Caso Ana Clara: Flávio Bolsonaro atuou para evitar júri de PM acusado de matar menina de 5 anos em Niterói
Senador atuou na defesa de Bruno Dias Delaroli, acusado pela morte da criança na comunidade do Monan Pequeno. Episódio voltou à tona no debate presidencial de domingo (18)
Por Cláudio Figueiras

A morte de Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, atingida por um tiro de fuzil enquanto brincava na porta de casa, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói, voltou ao debate nacional neste domingo (18). Durante o confronto presidencial na Band, Lula questionou Flávio Bolsonaro (PL) por sua atuação como advogado do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo crime.
Em 2024, quando já exercia o mandato de senador, Flávio assinou, com outros advogados, um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento do policial pelo Tribunal do Júri.
O episódio ganhou repercussão nas redes sociais após o debate e trouxe novamente à atenção pública um crime ocorrido há mais de cinco anos, ainda sem julgamento.
Ana Clara brincava com o irmão quando foi atingida
Ana Clara morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade do Monan Pequeno, onde morava com a família. Ela brincava na calçada de casa, acompanhada do irmão de dois anos, quando foi atingida durante uma ação da Polícia Militar.
Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, o disparo partiu da arma do então cabo Bruno Dias Delaroli, integrante do 12º BPM, responsável pelo policiamento de Niterói.
A denúncia sustenta que o policial disparou em direção a uma área residencial, assumindo o risco de atingir moradores. A defesa afirma que ele reagiu a um ataque de criminosos armados.
A investigação não encontrou cápsulas de pistola que confirmassem a alegada troca de tiros. A perícia identificou vestígios de munição compatíveis com o fuzil utilizado pelo policial.
Delaroli chegou a ser preso, mas passou a responder ao processo em liberdade em novembro de 2021.
A atuação de Flávio Bolsonaro
A Justiça fluminense determinou que Bruno Dias Delaroli fosse submetido ao Tribunal do Júri, responsável pelo julgamento de crimes dolosos contra a vida.
Flávio Bolsonaro, que também é advogado, passou a integrar a defesa do policial e assinou um recurso apresentado ao STJ para tentar derrubar essa decisão. A tentativa não teve êxito.
A Constituição garante a qualquer acusado o direito à ampla defesa. A atuação de um advogado não representa, por si só, irregularidade.
A particularidade do episódio é a decisão de um senador da República de atuar pessoalmente na defesa de um policial acusado de matar uma criança durante uma operação de segurança pública. A escolha ganha relevância pública porque envolve um parlamentar que também participa das discussões legislativas sobre segurança e atuação policial.
Durante o debate, Lula cobrou explicações do adversário. Flávio respondeu que o presidente tentava criminalizar o exercício da advocacia e antecipar uma condenação judicial.
O policial permanece acusado, sem condenação pelo homicídio de Ana Clara.
Cinco anos à espera de julgamento
A história da menina também foi abordada no documentário O Julgamento que Nunca Aconteceu, terceiro episódio da série jornalística Revelando, narrado pela atriz Camila Pitanga.
Mais de cinco anos após a morte de Ana Clara, o processo ainda não havia chegado ao Tribunal do Júri. A discussão no debate presidencial trouxe novamente à atenção pública a morte da criança, a atuação do senador na defesa do policial e a demora na conclusão do caso.
Outros vínculos de Flávio Bolsonaro com policiais envolvidos em acusações criminais
Além da defesa de Bruno Dias Delaroli, Flávio Bolsonaro possui registros de atuação profissional e de relações políticas com outros policiais que responderam a acusações criminais. Os episódios envolvem circunstâncias e períodos diferentes.
ADRIANO DA NÓBREGA — HOMENAGENS E FAMILIARES NO GABINETE
Em 2003, quando era deputado estadual, Flávio apresentou uma moção de louvor ao então tenente Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-integrante do Bope. Em 2005, concedeu-lhe a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio, quando o policial estava preso.
Anos depois, o Ministério Público apontou Adriano como integrante de uma milícia e chefe do chamado Escritório do Crime. A mãe e a então esposa do ex-capitão trabalharam no gabinete de Flávio na Alerj. Adriano morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia.
RONALD PAULO ALVES PEREIRA — HOMENAGEM ANTERIOR AO CASO MARIELLE
Em 2004, Flávio apresentou uma moção de louvor ao então capitão Ronald Paulo Alves Pereira, conhecido como Major Ronald, por uma operação policial na Maré.
Em fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou Ronald a 56 anos de prisão por sua participação nos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, ocorridos em 2018.
A homenagem ocorreu 14 anos antes do crime. Flávio não foi acusado de participação nos assassinatos.
POLICIAIS DO VIDIGAL — ATUAÇÃO COMO ADVOGADO
Em 2024, Flávio recebeu procuração de quatro policiais militares acusados de matar quatro homens no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio, em janeiro de 2020.
O Tribunal de Justiça do Rio reverteu a decisão que determinava o julgamento dos policiais pelo júri. Em junho de 2025, o STJ manteve esse entendimento. O processo aguardava uma definição do STF. A defesa dos agentes sustenta a tese de legítima defesa.
Os episódios abrangem homenagens parlamentares, vínculos com assessores e atuação profissional como advogado. Esses fatos não demonstram participação de Flávio nos crimes atribuídos aos policiais, mas compõem o histórico público de suas relações com integrantes das forças de segurança.
Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.
Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.









































































Comentários