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'Garotas do job', churrasco na lancha e Rolex: empresários deram 'mimos' a Flávio por compra de vacina Covaxin

há 2 horas
4 min de leitura

Investigação reconstrói passeio de lancha em Brasília, organizado por empresários interessados em vender vacinas ao governo Bolsonaro; senador também intermediou reunião de um dos envolvidos com o presidente do BNDES


Flavio/Foto: reprodução
Flavio/Foto: reprodução


O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) participou de uma festa em uma lancha com empresários interessados em vender vacinas ao governo de seu pai, Jair Bolsonaro, e três garotas de programa, em julho de 2020, quando o Brasil enfrentava uma das fases mais graves da pandemia de Covid-19. Ao final do encontro, teria recebido um relógio Rolex de um dos empresários.


A revelação é da revista piauí, que publicou na quarta-feira (21) a reportagem investigativa Uma tarde no lago, dos jornalistas João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires. A apuração reuniu relatos de uma pessoa presente na embarcação, registros de voos, entrevistas e documentos de comissões parlamentares de inquérito.


O encontro ocorreu em 17 de julho de 2020, no Lago Paranoá, em Brasília. Os organizadores foram Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, ligados à Precisa Medicamentos, empresa que intermediava negociações para o fornecimento da vacina indiana Covaxin ao Ministério da Saúde.


Segundo a revista, os empresários pretendiam se aproximar do filho do então presidente para facilitar seus negócios com o governo federal.


Na noite anterior, Trento, Maximiano e o agente de viagens Raphael Barão viajaram de São Paulo para Brasília em um jato executivo Embraer Phenom 300. A aeronave também transportou três garotas de programa, que participaram do encontro no dia seguinte.


Flávio chegou à lancha acompanhado de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio em uma franquia da Kopenhagen. Santini também havia sido mencionado nas investigações sobre o suposto esquema de rachadinhas no antigo gabinete do senador na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.


O passeio durou aproximadamente quatro horas e meia. Segundo a piauí, Flávio teria descido à cabine da embarcação acompanhado de uma das mulheres. Ao final, Danilo Trento teria retirado um Rolex do próprio pulso e entregue o relógio ao parlamentar.


Negócios com o governo Bolsonaro


A relação entre os participantes do encontro ganhou importância posteriormente, durante a CPI da Pandemia, instalada pelo Senado em 2021.


A Precisa Medicamentos esteve no centro das investigações sobre a tentativa de compra de 20 milhões de doses da Covaxin pelo Ministério da Saúde. O contrato previa valores superiores aos de outros imunizantes e foi alvo de suspeitas de irregularidades.

O negócio acabou cancelado antes que o governo realizasse pagamentos.


Trento e Maximiano foram investigados pela CPI, que apontou suspeitas relacionadas às negociações e recomendou o indiciamento de empresários envolvidos. Flávio Bolsonaro também foi incluído entre os nomes para os quais a comissão recomendou indiciamento, por acusação de incitação ao crime.


A reportagem da piauí acrescenta um episódio até então desconhecido à relação entre o senador e os empresários.


Três meses depois do passeio, em outubro de 2020, Flávio intermediou uma reunião entre representantes ligados a Francisco Maximiano e Gustavo Montezano, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).


O encontro tratou de possibilidades de financiamento para uma empresa de telecomunicações associada ao empresário. Flávio confirmou ter solicitado que o banco examinasse uma proposta de ampliação do acesso à internet nas regiões Norte e Nordeste, mas negou manter negócios com Maximiano.


Segundo o BNDES, nenhuma operação de financiamento foi contratada.


Relação com os empresários continuou após o passeio


A reportagem também recupera uma viagem oficial de Flávio a Las Vegas, em janeiro de 2020, período em que Danilo Trento esteve na cidade. A viagem do senador teve despesas de R$ 12,5 mil em diárias e foi justificada como parte de uma agenda de promoção do turismo e atração de investimentos.


A coincidência das viagens não comprova que os dois tenham se encontrado naquela ocasião.

Em depoimento à CPI da Pandemia, Trento reconheceu conhecer Flávio e afirmou ter participado de eventos públicos com o senador. Durante os trabalhos da comissão, Flávio defendeu a Precisa Medicamentos e elogiou publicamente uma de suas representantes, Emanuela Medrades.


Revelação chega às vésperas do segundo turno


A investigação foi publicada quatro dias antes do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25), entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


Em julho de 2020, quando ocorreu o encontro, o Brasil já acumulava mais de 76 mil mortes por Covid-19. As primeiras vacinas contra a doença só começariam a ser aplicadas no país em janeiro de 2021.


Procurado pela piauí, Flávio não respondeu às perguntas sobre o passeio e o relógio. Danilo Trento interrompeu a comunicação com a revista após tomar conhecimento dos assuntos investigados. Os advogados de Francisco Maximiano também não apresentaram resposta.


A reportagem documenta uma relação pessoal entre o senador e empresários posteriormente investigados pela CPI da Pandemia. Não há, contudo, comprovação de que o encontro tenha produzido uma contrapartida na negociação da Covaxin.


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