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Meu amigo coiffeur bolsonarista

há 3 horas
2 min de leitura

Por Helcio Albano


Arte: Jornal Daki com IA
Arte: Jornal Daki com IA


Na sexta (17) fui ao meu coiffeur bolsonarista preferido cortar o bêlo. Embora 50+, a cabeleira é densa. E alvos tufos aparentes. Queria ter ido antes em seu salão pra sentir a temperatura do 1º turno e, quem sabe, barganhar alguns votos nos meus "comunistas". Ele gosta quando falo de política. E sinto ali até admiração genuína.


É um bolsonarista sui generis. Gosta de ouvir e aprender. A China, por exemplo, o encanta. Diz ser contra o comunismo, o socialismo e "toda essa coisa de esquerda" que não funciona e "escraviza as pessoas na pobreza e na opressão".


É uma sensação perturbadora. Enquanto fala, senhor de minha vida com tesoura e navalha na mão, vejo pelo reflexo do espelho não mais o meu querido amigo coiffeur, mas qualquer um desses comentaristas da revista Oeste, Gazeta e Jovem Pan. E agora também os homiziados na Flórida.


Em algum momento, enfim - cheio de tato, pisando em ovos - entramos no 2º turno. Confesso que por minha iniciativa. Ele, como orgulhoso microempreendedor, deve ter gostado da decisão de Lula em ajudar os MEIs. Cabreiro, quase mineiro, quis entender que diabo era aquilo de perdoar dívida e dar 0800 5 conto pra cada um igual a ele.


"Mas só vai ter isso aí se ele ganhar a eleição", retrucou. Eu disse: é claro, por isso você tem que votar nele.


Lá pelas tantas, já um tanto ansioso, ele solta: mas "Lula é comunista".


Rebati: eu que sou, ele nem de esquerda é, como já declarou outras vezes.


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Foi quando ele saca do seu "Index Dictorum Lulae" contido no celular, um vídeo, bem antigo e editado, do Lula "exaltando" o comunismo. Às vezes via vídeos assim nos mais bizarros grupos bolsonaristas de WhatsApp, cheios de fakes. Mas eis ali, um simples trabalhador de bairro, ao seu modo politizado, munido de material de propaganda não pra defender alguém, mas destroçar o outro.


Ele ainda admitiu que no "índex" tinha Lula defendendo o aborto, bandido, drogas, o diabo e até o Flamengo, vascaíno que Lula é. Por sorte, lembrei desse vídeo, mas na íntegra, de um encontro interno do PT ainda nos anos 80 em que Lula, pelo contrário, fazia críticas ao marxismo e à revolução proletária.


Daí entendi que o esquema de 18 está intacto: marketing multinível e silencioso em grupos de interesse. E finalmente compreendi a resiliência eleitoral do Flávio Bolsonaro, mesmo sendo quem ele é.


A missão de jogar todos os problemas do país em cima de um partido e de um presidente funcionou. Pelo menos pra metade dos eleitores. No próximo domingo, saberemos se é metade mais 1.


Funciona excitar o ódio e mirar a quem odiar.


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Helcio Albano é jornalista e editor-chefe do Jornal Daki.

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