cada uma delas junto com ele e agora me preparo para encarnar o mais difícil dos personagens da mais difícil aventura por mim vivida. Quando cheguei aqui a primeira pessoa que me cumprimentou me disse: _“parabéns Vô Hélio!”


Quando entrei no berçário e olhei meu neto, vi a figura do meu avô, do meu Vô Hélio nós olhinhos dele.


Hélio abriu os braços e gritou forte e feliz: _Eu sou Vô Hélio!


E me abraçou e pulamos juntos como há quarenta anos atrás em nossa juventude.


Me despedi do meu amigo com o coração feliz. Que bom, no meio do caos que se encontra este país ter alguém feliz! Que bom!!!!!


“... Vida espero eu, meu filho encontrar meu olhar em cada filho seu!”

 

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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.