Bolsa Família: o dinheiro que alimenta as famílias também movimenta nossas Cidades
Por Oswaldo Mendes

Quando se fala em Bolsa Família, geralmente a discussão fica concentrada em quem recebe o benefício. Mas esse dinheiro segue um caminho que alcança muito mais gente. Ele passa pelo mercadinho, pela padaria, pela farmácia, pelo açougue e por outros estabelecimentos. Ajuda a colocar comida na mesa e também participa do movimento que mantém negócios, empregos e serviços.
Em São Gonçalo, Itaboraí, Niterói, Maricá, Rio Bonito, Magé, Guapimirim, Tanguá, Silva Jardim, Saquarema, Araruama e Cachoeiras de Macacu, os dados do Ministério do Desenvolvimento Social para outubro de 2026 mostram 228.053 famílias atendidas, reunindo 557.725 pessoas. São R$ 177,39 milhões por mês destinados a essas famílias. Se esse valor permanecesse durante 12 meses, representaria aproximadamente R$ 2,13 bilhões.
É um dinheiro cuja importância precisa ser observada dentro de casa e também nas ruas dessas cidades.
A discussão ganhou espaço com a proposta de transição de dois anos apresentada pela coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, ligada à entrada no emprego formal ou à abertura de um negócio. Pelas informações divulgadas, não é possível afirmar que todas as famílias perderiam o benefício depois desse prazo. Também não se sabe quantas seriam atingidas em cada município.
Mesmo assim, cabe uma pergunta: o que acontece com a cidade quando uma família perde essa renda e não consegue substituí-la?
Para dar uma dimensão dos valores, consideramos uma redução hipotética de 10% dos pagamentos. Não se trata de corte anunciado ou de previsão sobre a proposta. É uma forma de mostrar quanto representa uma parcela desse dinheiro no orçamento das famílias. A perda do benefício também não corresponde, necessariamente, a uma queda igual nas vendas, pois parte das despesas é feita com serviços, contas domésticas ou compras fora do município.
São Gonçalo reúne 72.244 famílias beneficiárias, com 178.385 pessoas atendidas, e R$ 56,06 milhões mensais. Uma redução de 10% significaria aproximadamente R$ 5,61 milhões a menos por mês para essas famílias. Sem outra renda, seria necessário cortar despesas. Parte desse aperto chegaria aos estabelecimentos onde elas compram, enquanto a prefeitura poderia enfrentar maior procura por assistência social.
Itaboraí tem 29.952 famílias atendidas, abrangendo 69.543 pessoas, com R$ 23,14 milhões mensais. Na mesma simulação, seriam R$ 2,31 milhões a menos por mês no orçamento familiar. Menos dinheiro disponível pode significar menos compras, contas atrasadas e dificuldades para comerciantes que dependem do movimento cotidiano. O município também poderia precisar ampliar o atendimento às famílias em situação de necessidade.
Niterói registra 33.376 famílias beneficiárias, reunindo 78.581 pessoas, com R$ 26,08 milhões mensais. A redução hipotética seria de R$ 2,61 milhões por mês. A diversidade econômica da cidade não elimina a importância desse recurso para quem depende dele. A perda sem compensação poderia afetar despesas básicas, o comércio frequentado por essas famílias e a demanda pelos serviços públicos.
Maricá conta com 15.800 famílias atendidas, abrangendo 42.951 pessoas, e R$ 12,43 milhões mensais. Uma redução de 10% retiraria aproximadamente R$ 1,24 milhão por mês da renda dessas famílias. O resultado dependeria das demais fontes de sustento e das políticas de proteção disponíveis, mas a falta desse dinheiro poderia chegar às compras de alimentos, aos pagamentos domésticos e ao movimento dos negócios locais.
Rio Bonito tem 6.339 famílias beneficiárias, com 14.160 pessoas atendidas, e R$ 4,83 milhões mensais. Na simulação, a perda seria de aproximadamente R$ 482,5 mil por mês. Para quem vive com o orçamento apertado, a redução pode exigir escolhas entre despesas essenciais. Para o comércio, pode representar menos vendas; para a prefeitura, mais famílias precisando de apoio.
Magé reúne 29.630 famílias atendidas, abrangendo 72.329 pessoas, com R$ 23,36 milhões mensais. Uma retirada de 10% representaria aproximadamente R$ 2,34 milhões por mês. Sem reposição dessa renda, haveria menos recursos para o consumo das famílias, com possíveis reflexos nas vendas, nos pedidos aos fornecedores e na procura por assistência pública.
Guapimirim registra 7.165 famílias beneficiárias, com 16.785 pessoas, e R$ 5,58 milhões mensais. A redução hipotética seria de R$ 558,2 mil por mês. Esse valor faz parte do dinheiro disponível para compras e pagamentos cotidianos. Sua ausência poderia comprometer o sustento familiar, diminuir o movimento comercial e aumentar a necessidade de atendimento social.
Tanguá tem 4.334 famílias atendidas, reunindo 10.137 pessoas, com R$ 3,33 milhões mensais. Uma redução de 10% significaria aproximadamente R$ 332,6 mil a menos por mês. O aperto começaria no orçamento das famílias e poderia alcançar os estabelecimentos onde fazem suas compras, além de ampliar a pressão sobre a rede pública de proteção.
Silva Jardim conta com 2.019 famílias beneficiárias, abrangendo 5.344 pessoas, e R$ 1,57 milhão mensal. A perda simulada seria de aproximadamente R$ 156,5 mil por mês. É o menor valor absoluto entre as cidades analisadas, mas isso não significa pouca importância para o município. Para medir essa importância, é preciso considerar o tamanho da economia local e a situação das famílias atendidas.
Saquarema reúne 8.209 famílias beneficiárias, com 21.620 pessoas, e R$ 6,43 milhões mensais. Na hipótese de redução de 10%, seriam aproximadamente R$ 642,7 mil a menos por mês. Sem outra renda, as famílias precisariam reorganizar suas despesas, podendo reduzir compras e buscar ajuda nos serviços públicos.
Araruama registra 13.418 famílias atendidas, abrangendo 33.882 pessoas, com R$ 10,38 milhões mensais. A redução hipotética representaria aproximadamente R$ 1,04 milhão por mês. Esse dinheiro deixaria de compor o orçamento familiar e poderia fazer falta também no caixa dos estabelecimentos frequentados pelos beneficiários.
Cachoeiras de Macacu conta com 5.567 famílias beneficiárias, reunindo 14.008 pessoas, com R$ 4,22 milhões mensais. Na mesma simulação de redução de 10%, seriam aproximadamente R$ 422 mil a menos por mês na renda dessas famílias. Sem outra fonte de sustento, esse dinheiro faria falta nas despesas básicas e poderia reduzir as compras no comércio. A prefeitura também poderia enfrentar maior procura por assistência social, além de possíveis efeitos indiretos sobre a arrecadação, que não podem ser quantificados com os dados disponíveis.
Somadas as 12 cidades, a redução de 10% representaria R$ 17,74 milhões mensais a menos para as famílias. Durante um ano, mantidas as mesmas condições, seriam aproximadamente R$ 212,87 milhões.
O efeito sobre o comércio dependeria de quanto dessa renda é gasto em cada cidade e de sua substituição por salários ou outras fontes. Se uma família deixa o programa porque conquistou renda suficiente e estável, pode continuar comprando e melhorar suas condições de vida. A preocupação é com quem perde o benefício e continua sem condições de se sustentar.
Há estudos que mostram a ligação entre o Bolsa Família e os negócios locais. Uma pesquisa publicada na Revista Valore, com 121 famílias de Itapetinga, na Bahia, encontrou que quase todos os entrevistados faziam compras no comércio local e 87,6% mencionaram mercadinhos. Isso ajuda a entender a presença do benefício no comércio de bairro, embora não permita dizer que essa mesma proporção do dinheiro fique nesses estabelecimentos em todo o Brasil.
Outro estudo, de François Gerard, Joana Naritomi e Joana Silva, identificou que a expansão do programa aumentou a atividade econômica municipal e produziu efeitos positivos sobre a arrecadação. São evidências de que a transferência alcança também pessoas e empresas que não recebem diretamente o benefício.
Por isso, micro, pequenos e médios empresários fazem parte dessa discussão. Uma família compra alimentos; o comerciante recebe, paga despesas, repõe mercadorias e movimenta seus fornecedores. Parte dos recursos continua circulando perto de onde a família mora, enquanto outra parte segue para empresas de outras localidades.
Ainda não há dados que permitam afirmar que a maioria dos valores pagos nas 12 cidades fica com empresas de determinado porte. Mas há fundamento para reconhecer que os negócios locais participam dessa circulação e podem ser prejudicados quando seus clientes perdem renda.
As prefeituras também têm interesse nessa questão. O Bolsa Família é pago às famílias, não aos cofres municipais. Seu efeito sobre as contas públicas é indireto, pela atividade econômica e pela necessidade de atendimento à população. Menos consumo pode afetar receitas tributárias, conforme as regras de arrecadação e repartição, ao mesmo tempo em que mais famílias podem precisar de apoio. Não há base, porém, para atribuir um valor exato dessa possível perda a cada prefeitura ou dizer que todo o benefício retorna em impostos e taxas.
Existe ainda uma preocupação com a segurança. Um estudo de Laura Chioda, João Manoel de Mello e Rodrigo Soares, publicado em 2016, identificou redução da criminalidade após a ampliação do Bolsa Família para adolescentes em São Paulo, especialmente nos crimes contra o patrimônio. A pesquisa mostra que a proteção social pode contribuir também para a prevenção.
Isso não autoriza associar pobreza à prática de crimes, nem afirmar que um corte provocaria automaticamente aumento da violência. Permite, entretanto, considerar que a perda de renda sem alternativa de sustento pode agravar vulnerabilidades e enfraquecer uma proteção importante para as famílias e para a comunidade.
Antes de qualquer cálculo econômico, há a comida na mesa. Pesquisas sobre o programa mostram melhora no consumo de alimentos entre as famílias atendidas. Essa é uma contribuição concreta para o combate à fome e para a qualidade de vida.
Superar a fome de forma duradoura exige também emprego, saúde, educação e oportunidades. A saída desejável do Bolsa Família acontece quando a família consegue viver melhor com sua própria renda. Quando o pagamento acaba e a necessidade permanece, o problema continua dentro de casa e pode se espalhar pela cidade.
É esse caminho que precisa ser acompanhado em qualquer mudança: o que acontece com as pessoas depois, como fica sua capacidade de comprar o básico e quais são as consequências para os negócios e os serviços públicos. Nos municípios analisados, mais de meio milhão de pessoas fazem parte dessa realidade.
Uma redução abrupta do Bolsa Família, sem outra renda que substitua o benefício, poderá trazer perdas para as famílias, para o comércio local e para os órgãos públicos.
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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.









































































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