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Manaus, que ficou sem oxigênio sob Bolsonaro, lota ruas para receber Flávio cinco anos depois

há 33 minutos
3 min de leitura

Capital amazonense foi palco de um dos episódios mais graves da pandemia e do lançamento do TrateCov, aplicativo do governo federal que recomendava medicamentos sem eficácia contra a Covid-19


Por Cláudio Figueiras


Fotos: reprodução Instagram
Fotos: reprodução Instagram

Cinco anos depois de hospitais ficarem sem oxigênio e pacientes morrerem por asfixia durante a pandemia, Manaus voltou a ganhar destaque nacional por causa da família Bolsonaro. Desta vez, pelas imagens de uma multidão reunida para receber Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.


Segundo reportagem publicada nesta terça-feira (20) pelo Metrópoles, apoiadores do senador lotaram as proximidades da Praça dos Cocos, na Ponta Negra, zona oeste da capital amazonense, na noite de segunda-feira (19).


O ato, chamado de “Bloquinho do 22”, contou com a presença do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), de Lucas Pavanato (PL-SP), do senador eleito Marcel van Hattem (Novo-RS) e da candidata ao governo do Amazonas, Professora Maria do Carmo (PL). Os participantes acompanharam um trio elétrico pela orla, com discursos contra Lula e o PT.


As imagens da mobilização contrastam com um capítulo recente da história da cidade: o colapso sanitário de janeiro de 2021, ocorrido durante o governo de Jair Bolsonaro, pai do atual candidato.


Quando faltou oxigênio para respirar


Em 14 de janeiro de 2021, hospitais de Manaus ficaram sem oxigênio medicinal em meio à segunda onda da Covid-19. Pacientes morreram por asfixia, enquanto familiares percorriam a cidade em busca de cilindros para manter seus parentes vivos.


O colapso não ocorreu sem avisos. O Ministério da Saúde, comandado pelo general Eduardo Pazuello, havia recebido alertas sobre o crescimento das internações e a iminente escassez do insumo.


Documentos examinados pela CPI da Pandemia mostraram pedidos de ajuda e informações sobre o agravamento da situação hospitalar antes do esgotamento dos estoques.


A crise levou à transferência de centenas de pacientes para outros estados e se tornou um dos principais objetos da investigação parlamentar sobre a condução federal da pandemia.


Manaus também recebeu o aplicativo da cloroquina


Três dias antes do colapso, em 11 de janeiro, o Ministério da Saúde apresentou em Manaus o TrateCov, aplicativo desenvolvido para orientar profissionais de saúde no atendimento a pacientes com suspeita de Covid-19.


A ferramenta recomendava medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, mesmo sem comprovação de eficácia contra a doença.


A apresentação ocorreu durante visita de Pazuello à cidade. A então secretária do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro, conhecida como “capitã cloroquina”, também participou das ações federais no Amazonas.


O aplicativo foi posteriormente retirado do ar. O Conselho Federal de Medicina havia solicitado sua suspensão, apontando problemas relacionados à segurança das informações e à recomendação de medicamentos sem validação científica.


A CPI da Pandemia investigou a insistência do governo Bolsonaro no chamado “tratamento precoce”, enquanto o país enfrentava escassez de vacinas, leitos e insumos hospitalares.


Manaus, portanto, não foi apenas o cenário da crise do oxigênio. Foi também o local escolhido pelo governo federal para apresentar uma ferramenta de promoção de tratamentos sem eficácia comprovada, em meio ao agravamento da emergência sanitária.


Cinco anos depois, a mobilização bolsonarista


O ato desta segunda-feira mostrou a capacidade de mobilização da candidatura de Flávio Bolsonaro na capital amazonense.


Durante a passagem pela cidade, o senador criticou o governo Lula pela situação das queimadas na Amazônia e prometeu ampliar as ações de combate aos incêndios florestais.


A região enfrenta uma nova emergência ambiental. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais citados pelo Metrópoles, o Amazonas registrou 5.365 focos de incêndio entre 1º de setembro e 14 de outubro, crescimento de 195% em relação ao mesmo período do ano anterior.


A presença de uma multidão no ato revela que o bolsonarismo mantém capacidade de reunir apoiadores na cidade que se tornou símbolo das consequências da pandemia e das falhas na resposta do poder público.


O contraste entre os dois momentos é também um retrato da disputa pela memória política recente do país.


Em janeiro de 2021, Manaus aparecia nas manchetes internacionais por seus hospitais sem oxigênio. Em outubro de 2026, voltou ao noticiário nacional com ruas tomadas por apoiadores do filho do presidente que governava o Brasil durante aquela tragédia.


A passagem do tempo não altera os fatos documentados pela CPI da Pandemia. E a mobilização eleitoral de agora acrescenta um novo capítulo à relação da cidade com o bolsonarismo.


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